domingo, 31 de julho de 2016

A vida comparada a ficção

Para que um assunto se torne comum dentro da cultura, precisa ele adquirir seu espaço, seja através de uma renovação de ideias, ou que seja algo para todos. Nesta perspectiva, Winnicott, escrevia para um público em geral, mãe e pais, professores, psiquiatras, pediatras, além da comunidade psicanalítica.
De fato, antes que ele fizesse isso, Freud também já havia feito algo parecido, ao escrever a própria teoria psicanalítica de uma forma que fosse de fácil compreensão. No entanto, a questão vai além da teoria, se estende a vida cotidiana, sonhos, atos falhos, sentimentos, afetos e desafetos, em outras palavras a condição de existir e o modo de cada um.

Para melhor descrever, acerca do mundo pessoal de cada um, vou me valer da ficção, ótimo material para se refletir sobre as questões das vivências pessoais, dando o direito a interpretação e fantasia de quem o lê.
Uma das grandes formas como o disse, são pelas estórias contadas e inventadas pela ficção, onde diante da tormenta é possível sair um pouco desta e adentrar no mundo da fantasia.Uma estória assim, bastante conhecida, foi Harry Potter, uma estória que ganhou um fenômeno mundial devido ao próprio tema que conta. Uma de uma história de um menino que cedo fica órfão, mas recebe todo apoio vindo de fora, o que lhe possibilita uma questão mais ampla do que o ambiente familiar. Vale aqui considerar uma novação de Laplanche na psicanálise, quando trata da antropologia fundamental, ou seja, não se necessita que o drama inicial seja contado a partir de um mito, como o de édipo, esse vale apenas como forma de descrição de algo que é contado. O que vale é a relação com o outro primordial, fonte segundo a clínica do futuro do vivente.
Nessa mesma perspectiva, vemos um garoto, que sofre por lembranças, ou poderiámos contrariar aqui por desejo, de um pai e uma mãe que ele gostaria de ter, mas nunca teve, além daquilo que lhe era contado. Este ponto, é importante para nos fixarmos, pois diz respeito a uma fantasia demasiado humana, vai além do mundo fantástico e mágico dos bruxos.
Comumente, este fenômeno aparece forte, quando o pequeno indivíduo começa a buscar sua própria identidade, ou seja, na adolescência, mas isso não exclui os tempos anteriores, onde se imagina algo além dos pais que se tem. No caso de Harry, uma família capitalista, consumista, um exemplo da família contemporânea, onde um filho é preferido ante o outro, tendo um, uma figura primária e outro secundária. Fenômeno este também presente nos meios comuns, afinal, como diria Winnicott, se, se tem 8 filhos, se tem, 8 tipos diferentes de mãe, pois esta cria e lida com cada um de forma diferente, de acordo com suas próprias questões pessoais.
Diante dessa relação, da cria com o outro humano, mãe, pai e depois sociedade em geral vemos a expressão de cada um de acordo com as suas experiências e o modo como cada um conta sua história e também como interpreta aquelas que lhe são apresentada, se é de um modo deveras intenso, ou algo raso, ou mesmo algo que pode ser bem vivido. Porém, para que seja bem vivido, é preciso que o sujeito conheça a si mesmo, para que o estranho dentro dele mesmo, que sempre foi parte dele, não o pegue de surpresa. Afinal, como conta a própria estória que aqui acompanhamos, a parte ruim, sempre tem uma surpresa mais cedo ou mais tarde, como acontece com os ataques de Valdemort, que muito bem poderíamos reconhecer como uma parte interior de Harry, daquilo que não foi possível uma inscrição em seu inconsciente, ou que ficou mal colocado.