terça-feira, 1 de setembro de 2015

Foco no trabalho?

Conforme Cortella e Filho (2015, p. 19) “Existe um lema que algumas empresas adotaram e que acabou permeando, impregnando todo o conjunto social: “Fazemos qualquer negócio”. Essa lógica significa qualquer negócio é válido.” Em outras palavras, o foco esta no resultado. Isso significa que é preciso o que for preciso para vender, mesmo que isso implique, mentir, enganar, ludibriar e assim por diante.
Porém como dizem os autores, não sei se, se percebe da bobagem que é fazer uma lista onde um dos intens é a palavra foco, pois seja esta primeira, terceira ou qual for, anula todos os outros itens.
Vale aqui citar um longo trecho da conversa entre o professor Clóvis e o Cortella, onde falam abruptamente sobre essa questão de um modo muito verdadeiro:

E vamos trabalhar numa empresa. Ela tem 15 níveis e começamos no G15 – não tem lugar para bicicleta no estacionamento! Enquanto não passarmos para o G14, somos insignificantes. Inicia-se, então, a escalada: subgerente, gerente, diretor não sei do quê... Até o momento em que percebemos que, para sermos promovidos, precisamos alcançar mais metas do que os outros. O foco está no resultado, e nós o trazemos. As metas são como cenouras: nós as perseguimos. E quando pela primeira vez, alcançamos uma cenoura, temos a impressão de que neste momento a vida finalmente chegou, vamos comemorar sete anos de vacas gordas. Entregamos a cenoura para o chefe, que liga o Powerpoint e estabelece nova meta, nova cenoura. E descobrimos que a lógica do eros de Platão a lógica do desejo na falta, do buscar o que não se tem, é uma lógica que nos acompanha desde o começo da vida escolar até o momento em que, depois de 30 anos , recebemos uma placa dizendo: “Você foi um excelente perseguidor de cenouras, mas hoje se tornou inadaptável. Vou contratar alguém mais jovem, mais iludido que você para poder explorar o trabalho mais abruptamente."
Desde a escola até a vida no trabalho não somos preparados para a alegria. Um exemplo é o que recomenda boa parte dos profissionais de Recursos Humanos nas organizações: “sair da zona de conforto”. Essas pessoas são verdadeiros profetas do entristecimento! Não se aceita um momento de alegria em hipótese alguma! Se no processo seletivo de uma empresa alguém disser: “Eu sou um cara de bem com a vida, estou bem comigo mesmo”, ele será excluído, porque o que se quer é o indivíduo desconfortável, desejante e, portanto, alguém que sabe buscar o que ainda não existe. (2015, pgs. 21 e 22)

E de fato, de certa forma somos assim mesmo, lidamos nossa vida toda entre o desejo e a falta. Acompanhando a linguagem dos autores, podemos ver uma questão de uma linguagem crítica quanto ao trabalho que impera hoje dentro das organizações, a ordem é vender, alcançar resultados. Pode-se dizer que poco se olha para a satisfação dos operadores dentro de sua função.Cunhou-se com o tempo chamar os mesmos também por colaboradores, como forma de incentivo e sinal de pertencimento, porém, os chamar por colaboradores, não veio como uma troca simbólica, mas sim como algo do politicamente correto, sendo que mesmo assim, ainda se mantêm uma ideia muito antiga de trabalho que faz com que muitos ainda trabalhem dessa forma e no fim da vida recebam a plaquinha que agradece por ter sido um verdadeiro caçador de cenouras, que virou sem valor agora.

O trabalho como castigo persiste. Tanto que a maior parte das pessoas diz: “Quando eu parar de trabalhar, eu vou fazer isso, isso e isso.” Sendo que isso é uma ilusão, porque você pode dizer: “Quando eu não tiver dependência em relação ao trabalho, eu vou fazer isso”. Mas parar de trabalhar, você não vai parar nunca. Nem pode. Porque você nucna deixará de fazer a sua obra. Seja a sua obra aquela que você faz para continuar existindo, seja para o seu reconhecimento. Eu me vejo naquilo que faço, não naquilo que penso. Eu me vejo aqui, no livro que escrevo, na comida que eu preparo, na roupa que eu teço.”(CORTELLA, 2014, p. 20)

Porém, como comenta Cortella, ninguém para de trabalhar e deixa de ser útil, mas por outro lado é fato, que poucos pensam assim. É comum ouvirmos ou vermos, depois de aposentado não se sabe mais o que fazer, como se realmente o dito “que você não tem mais valor”, se torna um significante de grande valor.
Circula isto como algo de valor cultural, alguns costumam ver isso como um problema, no entanto isso é um sinal que as coisas podem mudar, e de fato estão mudando. A um tempo atrás era muito mais comum do que hoje a falta de sentido na aposentadoria e no suposto fim da vida ativa. Hoje se foca muito mais no valor de si mesmo, desejos que ainda se tem por realizar e na constante produção de algo de valor onde se sinta bem.

CORTELLA M. E FILHO C. ÉTICA E VERGONHA NA CARA. São Paulo: Papirus Debates, 2015.


CORTELLA S. QUAL É A TUA OBRA?. Rio de Janeiro: Vozes, 2014

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