domingo, 30 de agosto de 2015

Perdão, culpa, ressentimento...

 Não é fato novo pra ninguém que o homem contemporâneo se encontra dessituado, como que sem rumo. Se no século passado se estava preocupado com a culpa, neste novo século o problema esta situado quanto a dificuldade de escolha e orientação quanto a si mesmo. No entanto isso não é novidade do século XXI, pois o movimento que deu início a isto, esta situado na revolução de maio de 68 onde se questionaram todos os tipos de autoridade. Aqui podemos nos valer de uma citação de Dostoiévski, quando diz que deus esta morto, logo não há mais lei, ou melhor adaptando sua frase, depois de Deus, é preciso inventar uma nova lei. Cito aqui esta colocação de Dostoiévski devido a que isto situa muito bem a situação depois de 68, com a queda de todo o tipo de autoridade e o excesso de liberdade, é preciso encontrar novos limites. E de fato aqui esta o problema.

O que é interessante é ver como uma geração de neuróticos que se quiserem livres tomaram finalmente o caminho do álcool, ou da droga. Não acerdito que a vivência da droga para esta geração tenha sido uma libertação, como um recurso para esquecer a lógica mesma da dívida, portanto, a lógica mesmo que acabaria impondo uma direção ao percurso. Não era tanto isso a relação deles com o álcool e a droga. Justamente o recurso tão fácil ao álcool e à droga não era nada mais do que uma metáfora pobre do fato de que a sociedade tinha logrado uma abundância na qual a relação mesma ao objeto parecia como uma relação fácil. Aliás, este tipo de sonho só era possível naqueles anos, e talvez só fosse possível nos Estados Unidos ou na Europa, nos países capitalistas mais desenvolvidos. Os objetos estavam ali, não só nas vitrines das lojas, mas inclusive caindo das margens da produção. Então, essa relação fácil com o objeto é também uma relação forçada, pois o acesso aos objetos é o ideal fálico mesmo. (CALLIGARIS 2013, p.35)

Com o fim dos limites, não há mais regra, “se há, é pros outros, pra mim não”. No entanto tal pensamento já existia antes desta revolução. Vimos se expressar sobremaneira na segunda guerra mundial, onde os tratados de guerra que existiam já não existiam mais. Se, se aplicasse pros outros beleza, mas pra mim não. Freud ávido leitor tinha noção disso quando falava das questões da civilização. Porém, não viveu para ver o fato nefasto e fúnebre da segunda guerra mundial. E de fato vale situar isso, pois abre um marco quanto a brutalidade e crueldade exercidas pelo ser humano, de tal forma que muitos ainda se negam em falar sobre, mas liberdade todos tem... Em outras palavras, não se quer pensar sobre. A melhor coisa, ainda é o velho costume antes disso tudo, herdeiro do iluminismo, o que se deve é tudo confessar e a ordem e harmonia das coisas esta no perdão e nos modos em lidar com a culpa.
No entanto, o foco dos problemas atuais esta longe disso, repetir estes velhos modos, é como repetir os mesmos erros. O ideal hoje não se encontra mais especificamente nos primeiros heróis, o ideal esta nos diversos heróis e objetos de identificação da vida do sujeito. O modelo não é mais do pai, mas sim do paiversão.

Acompanhamos o surgimento, a cada esquina, de neorreligiões que se propõem a dar respostas salvadoras às angústias do momento, da mesma forma que a chuva de livros de autoajuda inunda as livrarias de aeroportos e das estações de trem. A tercerceira tendência é a medicalização da felicidade, é o sonho cientificista de que para tudo há remédio. Em resumo, estamos em um momento reacionário da volta de atitudes moralistas, neorreligiosas e pseudocientificistas.” (FORBES, 2012, p. 134)

Bom, você já deve ter se dado conta do quanto isso é confuso. E de fato o é, pois também, como encontrar orientação, quando não se há mais ideais a seguir? Quais são os limites? O que devo ser? Quem sou eu?

A globalização e a queda dos ideais e da ordem paterna levam ao curto circuito da palavra, o que não é necessariamente bom nem ruim. Como soluções para o melhor, temos os esportes radicais e a música eletrônica. Para o pior os novos sintomas são as doenças do curto circuito da palavra, tais como as toxicomanias, a delinquência sem limites, o fracasso escolar e as afecções psicossomáticas.”(FORBES, 2012, p. 137)

Ligado as perguntas, de fato estão as questões da globalização e as mudanças que ocorreram e vem ocorrendo no mundo como organização social. É preciso as pensá-las, refletir sobre elas. E pode ser, que de fato mesmo não tenhamos resposta e que a droga tenha se tornado uma adição a nós para que possamos suportar o cotidiano. Afinal de contas também, tudo bem, nos livros e filmes sempre há gente que fuma e bebe. Os comerciais sobre também são sempre influentes, dizem que podemos e devemos consumir. Então, cervejinha no final de semana é o mínimo!
Não é assim que as coisas acontecem?
Há um movimento, que se massifica onde se propõe e se estabiliza a falta de responsabilidades, falta de deveres, se há deveres são pros outros, eu mereço o descanso necessário e a liberdade para agir, beber e endoidar. Pelo menos no final de semana é preciso aliviar...
Pois é, de fato é, mas isso não quer dizer que é normal, e também se foi instituído como normal, ou como se prefere usar, modelo de normatização, não quer dizer que é saudável e que sempre deve ser assim. Pois também não é sempre que se é preciso de uma droga, seja ela lícita, ou ilícita para que possa se divertir, ou suportar o cotidiano. Isso também pode estar apontando um problema, uma necessidade de ajuda.

De uma maneira simples, diríamos que aquele que negocia com o “pai” para chegar a uma satisfação possível é o neurótico; quem despreza o “pai”, ocupando o seu lugar, fazendo uma versão do “pai”, é o perverso; finalmente, quem não consegue estabelecer uma articulação paterna é o psicótico. Hoje, temos que ir além. Não basta definir o tipo clínico com base na posição do sujeito em relação à função paterna. É preciso considerar a singularidade da solução que um sujeito inventa, por meio de seu sintoma, para dar conta de tudo aquilo que se apresenta para lém do pai.” (FORBES, 2012, p. XXI)

Vale considerar que quando aqui nos referimos a pai, além do pai, estamos nos referindo a lei e a ordem, com as figuras familiares que dão espaço a alteridade (reconhecimento do outro). E de fato, isso nos coloca numa sinuca de bico devido a dificuldade de escolhas e falta de representabilidade de heróis que enfrentamos depois de todos os tipos de autoridade terem sido derrubados desde a revolução de maio de 68.
De fato isso também representa o rompimento da família tradicional, parafraseando roudinesco, a família está em desordem. Depois da queda do simbólico, onde família tinha sua simbologia, dentre as demais, o sujeito encontra-se como que sem horizontes. Um assunto difícil de se dizer encerrado, pois como dizem também os filósofos, quanto mais nos aprofundamos num assunto, mais sabemos de, mais também temos noção do quanto não sabemos ...

CALLIGARIS C. Introdução a uma Clínica Diferencial das Psicoses. São Paulo: Zagodoni, 2013.

FORBES J. Inconsciente e Responsabilidade. São Paulo: Manole, 2012.

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