sábado, 1 de agosto de 2015

Piada (agressividade/cômico)

O interesse da piada, ocorre por uma troca, junção de palavras, como num jogo de inteligência, onde se une o cômico com a piada, tanto na figura do sujeito como de um terceiro, espaço potencial quanto ao gozo e graciosidade. Disso nasce uma questão, tanto de um simples riso, como de agressividade, da oportunidade e desejo de ajudar, a impossibilidade de fazê-lo.
Isso nos faz recordar de um velho dito popular, “perde o amigo, mas não perde a piada”, na qual piada não é uma história com começo meio e fim que faz rir, mas sim um meio mordaz cujo caráter ofensivo é apenas levemente recoberto pelo seu caráter espirituoso.
Entre a agressividade e a empatia, piada e a identificação com o outro (sentir-se como aquela pessoa e ter o impulso de ajudá-la), encontram-se duas distintas situações, uma impossível de oferecer ajuda e a outra, digamos respeitosa.
Conforme Freud, é somente na ação de transmití-lo a um outro que a piada assume sua verdadeira forma, pois a comicidade satisfaz-se com o confronto do eu com o que ele chama de pessoa-objeto. Podemos até ris sozinhos de uma piada, mas é a hilaridade que se se provoca no outro que regozija o que o eu criou. Para sucitar tal demonstração, Freud cita shakespeare,

“A fortuna de uma piada se acha no ouvido
De quem a escutam jamais na língua
De quem a faz (Trabalhos de amor perdidos)”1

As piadas por fim, como tem implicitas em si seu valor pela forma como o outro escuta, é interessante analisar, o quanto este outro também não é só o outro alheio ao sujeito, mas o outro que este tem internalizado em si mesmo. Disso nascem as piadas tendenciosas, as quais se busca o acesso a fontes de prazer que não se busca inocentemente. Fontes estas, que devem estar ligadas aos propósitos inconfessáveis e não apenas a forma inteligente da frase espirituosa ou da estória contada com final inesperado.
Citando-me a mim mesmo em outro texto que escrevi, aqui nos encontramos diante do obsceno, que ganha espaço junto a piada, “Dentre esta nova forma, se instala a permissão ao obsceno, imoralidade, deboche, indecênscia, inconveniência.” (A linguagem do obsceno).
Freud examina a Zote2, como o tipo grosseiro de piada (witz). Este tipo de piada, não é propriamente uma, pois enuncia cruamente a ideia sexual (“ei gostosa, já deu hoje?”, ou algo assim). A pretexto de excitar a mulher manifestando interesse pelo seu corpo, na verdade o interesse dessa frase é humilhá-la. Satisfeitos nestes componentes são os elementos sádicos.
A zote, se converte em piada quando a repressão impede a manifestação direta do pensamento indecente. Por exemplo, entre pessoas que não ousariam dizer tais coisas na presença de uma dama. A pessoa a quem é dirigida a fala obscena, não é tanto a mulher (este é seu alvo), mas sim o ouvinte, o homem. Assim a piada tendenciosa, atinge sua finalidade, tornando possível a satisfação de uma pulsão hostil frente a um obstáculo, contornando-o e extraindo prazer de uma fonte que o objeto havia tornado inacessível. O que é outra maneira de dizer que ele produz prazer, pois suprime uma inibição.
Neste aspecto, e por este caminho, é que levantamos a opinião que o prazer é ocasionado pela supressão das inibições, algo que de fato nos doais atuais, tem se tornado também cotidiano.
“Não deixa de ser fato corriqueiro a obscenidade do cotidiano. No entanto não em linguagem direta, mas sim sempre por meios metafóricos ou de encenação mesmo. Algo como a poesia e o teatro. Não falta lirismo também dentre estes meios, seria como dizer que dentre a vida e o cotidiano passamos por diversos momentos dantescos, como que em viagens entre o céu o inferno e o purgatório.” (ADAMI, 2015)


FREUD S. Os Chistes e a Sua Relação com o Inconsciente. In: Obras Completas Sigmund Freud, vol. VIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

MEZAN R. O Tronco e os Ramos. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

PONTALIS J. B, MANGO G. E. Freud com os Escritores. São paulo: Três Estelas, 2014.

1FREUD S.“O Chiste e suas relação com o inconsciente” op/ cit, p. 265.

2Por Zote, se acompanha um problema de tradução, no entanto é importante considerar os sentidos referentes a encontrados, como: paspalhão, idiota, pateta, estúpido, ignorante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário