Mal estar na civilização é um dos textos tardios de Freud, onde elabora questões principais de sua teoria, como a da angústia. Palavra que por sinal caberia também dentro da tradução que culmina em o mal estar na civilização ou como preferem alguns, na cultura. A questão é, que aqui não nos toca a questão de considerar o valor da tradução e as mudanças que Freud fez no título em decorrência desta para outras línguas como para o inglês, pois seria uma questão de academicismo. O que vale aqui é a questão da angústia implicada propriamente na questão do mal estar, pois mal estar propriamente dito culmina na própria questão do sujeito diante da angústia.
Como alguns psicanalistas preferem, não é questão de elaborar diagnósticos na clínica, mas sim de que o sujeito se reconheça dentro de sua história e o seu mal estar, ou seja, a questão da angústia, sendo que esta implica uma questão de encontro, tanto quanto ao objeto exterior quanto ao interior da fantasia.Dentro do texto, mais propriamente na última parte Freud elabora a questão da dor de viver, situação frente ao qual os sujeitos buscam uma saída. Saída esta encontrada tanto no álcool, cigarro e outras drogas como na questão da neurose, ou a psicopatologia que acompanha o sujeito. Seu jeito de lidar com o mal estar pelo seu funcionamento e o modo como responde a dor e as situações onde é preciso fazer escolhas.
Diante dessa mesma problemática se levanta outra questão também trabalhada por Freud no mesmo texto, a questão das pulsões e a satisfação destas, em outras palavras, dos impulsos, desejos. Aqui, diferentemente da época de Freud, onde a sociedade funcionava como lei reguladora para o inconsciente, é preciso regular o inconsciente para poder viver em sociedade, pois esta se impulsiona numa cultura do hedonismo a que todos tenham o direito aos prazeres que se achem dignos. "Todos tem direitos", uma expressão não muito estanha nos nossos dias, porém, se esquecem, que além de direitos temos deveres também, o que implica a questão da responsabilidade, a qual parece ter ficado fora de questão, pois se há responsabilidade, esta é para os outros, pra mim não!
Como aponta Lacan, não estamos mais em um tempo da questão do significado da vida, mas sim na orientação do paciente, onde seja possível encontrar um significante que lhe de sentido a vida. A clínica e tradição freudiana isso soa estranho, mas é preciso uma orientação ao sujeito antes de poder o interpretar, é preciso o situar em um lugar, dar o norte para que seja possível suportar, reconhecer e enfrentar o mal estar.