segunda-feira, 11 de maio de 2015

A lógica do ser humano

É comum ouvirmos hoje no meio empresarial que as pessoas se identificam com algum animal. O mais comum se ouvir desejar ser é o gato, porém não são todos que são gato. O importante de toda forma é não ser tubarão, porém quero me usar aqui do tubarão para exemplificar que essa lógica de identificação não cola bem.
Em uma entrevista ao maior oceonógrafo do século XX, Jacques-Yves Costeau, um jornalista lhe faz uma perguntas pautadas em nosso medo ao tubrarão, a chance que há de ele não nos atacar, como podemos sair ilesos, entre outras. Porém em todas as perguntas a resposta era nula ou sempre, pois o tubarão sempre irá atacar e a possibilidade de sair ileso é nula. E vale considerar que diante destas respostas e do que esperava o jornalista ficava irritado, pois em nenhuma pergunta tinha a resposta que esperava. Então Costeau lhe explica, essa é a lógica do tubarão.
No entanto nós humanos diferente dos animais, não nascemos prontos. E isso é o que nos separa deles. Antes de fazer uma comparação de nós com os animais, é preciso comparar eles a nós. Gatos, gaviões, lobos, tubarão, e também outros animais, compreendemos através de nós mesmos, pois se formos nos entender a partir deles a lógica se torna reducionista e parece que nos estaganamos, seria como dizer estamos prontos, chegamos aonde queríamos. Algo que levanta certa preocupação. Mas aí você que é conhecedor do teste pode me objetar que são apenas características dos animais com certa predominância, sendo que um certo tipo é o que é primordial no comportamento, mas também há abertura e manifestação dos outros.
E isso de fato também é verdade, mas vale aqui a reflexão, provocação para se pensar além de, pois como já dito acima, essa lógica do comportamento se torna também reducionista quanto as capacidades e comportamentos do ser humano.
A lógica conforme os animais, nos deixa como que prontos, ou já enquadrados naquilo que nos será esperado que façamos, como se já fossemos prontos. Ilustrativo desta situação ocorre também nas empresas, quando recebe-se do chefe ou supervisor um perfeito, que traduz muito bem um: continue assim, é isso mesmo que esperamos de você. Em outras palavras também, a rotina se instala. E é por aí que ficamos...
“Nascer sabendo é uma limitação porque obriga a apenas repetir e, nunca, a criar, inovar, refazer, modificar. Quanto mais se nasce pronto, mais refém do que já sabe e, portanto, do passado; aprender sempre é o que mais impede que nos tornemos prisioneiros de situações que, por serem inéditas, não saberíamos enfrentar.” (CORTELLA, 2014, p. 13)
Diante dessa realidade é estranho pensar que quanto mais vai vivendo, mas velha a pessoa fica, pois se fossemos sustentar esta lógica, do nascer pronto, apenas iriámos ir nos gastando com o tempo. Porém isso, não se fecha nem a nós e nem aos animais, mas sim a coisas como o sapato, a geladeira, o fogão...
De toda forma é preciso aqui assinalar a diferença entre nós e os animais, pois eles nascem prontos, mas nós, nos tornamos a partir de que existimos. Parafraseando Cortella, a cada novo ano, ou novo dia, sou uma nova edição de mim mesmo. “O mais velho de mim (se é o tempo a medida) está no meu passado e não no presente.” (2014, p. 14)
É importante considerar, por fim, que a cada novo tempo, somos um pouco diferentes, não funcionamos do mesmo modo sempre. As testagens, sejam elas administrativas ou psicológicas demonstraram algo de nós naquele momento, no entanto, dificilmente um teste só dará a compreensão completa de nossa personalidade.
Sem criar delongas, ou uma discussão sobre a técnica dos testes, é interessante ponderar que, sempre que há um teste comparativo com algo, há um enquadramento para uma compreensão, seja esta da ordem do que se procura nos testes profissionais, ou de uma compreensão mais voltada ao diagnóstico em casos de pacientes em tratamento psicoterápico ou psiquiátrico.
Algo de certa forma que incomoda as pessoas, pois às vezes diante de um teste, ficam numa situação nunca tida antes, diante de si mesmos.


Referência Bibliográfica:

CORTELLA M. Não Espere pelo epitáfio. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.

CORTELLA M. Não nascemos prontos. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.

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