sexta-feira, 24 de julho de 2015

Aborrescência ou Adolescência?

Mito criado no início do século XX, a adolescência é uma das formações culturais mais poderosa de nossa época, prisma pelo qual os adultos olham e os próprios adolescentes contemplam De certa forma uma entidade, um enigma sustentado pela imaginação de todos.
É comum ouvirmos chamar nossos jovens de aborrescentes, tanto pelos pais destes, como por um senso comum, como na escola e na vida cotidiana. Porém, dificilmente alguém se pergunta o por quê do termo. Se lhe é perguntado, a resposta é breve, afinal, são aborrescentes mesmo, não escutam, querem do jeito deles.
No entanto, as coisas não são bem por aí, a adolescência incomoda muito mais por aspectos pessoais de quem vê, do que pelo fato de ser um tempo de individualismo e impulsividade, afinal de contas.
Dentro da adolescência, vemos surgir grupos, ideais e a identidade do sujeito, onde este em procura de si mesmo, busca incessantemente uma forma de ser reconhecido, como algo que lhe permita também participar do mundo adulto. “O que vemos no espelho não é bem nossa imagem. É uma imagem que sempre deve muito ao olhar dos outros. Ou seja, me vejo bonito ou desejável se tenho razões de acreditar que os outros gostam de mim ou me desejam. Vejo, em suma, o que imagino que os outros vejam.”(Calligaris, 2009, p. 25)
Parado na frente do espelho, medindo as novas formas de seu corpo, caçando as espinhas e cravinhos, ojerizando seus novos pelos ou seios, o adolescente vive a falta do olhar apaixonado que ele merecia quando criança e a falta de palavras que o admitam como par na sociedade de adultos. A insegurança se torna assim o traço próprio da adolescência. Se lança assim numa pergunta, que durara o tempo (indefinido) de sua adolescência, o que será que os adultos querem e esperam de mim?
“O fato é que a adolescência é uma interpretação de sonhos adultos, forçada por uma moratória que força o adolescente a tentar descobrir o que os adultos querem dele.” (2009, p.33) Suas condutas em suma, são tão variadas como os sonhos adultos, expressão dos desejos reprimidos destes, por isso transgressoras. Ao menos aos olhos destes.
Na procura de reconhecimento, seduzido pelos caminhos que lhe são oferecidos, quanto tenta se integrar, se marginaliza. Transgridem para ser reconhecidos, e os adultos para os reconhecer constroem visões deles.
Estas visões são também de fato as linhas sobre as quais se organiza o comportamente adolescente em busca de reconhecimento, sendo ao mesmo tempo solidificação da rebeldia extrema dos adolescentes e sonhos, pesadelos ou espantalhos dos adultos. Destaquemos cinco dessas: o adolescente gregário, o delinquente, o toxicômano, o adolescente que se enfeia e o adolescente barulhento.
Dentro de suas novas descobertas, e da nova imagem que desobre de si o adolescente busca novos grupos, uma nova condição social, em que sua admissão não dependa mais dos adultos, transformando assim sua faixa etária num grupo social, onde os adultos são excluídos. Contrários agora a visão que tinham quando crianças, a verdadeira comunidade não é mais a família. Um movimento de certa forma hoje, não tão somente dos adolescentes, pois os adultos fartos de responsabilidade, sedentos de liberdade, também partilham dessa mesma experiência, ou invejam os adolescentes.
O grupo adolescente de toda forma, seja ele um estilo compartilhado ou uma gangue, aos olhos dos adultos é visto como uma patologia. Os gostos gregários dos jovens são considerados anormais e perigosos. Sem se perguntar muito por que os adolescentes são gregários, os adultos demonizam os grupos dos adolescentes, pois de fato a própria constituição do grupo adolescente é aos olhos dos adultos uma espécie de transgressão.
Ora os adultos consideram suspeito este afastamento dos adolescentes, justamente porém não sabem, ou não prestam atenção eles, que ocorre pelo reconhecimento negado ao adolescente. Trata-se de conseguir um reconhecimento, para o qual ninguém sabe lhe dizer quais são as provas, qual é o ritual iniciatório necessário.

Dentro ou fora da prática gregária, os jovens não desistirão de tentar sucitar a atenção e o reconhecimento dos adultos. O grupo que eles vierem a constituir seguirá um modelo de ação que deverá transgredir o pacto social, já que continua viva a esperança de merecer, por essa transgressão, a atenção dos adultos. A transgressão tenta encenar o que os adolescentes acreditam ser um desejo recalcado (esquecido) dos adultos. Há o projeto de entregar como presente para os adultosum comportamento, um gesto, do qual eles teriam sido frustrados e, assim , de merecer uma medalha. Quanto mais a interpretação do desejo dos adultos for certeira, mais esse projeto fracassará. Nesse caso, a transgressão adolescente presenteia os adultos com uma imagem que justamente eles querem reprimir. O erro dos adolescentes (erro em relação a sua própria estratégia) é pensar que para os adultos possa ser agradável encontrar uma encenação de seu próprio recalque.” (CALLIGARIS, 2009, p. 41)

A visão da adolescência que mais preocupa os adultos é a da toxicomania. Os adolescentes seriam mais sensíveis que os adultos ao uso de drogas ilegais. Na verdade não seria difícil argumentar que o interresse para as drogas dos adolescentes de hoje é a atuação da geração precendente. “Os adolescentes de hoje são os descendentes de uma geração que explicitamente ligou o uso das drogas a todos os sonhos de liberação e revolução (pessoal, sexual, social, etc.) que ela agitou e subsequentemente recalcou.”(2009, p.45)
Há também, o adolescente que se enfeia, como uma agressão ao padrão dominante, como uma forma de desafio a aprovação do adulto. No entanto, não é só pra isso que aponta este ato. Dentre suas funções de desafio ao mundo adulto, também esta a constituição de um novo grupo, onde todos se aprovam, agregando também em algumas ocasiões a recusa da sexualidade, e sobretudo da desejabilidade como valor social.
Uma recusa diante de si mesmo e o medo da desaprovação, uma forma de encontrar uma desejabilidade e sexualidade fora da norma. No entanto, a grande maioria dos adolescentes de cabelos ultraloiros, brincos, tatuagens e cara feia, caso encontrassem a si mesmos numa rua escura, trocariam de calçada preocupados ou correriam para casa assustadíssimos.
Em todas as suas tentativas de desafiar e provocar, o adolescente encontra uma dificuldade, onde por mais que invente maneiras de se enfeiar, se distanciar do canône estético e comportamental dos adultos, a cada vez, rapidamente a cultura parece achar meios de idealizar essas maneiras, de transformá-las em comportamentos aceitos, até desejáveis e invejáveis. Ou seja, a adolescência não para de alimentar os ideais sociais e do adulto. Um fato, que indica muitas possibilidades como explicação a adultos que vivem como adolescentes em nosso dia a dia de 2015.
Deste breve mergulho que fizemos nas fases e interpretações da adolescência, é possível visualisar sobre o mundo adulto, a construção da identidade deste, as interpretações sobre os que passam pela fase que eles já passaram e a perspectiva e projeções feitas sobre estes.

CALLIGARIS C. A Adolesência. São Paulo: Publifolha, 2009.


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