terça-feira, 28 de abril de 2015

O fracasso em atingir o êxto como uma barreira auto imposta

É notório por parte da obra freudiana, que a neurose ocorre devido as frustrações da vida do sujeito, desenvolvendo sua personalidade, suas características e modos de vida. No então há um caso muito interessante para notar isso, quando a neurose, ou os efeitos dessa sobre a vida do sujeito implicam diretamente em suas escolhas.
No artigo, Os arruinados pelo êxito, Freud fala do impedimento pela consciência do gozo do êxito, como algo que a consciência não permite que seja desfrutado por causa dos seus próprios princípios. O desejo inconsciente pode até ter se mostrado, quase ter sido finalizado, mas na hora de gozar de, a consciência impede. Ou como mais tarde Freud vai falar, a instância moral, superego, impede o gozo.
Freud realta dois casos, um de uma mulher que encontra um pintor ao qual vê como um sonho realizado a partir de seus ideais, mas que depois de morar com ele começa a ter certo delírio de perseguição dos parentes deste que a desajavam fazê-la parte da família; proibiu ao amante todo contato social e o prejudivou em sua carreira e logo sucumbiu em uma doença mental difícil de ser tratada.
Era bem nascida e bem educada; no entanto, ainda muito jovem não pode conter seu gosto de viver; fugiu de casa e perambulou pelo mundo em busca de aventuras, até travar conhecimento com um pintor, que não só pode apreciar seus encantos femininos, mas também captar, apesar de sua degradação, as qualidades mais reuintadas que ela possuía. Levou-a para viver com ele e ela provou ser uma companheira fiel, parecendo apenas carecer de reabilitação social para alcanáçr uma felicidade completa. Após muitos anos de vida em comum, o pintor conseguia fazer com que a família dele se reconciliasse com ela; estava então preparado para torná-la sua esposa legítima. Foi nesse momento que ela começou a desmoronar.”(FREUD, 2006, p. 331)
Freud fala que era incurável, mas prefiro deixar como algo difícil de se trabalhar devido ao fato que Freud neste tempo tinha grande atenção as neuroses e via a psicose e doenças do gênero como impossíveis de tratar.
Cita também Freud outro caso, de um jovem professor universitário que ao poder atingir o êxito em se tornar efetivamente um professor catedrático devido a um antigo professor ter se aposentado, nega a ascenção ao cargo e se diz indigno desta. Acaba desenvolvendo depois uma forte melancolia que o prejudica em sua vida profissional e funconal durante longo tempo.
Conforme Freud, a doença segiu deperto a realização de um desejo e a fruição do mesmo, sendo que,
Se o objeto no qual a libido encontra sua satisfação está contido na realidade, isso constitui uma frustração externa. Em si, ela é inoperante. Não patogênica, até que uma frustração interna se junte a ela. Esta última deve provir do ego, e deve disputar o acesso da libido a outros objetos, objetos estes que agora a libido procura aprender. Só então surge um conflito e a possibilidade de uma doença neurótica, isto é, de uma satisfação substitutiva alcançada indiretamente por meio do inconsciente reprimido. Por conseguinte, a frustração interna esta potencialmente presente em todos os casos, sóq ue não entra em ação até que a frustração externa real tenha preparado o terreno para ela. Nos casos excepcionais em que as pessoas adoecem por causa do êxito, a frustração interna atua por si mesma; na realidade, só surge depois que uma frustração externa foi substituída por realzação de um desejo.” (2006, p. 332)

De fato estex exemplos que Freud nos coloca, não são exclusivos de apenas alguns sujeitos, tal embate diante da realização de um desejo e a fruição do mesmo é comum observar no meio cotidiano, seja este no meio comum da vida familiar, a vida profissional, a vida acadêmica...
A realização de um desejo muitas vezes é acompanhada pela fruição do mesmo devido a diferentes condições. No entanto todas elas encontram-se no sujeito, ou acompanhando Freud, no seu mundo interno. Freud considera que o surgimento da doença só ocorre quando o desejo esta prestes a se realizar ou se realiza, o que coloca em questão a mudança da excitação externa para a interna.
Junto com esta surge a doença, algo que inibe o sujeito diante dele mesmo para que não fique a merê de si mesmo. Porém vai muito além de si mesmo, pois quando efetivada a realização do desejo, a auto recriminação do sujeito implica uma grande perda do tônus vital, como se agora tivesse sendo punido por ter realizado um desejo proibido.
Podemos tomar como exemplo de pessoa que sucumbe ao atingir o êcito, após lutar exclusivamente por ele com todas as suas forças, a figura de Lady Macbeth, criada por Sheakspeare. De início, não há qualquer sinal de conflito interno nela, qualquer esforço senão o de vencer os escrúpulos de seu ambicioso, embora compassivo, marido. Ela se mostra pronta a sacrificar até mesmo sua feminilidade à sua intenção assassina, sem refletir no papel decisivo que esta feminilidade deverá desempenhar quando, posteriormente, surgir a questão de preservar a finalidade de sua ambição alcançada através de um crime.” (FREUD, 2006, p. 333)

Seria longo de mais citar toda a cena onde o Macbeth planeja e executa o assassinato do rei em troca do trono. No entanto vale considerar o fato que depois de realizado o ato ela não consegue aceder ao trono, é algo ao qual ela não se vê digna. E é sob este ponto mesmo que é interessante nos deter por algum momento para analisar os efeitos do fracasso auto imposto na vida cotidiana.
É comum ouvirmos histórias semelhantes ao primeiro exemplo de Freud onde quando se tem acesso ao ideal de amor com o qual sempre se desejou unir, não se veja digno de poder realizar o desejo. Aqui também é importante considerar que como dizia Lacan, o ideal do desejo, é impossível de alcançar, algo que só pode ser mantido no ideal, pois se o sujeito gozar de, ele pode ficar vazio e perder todo o sentido.
Fracassar ao atingir o êxito ou ao triunfar, acaba acontecendo de diversas maneiras como foi dito também no início do texto. Mas é importante considerar com Freud e além de Freud, pois o fracaso ao atingir o êxito, ou medo do êxito, como desejo impossível são circunstâncias ao qual todos estamos dispostos em nossa vida.
Tais fatores se ligam ao sintoma, pois como Freud fala na conferência sobre os sintomas, eles tiram grande parte de nossa energia vital em favor do funcionamento da doença, em outras palavras, fracassar ao triunfar também fica a serviço de algo em nós, seja este em favor de nós mesmos como também como movimento infantil que não nos deixa crescer. Algo difícil de desenvolver sem uma análise detalhada da vida individual de quem se encontra diante da situação imposta pelo auto fracasso imposto a si mesmo como não digno ou não merecedor.
Disse logo no começo que diferente do que Freud disse no artigo, a punição vinha do superego (instância moral), e não da consciência. De fato o fracasso ao atingir o êxito como dito durante o desenvolvimento deste texto não esta somente em ocasiões excepcionais, pois muitas vezes o fracasso também ocorre como algo algo imposto sem nem mesmo nos percebermos de. Claro que aí a forma com que ocorre é diferente da exposta por Freud. No entanto se aproxima e vai ao mesmo caminho do que ele já havia começado a trabalhar aqui e veio a trabalhar mais especificamente depois dos anos 20. O traumatismo, a modificação da ameaça externa para a interna, a experiência traumatizante do sujeito.
Fracassar ao atingir o êxito é como uma forma de evitar a si mesmo que o trauma ganhe proporções internas, que ele venha a circular dentro do sujeito. Algo que implica um grande deslocamento da libido (energia) para que isso não ocorra. Daí o surgimento da doença em defesa do próprio sujeito.


FREUD S. Os arruinados pelo êxito. In: Obras completas, vol XIV. Rio de Janeiro: Imago, 2006.