Conforme
Cortella e Filho (2015, p. 19) “Existe um lema que algumas empresas
adotaram e que acabou permeando, impregnando todo o conjunto social:
“Fazemos qualquer negócio”. Essa lógica significa qualquer
negócio é válido.” Em outras palavras, o foco esta no resultado.
Isso significa que é preciso o que for preciso para vender, mesmo
que isso implique, mentir, enganar, ludibriar e assim por diante.
Porém
como dizem os autores, não sei se, se percebe da bobagem que é
fazer uma lista onde um dos intens é a palavra foco, pois seja esta
primeira, terceira ou qual for, anula todos os outros itens.
Vale
aqui citar um longo trecho da conversa entre o professor Clóvis e o
Cortella, onde falam abruptamente sobre essa questão de um modo
muito verdadeiro:
E vamos
trabalhar numa empresa. Ela tem 15 níveis e começamos no G15 –
não tem lugar para bicicleta no estacionamento! Enquanto não
passarmos para o G14, somos insignificantes. Inicia-se, então, a
escalada: subgerente, gerente, diretor não sei do quê... Até o
momento em que percebemos que, para sermos promovidos, precisamos
alcançar mais metas do que os outros. O foco está no resultado, e
nós o trazemos. As metas são como cenouras: nós as perseguimos. E
quando pela primeira vez, alcançamos uma cenoura, temos a impressão
de que neste momento a vida finalmente chegou, vamos comemorar sete
anos de vacas gordas. Entregamos a cenoura para o chefe, que liga o
Powerpoint e estabelece nova meta, nova cenoura. E descobrimos que a
lógica do eros de Platão a lógica do desejo na falta, do buscar o
que não se tem, é uma lógica que nos acompanha desde o começo da
vida escolar até o momento em que, depois de 30 anos , recebemos uma
placa dizendo: “Você foi um excelente perseguidor de cenouras, mas
hoje se tornou inadaptável. Vou contratar alguém mais jovem, mais
iludido que você para poder explorar o trabalho mais abruptamente."
Desde a
escola até a vida no trabalho não somos preparados para a alegria.
Um exemplo é o que recomenda boa parte dos profissionais de Recursos
Humanos nas organizações: “sair da zona de conforto”. Essas
pessoas são verdadeiros profetas do entristecimento! Não se aceita
um momento de alegria em hipótese alguma! Se no processo seletivo
de uma empresa alguém disser: “Eu sou um cara de bem com a vida,
estou bem comigo mesmo”, ele será excluído, porque o que se quer
é o indivíduo desconfortável, desejante e, portanto, alguém que
sabe buscar o que ainda não existe. (2015, pgs. 21 e 22)
E de
fato, de certa forma somos assim mesmo, lidamos nossa vida toda entre
o desejo e a falta. Acompanhando a linguagem dos autores, podemos ver
uma questão de uma linguagem crítica quanto ao trabalho que impera
hoje dentro das organizações, a ordem é vender, alcançar
resultados. Pode-se dizer que poco se olha para a satisfação dos
operadores dentro de sua função.Cunhou-se com o tempo chamar os
mesmos também por colaboradores, como forma de incentivo e sinal de
pertencimento, porém, os chamar por colaboradores, não veio como
uma troca simbólica, mas sim como algo do politicamente correto,
sendo que mesmo assim, ainda se mantêm uma ideia muito antiga de
trabalho que faz com que muitos ainda trabalhem dessa forma e no fim
da vida recebam a plaquinha que agradece por ter sido um verdadeiro
caçador de cenouras, que virou sem valor agora.
“O trabalho como castigo persiste. Tanto que a maior
parte das pessoas diz: “Quando eu parar de trabalhar, eu vou fazer
isso, isso e isso.” Sendo que isso é uma ilusão, porque você
pode dizer: “Quando eu não tiver dependência em relação ao
trabalho, eu vou fazer isso”. Mas parar de trabalhar, você não
vai parar nunca. Nem pode. Porque você nucna deixará de fazer a sua
obra. Seja a sua obra aquela que você faz para continuar existindo,
seja para o seu reconhecimento. Eu me vejo naquilo que faço, não
naquilo que penso. Eu me vejo aqui, no livro que escrevo, na comida
que eu preparo, na roupa que eu teço.”(CORTELLA, 2014, p. 20)
Porém, como comenta Cortella, ninguém
para de trabalhar e deixa de ser útil, mas por outro lado é fato,
que poucos pensam assim. É comum ouvirmos ou vermos, depois de
aposentado não se sabe mais o que fazer, como se realmente o dito
“que você não tem mais valor”, se torna um significante de
grande valor.
Circula isto como algo de valor cultural,
alguns costumam ver isso como um problema, no entanto isso é um
sinal que as coisas podem mudar, e de fato estão mudando. A um
tempo atrás era muito mais comum do que hoje a falta de sentido na
aposentadoria e no suposto fim da vida ativa. Hoje se foca muito mais
no valor de si mesmo, desejos que ainda se tem por realizar e na
constante produção de algo de valor onde se sinta bem.
CORTELLA M. E FILHO C. ÉTICA E VERGONHA
NA CARA. São Paulo: Papirus Debates, 2015.
CORTELLA S. QUAL É A TUA OBRA?. Rio de
Janeiro: Vozes, 2014
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