Mito
criado no início do século XX, a adolescência é uma das formações
culturais mais poderosa de nossa época, prisma pelo qual os adultos
olham e os próprios adolescentes contemplam De certa forma uma
entidade, um enigma sustentado pela imaginação de todos.
É comum
ouvirmos chamar nossos jovens de aborrescentes, tanto pelos pais
destes, como por um senso comum, como na escola e na vida cotidiana.
Porém, dificilmente alguém se pergunta o por quê do termo. Se lhe
é perguntado, a resposta é breve, afinal, são aborrescentes mesmo,
não escutam, querem do jeito deles.
No
entanto, as coisas não são bem por aí, a adolescência incomoda
muito mais por aspectos pessoais de quem vê, do que pelo fato de ser
um tempo de individualismo e impulsividade, afinal de contas.
Dentro
da adolescência, vemos surgir grupos, ideais e a identidade do
sujeito, onde este em procura de si mesmo, busca incessantemente uma
forma de ser reconhecido, como algo que lhe permita também
participar do mundo adulto. “O
que vemos no espelho não é bem nossa imagem. É uma imagem que
sempre deve muito ao olhar dos outros. Ou seja, me vejo bonito ou
desejável se tenho razões de acreditar que os outros gostam de mim
ou me desejam. Vejo, em suma, o que imagino que os outros
vejam.”(Calligaris, 2009, p. 25)
Parado na frente do espelho, medindo as novas formas de seu corpo, caçando as espinhas e cravinhos, ojerizando seus novos pelos ou seios, o adolescente vive a falta do olhar apaixonado que ele merecia quando criança e a falta de palavras que o admitam como par na sociedade de adultos. A insegurança se torna assim o traço próprio da adolescência. Se lança assim numa pergunta, que durara o tempo (indefinido) de sua adolescência, o que será que os adultos querem e esperam de mim?
“O
fato é que a adolescência é uma interpretação de sonhos adultos,
forçada por uma moratória que força o adolescente a tentar
descobrir o que os adultos querem dele.” (2009, p.33) Suas condutas
em suma, são tão variadas como os sonhos adultos, expressão dos
desejos reprimidos destes, por isso transgressoras. Ao menos aos
olhos destes.
Na
procura de reconhecimento, seduzido pelos caminhos que lhe são
oferecidos, quanto tenta se integrar, se marginaliza. Transgridem
para ser reconhecidos, e os adultos para os reconhecer constroem
visões deles.
Estas
visões são também de fato as linhas sobre as quais se organiza o
comportamente adolescente em busca de reconhecimento, sendo ao mesmo
tempo solidificação da rebeldia extrema dos adolescentes e sonhos,
pesadelos ou espantalhos dos adultos. Destaquemos cinco dessas: o
adolescente gregário, o delinquente, o toxicômano, o adolescente
que se enfeia e o adolescente barulhento.
Dentro
de suas novas descobertas, e da nova imagem que desobre de si o
adolescente busca novos grupos, uma nova condição social, em que
sua admissão não dependa mais dos adultos, transformando assim sua
faixa etária num grupo social, onde os adultos são excluídos.
Contrários agora a visão que tinham quando crianças, a verdadeira
comunidade não é mais a família. Um movimento de certa forma hoje,
não tão somente dos adolescentes, pois os adultos fartos de
responsabilidade, sedentos de liberdade, também partilham dessa
mesma experiência, ou invejam os adolescentes.
O
grupo adolescente de toda forma, seja ele um estilo compartilhado ou
uma gangue, aos olhos dos adultos é visto como uma patologia. Os
gostos gregários dos jovens são considerados anormais e perigosos.
Sem se perguntar muito por que os adolescentes são gregários, os
adultos demonizam os grupos dos adolescentes, pois de fato a própria
constituição do grupo adolescente é aos olhos dos adultos uma
espécie de transgressão.
Ora
os adultos consideram suspeito este afastamento dos adolescentes,
justamente porém não sabem, ou não prestam atenção eles, que
ocorre pelo reconhecimento negado ao adolescente. Trata-se de
conseguir um reconhecimento, para o qual ninguém sabe lhe dizer
quais são as provas, qual é o ritual iniciatório necessário.
“Dentro
ou fora da prática gregária, os jovens não desistirão de tentar
sucitar a atenção e o reconhecimento dos adultos. O grupo que eles
vierem a constituir seguirá um modelo de ação que deverá
transgredir o pacto social, já que continua viva a esperança de
merecer, por essa transgressão, a atenção dos adultos. A
transgressão tenta encenar o que os adolescentes acreditam ser um
desejo recalcado (esquecido) dos adultos. Há o projeto de entregar
como presente para os adultosum comportamento, um gesto, do qual eles
teriam sido frustrados e, assim , de merecer uma medalha. Quanto mais
a interpretação do desejo dos adultos for certeira, mais esse
projeto fracassará. Nesse caso, a transgressão adolescente
presenteia os adultos com uma imagem que justamente eles querem
reprimir. O erro dos adolescentes (erro em relação a sua própria
estratégia) é pensar que para os adultos possa ser agradável
encontrar uma encenação de seu próprio recalque.” (CALLIGARIS,
2009, p. 41)
A
visão da adolescência que mais preocupa os adultos é a da
toxicomania. Os adolescentes seriam mais sensíveis que os adultos ao
uso de drogas ilegais. Na verdade não seria difícil argumentar que
o interresse para as drogas dos adolescentes de hoje é a atuação
da geração precendente. “Os adolescentes de hoje são os
descendentes de uma geração que explicitamente ligou o uso das
drogas a todos os sonhos de liberação e revolução (pessoal,
sexual, social, etc.) que ela agitou e subsequentemente
recalcou.”(2009, p.45)
Há
também, o adolescente que se enfeia, como uma agressão ao padrão
dominante, como uma forma de desafio a aprovação do adulto. No
entanto, não é só pra isso que aponta este ato. Dentre suas
funções de desafio ao mundo adulto, também esta a constituição
de um novo grupo, onde todos se aprovam, agregando também em algumas
ocasiões a recusa da sexualidade, e sobretudo da desejabilidade como
valor social.
Uma
recusa diante de si mesmo e o medo da desaprovação, uma forma de
encontrar uma desejabilidade e sexualidade fora da norma. No entanto,
a grande maioria dos adolescentes de cabelos ultraloiros, brincos,
tatuagens e cara feia, caso encontrassem a si mesmos numa rua escura,
trocariam de calçada preocupados ou correriam para casa
assustadíssimos.
Em
todas as suas tentativas de desafiar e provocar, o adolescente
encontra uma dificuldade, onde por mais que invente maneiras de se
enfeiar, se distanciar do canône estético e comportamental dos
adultos, a cada vez, rapidamente a cultura parece achar meios de
idealizar essas maneiras, de transformá-las em comportamentos
aceitos, até desejáveis e invejáveis. Ou seja, a adolescência não
para de alimentar os ideais sociais e do adulto. Um fato, que indica
muitas possibilidades como explicação a adultos que vivem como
adolescentes em nosso dia a dia de 2015.
Deste
breve mergulho que fizemos nas fases e interpretações da
adolescência, é possível visualisar sobre o mundo adulto, a
construção da identidade deste, as interpretações sobre os que
passam pela fase que eles já passaram e a perspectiva e projeções
feitas sobre estes.
CALLIGARIS
C. A Adolesência. São Paulo: Publifolha, 2009.
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