É comum
ouvirmos hoje no meio empresarial que as pessoas se identificam com
algum animal. O mais comum se ouvir desejar ser é o gato, porém não
são todos que são gato. O importante de toda forma é não ser
tubarão, porém quero me usar aqui do tubarão para exemplificar que
essa lógica de identificação não cola bem.
Em uma
entrevista ao maior oceonógrafo do século XX, Jacques-Yves Costeau,
um jornalista lhe faz uma perguntas pautadas em nosso medo ao
tubrarão, a chance que há de ele não nos atacar, como podemos sair
ilesos, entre outras. Porém em todas as perguntas a resposta era
nula ou sempre, pois o tubarão sempre irá atacar e a possibilidade
de sair ileso é nula. E vale considerar que diante destas respostas
e do que esperava o jornalista ficava irritado, pois em nenhuma
pergunta tinha a resposta que esperava. Então Costeau lhe explica,
essa é a lógica do tubarão.
No
entanto nós humanos diferente dos animais, não nascemos prontos. E
isso é o que nos separa deles. Antes de fazer uma comparação de
nós com os animais, é preciso comparar eles a nós. Gatos, gaviões,
lobos, tubarão, e também outros animais, compreendemos através de
nós mesmos, pois se formos nos entender a partir deles a lógica se
torna reducionista e parece que nos estaganamos, seria como dizer
estamos prontos, chegamos aonde queríamos. Algo que levanta certa
preocupação. Mas aí você que é conhecedor do teste pode me
objetar que são apenas características dos animais com certa
predominância, sendo que um certo tipo é o que é primordial no
comportamento, mas também há abertura e manifestação dos outros.
E isso
de fato também é verdade, mas vale aqui a reflexão, provocação
para se pensar além de, pois como já dito acima, essa lógica do
comportamento se torna também reducionista quanto as capacidades e
comportamentos do ser humano.
A lógica
conforme os animais, nos deixa como que prontos, ou já enquadrados
naquilo que nos será esperado que façamos, como se já fossemos
prontos. Ilustrativo desta situação ocorre também nas empresas,
quando recebe-se do chefe ou supervisor um perfeito, que traduz muito
bem um: continue assim, é isso mesmo que esperamos de você. Em
outras palavras também, a rotina se instala. E é por aí que
ficamos...
“Nascer
sabendo é uma limitação porque obriga a apenas repetir e, nunca, a
criar, inovar, refazer, modificar. Quanto mais se nasce pronto, mais
refém do que já sabe e, portanto, do passado; aprender sempre é o
que mais impede que nos tornemos prisioneiros de situações que, por
serem inéditas, não saberíamos enfrentar.” (CORTELLA, 2014, p.
13)
Diante
dessa realidade é estranho pensar que quanto mais vai vivendo, mas
velha a pessoa fica, pois se fossemos sustentar esta lógica, do
nascer pronto, apenas iriámos ir nos gastando com o tempo. Porém
isso, não se fecha nem a nós e nem aos animais, mas sim a coisas
como o sapato, a geladeira, o fogão...
De toda
forma é preciso aqui assinalar a diferença entre nós e os animais,
pois eles nascem prontos, mas nós, nos tornamos a partir de que
existimos. Parafraseando Cortella, a cada novo ano, ou novo dia, sou
uma nova edição de mim mesmo. “O mais velho de mim (se é o tempo
a medida) está no meu passado e não no presente.” (2014, p. 14)
É
importante considerar, por fim, que a cada novo tempo, somos um pouco
diferentes, não funcionamos do mesmo modo sempre. As testagens,
sejam elas administrativas ou psicológicas demonstraram algo de nós
naquele momento, no entanto, dificilmente um teste só dará a
compreensão completa de nossa personalidade.
Sem
criar delongas, ou uma discussão sobre a técnica dos testes, é
interessante ponderar que, sempre que há um teste comparativo com
algo, há um enquadramento para uma compreensão, seja esta da ordem
do que se procura nos testes profissionais, ou de uma compreensão
mais voltada ao diagnóstico em casos de pacientes em tratamento
psicoterápico ou psiquiátrico.
Algo de
certa forma que incomoda as pessoas, pois às vezes diante de um
teste, ficam numa situação nunca tida antes, diante de si mesmos.
Referência
Bibliográfica:
CORTELLA
M. Não Espere pelo epitáfio. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.
CORTELLA
M. Não nascemos prontos. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.
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