“O
sofrimento psíquico manifesta-se atualmente sob a forma da depressão. Atingindo
no corpo e na alma por essa estranha síndrome em que se misturam a tristeza e a
apatia, a busca de identidade e o culto de si mesmo, o homem deprimido não
acredita mais na validade de nenhuma terapia..” (ROUDINESCO, 2000, p. 13)
É
justamente a existência do sujeito que determina o sofrimento psíquico, sua
história e seus modos de vida, o que o levam a um sofrimento, onde conforme comenta
Roudinesco, sobre a derrota do sujeito em uma sociedade onde prevalece a
cultura da desvalia e falta de propósito, prevalece a busca de uma identidade
que muitas vezes parece impossível de alcançar, nenhuma terapia mais parece ter
valor.
Sob
esse prisma também surgiu à psicofarmacologia na década de 50, sob as bases de
uma nova ética, um novo poder, a bioética e o biopoder, os sujeitos perdem sua
identidade em favor de sua anomalia orgânica onde todos são iguais e não há uma
identidade por se preocupar.
No
entanto não era essa a ideia que habitava a mente de todos quando surgiram os
psicotrópicos, como comente Jean Delay em 1954,
Porque
ficamos felizes por dispor de psicotrópicos? Porque a sociedade em que vivemos
é insuportável. As pessoas não conseguem mais dormir, ficam angustiadas e
necessitam ser tranquilizadas, mas nas megalópoles do que noutros lugares. Às
vezes me censuram por haver inventado a camisa de força química. Mas, sem
dúvida, esqueceram-se da época que, quando plantonista na marinha, eu entrava
no pavvilhão dos agitados com um revólver
dois enfermeiros parrudos, porque os doentes morriam dentro das
camisas-de-força, transpirando e berrando (...). A humanidade, ao longo de sua
evolução, foi obrigada a passar pelas drogas. Sem os psicotrópicos, talvez
tivesse havido uma revolução da consciência humana, dizendo: Não podemos mais
suportar isso! Mas foi possível continuar a suportá-lo, graças aos
psicotrópicos. Num futuro distante, a farmacologia talvez tenha menos
interesse, a não ser, provavelmente, na traumatologia, e é até concebível que
desapareça. ( DELAY apud ROUDINESCO 2000, p. 22)
Hoje em dia, no entanto a
psicofarmacologia a despeito dela mesma ganhou uma espécie de estandarte de
imperialismo, as palavras de Delay foram apenas expectativas de um ideal que
não foi cumprido.
Como discute Marcuse em seu livro Eros e civilização vivemos sobre um mal estar sobrante, das
promessas incumpridas e da falta de ideais. Não temos mais porque lutar, em
quem nos inspirar. A vida parece vazia. Vivemos desde cedo sobre o controle e o
uso frequente de medicamentos, cumprindo os mandatos do novo estandarte do
corpo orgânico, do reducionismo da psique humana as aventuras das
neurociências.
Longe
de si mesmo, a sociedade trabalha cada vez mais de acordo com a desubjetivação,
as formas discursivas já não se encontram mais em favor do sujeito. Conforme
Márcio Peter de Souza Leite: “O sujeito, vivendo em uma civilização
condicionada pelo discurso da ciência e pela globalização do capitalismo,
marcado pela ausência de ideais, corresponde ao fenômeno moderno da desaparição
dos valores. Só há uma coisa que vale: a lei do mercado.” (2007, p. 351)
As colocações de Márcio P. S. L. vão
de encontro a nova forma discursiva da contemporaneidade, onde conforme descreve
Lacan em torno de sua obra, o discurso do mestre, é substituído pelo discurso
do capitalista. “O discurso do capitalista mostra a modificação do discurso do
mestre efetuado pela ci6encia. Neste contexto, pode-se falar num sintoma
moderno no qual o sujeito procura pela sua completude no consumo de objetos.”
(2007, p. 352)
Tais formas discursivas e modos
operantes da sociedade global e os modos de cultura impostos por estes deslocam
o sujeito de si mesmo. A subjetividade fica em último plano, o que efetiva que
o sujeito seja apenas mais um em favor da ciência, o que aponta
consequentemente também o surgimento dos fundamentalismos como última
consequência ao desespero a falta de sentido. Sentir a dor é difícil de mais, é
preferível fingir que tudo esta bem, sendo que consequentemente se efetiva
também o que desde Nietzsche é apontado como a perca da única vida que se tem
em prol de uma que não existe, apontando isso novamente para o fim dos ideais e
a morte de Deus.
A morte de Deus foi teorizada por
Nietzsche como uma compreensão histórica do modernismo, onde num discurso
histórico a metafísica perde seu valor e a ciência a substitui aos poucos com
seu discurso e como nos coloca Freud pelo princípio de realidade.
Não obstante o princípio de
realidade colocado por Freud parece cada vez mais distante em nossa sociedade,
devido ao discurso capitalista que aponta para transtornos do vazio e modos
perversos de subjetivação. No entanto nos deteremos aqui nas patologias do
vazio e a depressão que é objetivo deste texto.
Despossuído de si mesmo como também
coloca Lacan pela desvalia o sujeito fica cada vez mais pobre em relação a si
mesmo, os vínculos e as relações objetais se tornam cada vez mais fugazes, o
sujeito não consegue mais se fixar a nada, não há energia suficiente para isso,
não vale a pena. Tudo esta bom assim, pois se for diferente “eu tenho medo da
frustração que pode vir com isso”.
O que leva consequentemente a falha
na busca por terapias, pois essas implicam mudanças, o que o sujeito se nega
devido aos benefícios secundários de sua doença. Mas a serviço do que ficam
esses benefícios secundários?
Os benefícios secundários atendem ao
sintoma e as falhas na constituição do sujeito, as falhas na sua narcizisação,
no investimento de si pelo outro, em sua existência como sujeito de valor.
No entanto a terapia psicológica
independente de sua orientação teórica, trabalha justamente com a valorização
do sujeito, suas crenças e modo autoteorizante do mundo, onde é possível então
que se modifique esse modo desinvestido de se relacionar com o mundo.
Para concluir é necessário afirmar
que ainda se pode fazer diferente em prol da subjetivação dos indivíduos e da
ciência, trabalhando conjuntamente os paradigmas da medicina, psicologia,
psicanálise, sociologia e filosofia, no entanto é preciso uma leitura atenta
das formas discursivas históricas e daquela que opera nos dias atuais.
Referências
Bibliográficas:
FOUCAULT
M. Nascimento da Biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
LEITE
S. P. M. A Psicose como Paradigma. In: O livro de ouro da Psicanálise. Rio de
Janeiro: Ediouro, 2007.
MARCUSE
H. Eros e Civilização. Rio de Janeiro: LTC, 2010.
ROUDINESCO
E. Porque a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
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