quarta-feira, 9 de março de 2016

A depressão na clínica

Parafraseando Freud quando nos dispomos a formar uma opinião sobre a causação de um estado patológico, começamos por adotar o método anamnésico com o paciente e as pessoas que o cercam, a fim de descobrir sobre sua história os elementos que nos esclarecem seus sintomas e as possíveis origens da patologia. No entanto esse método, ainda se mostra como superficial, ocultando do paciente e do profissional que o investiga o cerne da questão.
Sob tais circunstâncias a psicanálise muito nos ensinou nas regras do tratamento analítico, como a que o paciente tudo diga que lhe vier à cabeça. Um método que se adapta conforme o tipo de pacientes que consultam o profissional. Gostaria de me deter aqui nas questões da depressão e os modos que esse se estrutura e o desafio que este representa a clínica e a ele mesmo.
O desencadeamento do estado depressivo, provocado pela perda daquilo que sustenta um sujeito o seu ideal do eu, tem como efeito, empregando as palavras de Freud, “uma perda no eu” ou “um empobrecimento da libido do eu.
A dor que sente aquele que está deprimido encontra seu argumento na autodepreciação, ou em seu derivativo, a auto acusação. Não há deprimido que não se sinta mal, e então mau, ruim, péssimo. O sentir-se bem não está muito longe do sentir-se bom, bom moço. O véu negro da depressão que sempre se encontra na autodepreciação toma hoje as vestes da baixa autoestima.
Essa perda, se caracteriza pelos vazios deixados dentro do sujeito, espaços em branco, marca vazia do tempo que não marca registro, nem sentido. A relação com o outro é fugaz, passageira, rápido lhe atende, mas nada deixa.
O outro no começo de sua vida, exige pouco, quase nada do futuro deprimido. “Poupado pelo outro do tempo de espera (do objeto de satisfação), a vida psíquica do futuro depressivo se inaugura com uma aposta baixa: ele precisa fazer muito pouco, quase nada para que a mãe compareça.” (KEHL, 2009, p. 228) O que deixa as marcas de sua dificuldade e indisposição para as escolhas da vida, entre tudo ou nada, “tanto faz”, se é para arriscar, então ele fica com nada. Acredita que sempre haverá alguém que irá o socorrer, proteger e cobrir seus erros. O que podemos classificar como os benefícios secundários da depressão.
O outro materno, no caso dos depressivos, se apresenta como um adulto ansioso e hipersolícito, se precipita com frequência para atender a cria, antes mesmo que essa possa manifestar sua insatisfação. Basta uma pequena demonstração de choro que a mãe já se encontra na presença da cria para lhe saciar. Mesmo que não saiba o quê, nem as reais necessidades apresentadas.
Dessa condição, fica a origem da impotência do sujeito depressivo, na fantasia materna, que representa o bebê como incapaz de enfrentar o menor tipo de desprazer e de esperar pelos tempos de espera e de vazio, representados pela onipotência da mãe que acredita em si mesma como potente e adora imaginar-se como única capaz de satisfazer e atender o bebê. Nas palavras de Winnicott, poderíamos dizer que esta, é uma mãe, mais que suficientemente boa.
Essa impotência, acompanha o sujeito por toda a vida, porém, não decorrem do fato de se ter tentado atrair a atenção do outro, mas sim do fato de ele ter sido poupado demais da ausência do outro.
Do ponto de vista da entrada em análise ou terapia, quando estes procuram, a sua condição de fragilidade dos mecanismos de defesa facilita a sua depressividade, condição primeira de vida psíquica. Porém essa passagem da depressão a depressividade, demanda tempo. A fala dirigida ao analista, na clínica da depressão tem a função primeiro de tudo, de construir um lugar - de ordem mais temporal que espacial, onde o sujeito possa se instalar. Vale ressaltar, também aqui a diferença da clínica das depressões, pois as interpretações do analista, também ficam em outro lugar comparada a clínica das neuroses. Aqui a questão, não é tudo interpretar, nem só interpretar, é preciso antes construir o lugar do paciente. Podeis se perguntar como? E de fato, é uma pergunta pertinente, pois às vezes é preciso que se passe um bom tempo para que o paciente possa começar a produzir algo útil, e dentro disso, é comum se questionar se o analista, está mesmo fazendo seu trabalho ou aí está se produzindo conversa de comadre. Pode até ser que a conversa seja assim, no entanto a escuta é analítica. E é isso que faz a diferença.

Referência Bibliográfica:
KEHL R. M. O Tempo e o cão. A atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo 2009.