Parafraseando
Freud quando nos dispomos a formar uma opinião sobre a causação de
um estado patológico, começamos por adotar o método anamnésico
com o paciente e as pessoas que o cercam, a fim de descobrir sobre
sua história os elementos que nos esclarecem seus sintomas e as
possíveis origens da patologia. No entanto esse método, ainda se
mostra como superficial, ocultando do paciente e do profissional que
o investiga o cerne da questão.
Sob tais
circunstâncias a psicanálise muito nos ensinou nas regras do
tratamento analítico, como a que o paciente tudo diga que lhe vier à
cabeça. Um método que se adapta conforme o tipo de pacientes que
consultam o profissional. Gostaria de me deter aqui nas questões da
depressão e os modos que esse se estrutura e o desafio que este
representa a clínica e a ele mesmo.
O desencadeamento do estado depressivo, provocado pela perda daquilo
que sustenta um sujeito o seu ideal do eu, tem como efeito,
empregando as palavras de Freud, “uma perda no eu” ou “um
empobrecimento da libido do eu.
A dor
que sente aquele que está deprimido encontra seu argumento na
autodepreciação, ou em seu derivativo, a auto acusação. Não há
deprimido que não se sinta mal, e então mau, ruim, péssimo. O
sentir-se bem não está muito longe do sentir-se bom, bom moço. O
véu negro da depressão que sempre se encontra na autodepreciação
toma hoje as vestes da baixa autoestima.
Essa
perda, se caracteriza pelos vazios deixados dentro do sujeito,
espaços em branco, marca vazia do tempo que não marca registro, nem
sentido. A relação com o outro é fugaz, passageira, rápido lhe
atende, mas nada deixa.
O outro
no começo de sua vida, exige pouco, quase nada do futuro deprimido.
“Poupado pelo outro do tempo de espera (do objeto de satisfação),
a vida psíquica do futuro depressivo se inaugura com uma aposta
baixa: ele precisa fazer muito pouco, quase nada para que a mãe
compareça.” (KEHL, 2009, p. 228) O que deixa as marcas de sua
dificuldade e indisposição para as escolhas da vida, entre tudo ou
nada, “tanto faz”, se é para arriscar, então ele fica com nada.
Acredita que sempre haverá alguém que irá o socorrer, proteger e
cobrir seus erros. O que podemos classificar como os benefícios
secundários da depressão.
O outro materno, no caso dos depressivos, se apresenta como um
adulto ansioso e hipersolícito, se precipita com frequência para
atender a cria, antes mesmo que essa possa manifestar sua
insatisfação. Basta uma pequena demonstração de choro que a mãe
já se encontra na presença da cria para lhe saciar. Mesmo que não
saiba o quê, nem as reais necessidades apresentadas.
Dessa condição, fica a origem da impotência do sujeito
depressivo, na fantasia materna, que representa o bebê como incapaz
de enfrentar o menor tipo de desprazer e de esperar pelos tempos de
espera e de vazio, representados pela onipotência da mãe que
acredita em si mesma como potente e adora imaginar-se como única
capaz de satisfazer e atender o bebê. Nas palavras de Winnicott,
poderíamos dizer que esta, é uma mãe, mais que suficientemente
boa.
Essa
impotência, acompanha o sujeito por toda a vida, porém, não
decorrem do fato de se ter tentado atrair a atenção do outro, mas
sim do fato de ele ter sido poupado demais da ausência do outro.
Do ponto
de vista da entrada em análise ou terapia, quando estes procuram, a
sua condição de fragilidade dos mecanismos de defesa facilita a sua
depressividade, condição primeira de vida psíquica. Porém essa
passagem da depressão a depressividade, demanda tempo. A fala
dirigida ao analista, na clínica da depressão tem a função
primeiro de tudo, de construir um lugar - de ordem mais temporal que
espacial, onde o sujeito possa se instalar. Vale ressaltar, também
aqui a diferença da clínica das depressões, pois as interpretações
do analista, também ficam em outro lugar comparada a clínica das
neuroses. Aqui a questão, não é tudo
interpretar, nem só interpretar, é preciso antes construir o lugar
do paciente. Podeis se perguntar como? E de fato, é uma pergunta
pertinente, pois às vezes é preciso que se passe um bom tempo para
que o paciente possa começar a produzir algo útil, e dentro disso,
é comum se questionar se o analista, está mesmo fazendo seu
trabalho ou aí está se produzindo conversa de comadre. Pode até
ser que a conversa seja assim, no entanto a escuta é analítica. E é
isso que faz a diferença.
Referência
Bibliográfica:
KEHL R.
M. O Tempo e o cão. A atualidade das depressões. São Paulo:
Boitempo 2009.