O
mercado dissimulado das relações pessoais é cada vez mais
exploratório. A maior falha dos candidatos esta em seus próprios
critérios entre certo e errado. Daquilo que ele leva como
imperativo. A falta da dissimulação, do bom dia a quem não se
gosta. Do caráter animado que nem sempre consegue manter.
Manter a
autoestima em auto nível todos os dias não é pra qualquer um que
seja humano. A não ser que ele ainda esteja longe dessas
características, pois ser humano também esta implicado em sentir
angústias, tristezas e a dor do viver, que normalmente se confunde
com depressões. Nem tristes podemos mais ficar, que já tem uma
tabela diagnóstica nos esperando. Porém não é por aí que as
cosias acontecem, pois também não deixa de ser fato que ainda há
uma grande confusão sobre a compreensão do ser humano. Essa grande
confusão se passa entre a regressão de certas fontes de
conhecimento como o biologismo que retorna a teorias do século XIX
com o geneticismo, acreditando que tudo parte de algo genético, como
da não aceitação dos avanços tidos sobre o ser humano por parte
daquilo que não se aceita como evento de importância histórica.
Porém é
interessante considerar como colocava Foucault, que para fazer uma
genealogia, ou compreensão de uma ciência e sua trama, é preciso
também uma leitura anti histórica, daquilo que não foi muito
divulgado. Na história sempre há os vencedores e os vencidos.
Aquilo que se deseja passar como verdade e aquilo que por ter sido
vencido se deixa apagado. Estes fatores apagados e não muito
divulgados na época voltam numa época posterior a partir da leitura
de interpretes ou estudiosos.
No
entanto nos mantendo nos fatores não muito percebidos de hoje em
dia. A difícil tarefa de se manter em um nível constante tanto no
âmbito do trabalho como do lar parece cada vez mais difícil fora
dos padrões impostos. A esta frustração se adicionam a bebida, o
cigarro e as drogas. Como dizem os próprios psicanalistas, como
adição mesmo. O psiquismo não consegue mais suportar por si só a
carga que lhe é direcionada, voltando-se com isso a formas de adição
que lhe permitam coisas que por si só não consegue.
Nisso
nasce a cultura ao hedonismo, do constante prazer. Pensar não
precisa mais, pois se pensar haverá de se angustiar. De tal forma
que grandes pensadores normalmente são classificados como
pessimistas, como se fossem pessoas de um grande mal humor ou
nostalgia revelada nos textos. Literatura de época é a literatura
beath. Como se diz o dito popular, “vida loca!”
Isso
coloca como imperativo a busca por algo a mais, além de nós mesmos
que nos auxilie a aguentar o pessoa da vida e a frustração imposta
por esta, como se fossemos incapazes de pensar por nós mesmos uma
forma de lidar com o mal estar cotidiano. De toda forma, se chegamos
a pensar, é difícil poder continuar, é melhor deixar isso de
lado...
Conforme
McDougall (2001, p. 200) “buscar um objeto adictivo não era um
desejo consciente de se envenenar; ao contrário, era um ato que
carregava a ilusão de fazer algo para ajudar a si mesmo em meio às
dificuldades da vida cotidiana.” A busca aditiva, esta relacionada
a uma busca por ajuda a lidar com angústias ligadas as relações
amorosas, sexuais e ao prazer narcísico nas relações sociais e de
trabalho, e também a angústias ligadas a depressões, paranóias, o
terror globald e encarar algum vazio, entre outras.
“A “escolha” de um objeto adictivo raramente é
questão de oportunidade. Cada ato ou objeto selecionado tende a
corresponder a períodos especiais do desenvolvimento nos quais houve
o fracasso na integração dos objetos internos que ajudam e cuidam.
Além disso, o objeto escolhido revela a busca do “estado ideal”que
o indivíduo espera alcançár por intermédio da substância, da
pessoa ou do ato, procurados: plenitude, exaltação, potência,
ausência de dor, nirvana e assim por diante.” (MCDOUGALL, 2001, p.
203-204)
Dentro
desse modo de adição, onde tem conjuntamente um terror do futuro e
dor do passado, o sujeito tem grande dificuldade em conter e suportar
afetos intensos dentro de qualquer período de tempo, passando então
a descarregar esses afetos pela ação imediata. Diante disso, o
sujeito fica entregue a compulsão, repete seus atos como um gozo, um
gozo no entanto mais reservado ao sintoma, pois de gozo em si mesmo a
quantidade que sente o sujeito é mínima. Serve mais essa busca como
modo de sobrevivência e sentimento de si, no entanto de forma
desligada e destrutiva.
Conforme
Ferenczi, num artigo entitulado O alcool e as neuroses, o
sujeito busca no alcool e outros meios que Joyce Mcdougall chama de
adição um efeito incapaz de produzir por si mesmo, como a euforia,
muito comum nos casos de alcoolismo.
É comum dentro de nossos dias também escutar que depois de tomar
alguns copos de cervejas, o sujeito muda seu humor e logo se torna
mais corajoso e mais alegre, como que mais despreocupado com suas
questões morais. Lembrando Freud, o alcool, dissolve o superego. Aí
é difícil que o sujeito tenha ativo as mesmas questões do seu
funcionamento do que na vida cotidiana.
Porém a questão fica relacionada ao por quê dessa adição para
poder realizar tais atos desejados, como se como colocaram Ferenczi e
Mcdougall o sujeito precisasse adicionar algo além de si mesmo para
si, para que possa realizar sua ação e ter o alcance do ponto de
prazer desejado.,
De fato Joel Birman esta correto ao afirmar que em nossos tempos há
uma nova forma de subjetivação e de pacto. As novas formas de pacto
estão justamente de acordo com as adições ou como chama Birman,
toxicomanias.
“A hipótese que formulamos é qu as toxicomanias –
nas quais incluo o alcoolismo – se inserem na estrutura perversa o
que não ocorre necessariamente com outros usuários de drogas.
Nestes, a relação com a droga pode inscrever-se em diferentes
estruturas psicopatológicas, inclusive a perversa. Assim, entre os
usuários de drogas podemos encontrar neuróticos, psicóticos e
perversos, nos quais a droga circula na economia psíquica de forma
diversificada.”(BIRMAN, 2009, p. 208)
As drogas passaram a ser a forma privilegiada de acesso a outro
mundo, como se elas rompessem as barreiras perceptivas e sensitivas
impostas pela vida cotidiana. Não é difícil de entender que esta
proposição é comum se ouvir da boca de usuários de drogas, como
se eles buscassem justificativas para seu uso e ignorassem os efeitos
mortificantes do mesmo.
Vale aqui considerar a classificação que Birman faz dos diferentes
tipos de usuários de drogas, os relacionados a dependência psíquica
e os que têm dependência física e psíquica.
Existem dois grupos de indivíduos relacionados ao consumo de
drogas, considerando como critério de distinção suas formas de
funcionamento psíquico: os usuários de drogas e os tocicômanos,
que se apresentam como unidades clínicas diferenciadas. Os primeiros
podems er considerados consumidores regulares ou irregulares de
drogas, mas como grupo clínico se contrapõem aso toxicômanos.
Estes grupos se diferenciam pela dimensão compulsiva que marca a
ingestão da droga. Os usuários de droga podem se valer da droga
para seu deleite e em momentos de angústia, mas a droga nunca se
transforma na razão maior de suas existências. Os toxicômanos,
porém, são compelidos à sua ingestão por forças físicas e
psíquicas poderosas. As drogas passam a representar, para esse
grupo, o valor soberano de resolução de sua existência. (BIRMAN,
2009, p. 223)
Os usuários de drogas não desenvolvem um processo de dependência
física das drogas, porém uma dependência psíquica. Já nas
toxicomanias, ambas estão presentes de maneira avassaladora. Não
obstante a presença da dependência física exige dos toxicômanos o
aumento crescente da dose inicialmente ingerida e sua progressiva
substituição por drogas cada vez mais potentes em busca de produzir
os efeitos desejados.
“Assim, nos interstícios do mundo desencantado, onde
as ideologias redentoras do Iluminismo não têm mais qualquer apelo
existencial, o desamparo do sujeito se recoloca, assumindo formas
vigorosas e desesperantes. A busca de proteção face à angústia se
empreende pelas formas de religiosidade que se apresentam como novas
ofertas de salvação. Porém, para os incrédulos é preciso buscar
os efeitos dionisíacos das drogas pelo narcotráfico e o
silenciamento da dor psíquica pelos psicotrópicos. Em qualquer
destas alternativas, o estilo de Dionisio se transformou e sua face
se transfigurou, pois na dissolução das visões de mundo é patente
a melancolia e a abissal tristeza de Dionisio.” (BIRMAN, 2009, p.
230)
O sujeito busca pelo uso das drogas se inserir nos novos ditames da
cultura do espetáculo e seus imperativos, como aquilo de melhor que
todos devem ser. Não deixa de ser fato que durante muito tempo a
moral foi escrita e entendida conforme pensavam os filósofos,
pensadores da moral. No entanto também se conservava a dúvida
quanto a validade daquela moral e daqueles costumes devido a que
dificilmente opiniões de autores fossem iguais.
Em nosso tempo, pode se dizer que aprendemos já a diferenciação
entre certo e errado, aquilo qe é bom e o que não é, ou como se
fala na linguagem dos meios de saúde, o saudável e o não saudável.
No entanto esse mesmo filtro não se passa por todos, ainda de certa
forma se mantêm restrito ao pessoal das diferentes áreas da saúde
e ligadas a saúde. Por fim, quem tem contato com, seja no trabalho,
seja em alguma experiência pessoal, tanto de saúde como de
curiosidade.
Porém para poder entender um pouco melhor isso é preciso
considerar um pouco mais sobre os adictos e a forma da moral e dos
costumes de nosso tempo. É comum se propor dentro da literatura
psicanalítica, sociológica, filosófica, que a pós-modernidade
está marcada pela cultura do narcisismo, do espetáculo!
Dentro desta cultura o mundo se encontra esvaziado, pois desde a
década de 60, 70 há uma nova forma de leitura do mundo, depois das
revoluções ocorridas dentro deste tempo. É fato que isso não se
encontra de igual forma explícito em todo mundo, pois como no caso
do Brasil, enquanto a França e outros países tinham uma mudança
cultural frente a um movimento e um novo pensamento tanto filosófico
como de massas, aqui estávamos dentro da ditadura. Revolucionar não
podia, era justo isso uma das coisas que se atacava e se proibia. A
discussão seria linga de mais, se fossemos falar disso, pois há um
eito de fatos, fatores e intenções. Porém vale marcar o pensamento
de um pensador Francês que neste tempo propunha uma nova leitura.
Pierre Bordieu. Bordieu de certa forma retoma o pensamento de Foucault sobre o poder. Porém a sua forma e de um jeito de certa
maneira também inovador. Debate não só as instituições e lugares
do poder, mas também aquilo escondido por este, as manipulações
feitas através dos exercícios de poder.
O que vale marcar, é que a sociedade e a cultura, também fazem
parte desta nova forma de organização dos sujeitos. Sendo que
muitas vezes ela trabalha e age de forma dessubjetivante. Invés de
ser algo a favor do sujeito, existe como algo indiferente a este. As
instituições de ensino a exemplo, não formam mais sujeitos livres,
se é que um dia tentaram, mas sim sujeitos formatados ao sistema. O
ensino não deixa de ser mudado a cada novo governo. A leitura é
tendenciosa...
Se você for querer descobrir sobre o mundo, boa sorte! Terás que
caminhar sozinho.Estas entre outras novas formas de funcionamento do
mundo, que abrangem nossa época, dão grande vazão ao vazio que se
encontra nos sujeitos, a falta de sentido. Entre outras palavras, eis
a cultura do narcisismo e do espetáculo.
E de fato a cultura também influencia na vida do sujeito, pois como
acertadamente havia já dito Freud, o mal estar do sujeito esta de
acordo a viver em sociedade. No entanto, Freud dizia isso quanto a
uma sociedade repressiva, porém em nosso tempo, a sociedade convida
ao prazer, a um prazer constante, como se não tivesse amanhã. Você
precisa aproveitar o hoje. Isso implica, diversos fatores, porém um
dos que vale frisar, é a falta de perspectiva de futuro, o que nos
faz voltar a algo no início do texto, onde falamos sobre as adições
e as formas presentes desta do temor e medo presentes entre o passado
e o futuro do sujeito.
Usando uma expressão de Nietzsche, “De capo”, de volta ao
início e chegando ao fim. Aqui fica uma situação múltipla e que
de fato merece atenção. Atenção de nós mesmos e daqueles que
trabalham com saúde mental, pois os elementos mortíferos presentes
demonstrados aqui neste texto não deixam de assombrar com seu
caráter nefasto!
Referências Bibliográficas:
FERNCZI S. O alcool e as neurose. In: Obras completas, vol I. São
Paulo: Martins Fontes, 2011.
MCDOUGALL J. As Múltiplas Faces de Eros. São Paulo: Martins Fontes,
2001.
BIRMAN J. O Mal Estar na Atualidade. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2009.
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