O
interesse da piada, ocorre por uma troca, junção de palavras, como
num jogo de inteligência, onde se une o cômico com a piada, tanto
na figura do sujeito como de um terceiro, espaço potencial quanto ao
gozo e graciosidade. Disso nasce uma questão, tanto de um simples
riso, como de agressividade, da oportunidade e desejo de ajudar, a
impossibilidade de fazê-lo.
Isso nos
faz recordar de um velho dito popular, “perde o amigo, mas não
perde a piada”, na qual piada não é uma história com começo
meio e fim que faz rir, mas sim um meio mordaz cujo caráter ofensivo
é apenas levemente recoberto pelo seu caráter espirituoso.
Entre a
agressividade e a empatia, piada e a identificação com o outro
(sentir-se como aquela pessoa e ter o impulso de ajudá-la),
encontram-se duas distintas situações, uma impossível de oferecer
ajuda e a outra, digamos respeitosa.
Conforme
Freud, é somente na ação de transmití-lo a um outro que a piada
assume sua verdadeira forma, pois a comicidade satisfaz-se com o
confronto do eu com o que ele chama de pessoa-objeto. Podemos até
ris sozinhos de uma piada, mas é a hilaridade que se se provoca no
outro que regozija o que o eu criou. Para sucitar tal demonstração,
Freud cita shakespeare,
“A
fortuna de uma piada se acha no ouvido
De quem
a escutam jamais na língua
De quem
a faz (Trabalhos de amor perdidos)”1
As
piadas por fim, como tem implicitas em si seu valor pela forma como o
outro escuta, é interessante analisar, o quanto este outro também
não é só o outro alheio ao sujeito, mas o outro que este tem
internalizado em si mesmo. Disso nascem as piadas tendenciosas, as
quais se busca o acesso a fontes de prazer que não se busca
inocentemente. Fontes estas, que devem estar ligadas aos propósitos
inconfessáveis e não apenas a forma inteligente da frase
espirituosa ou da estória contada com final inesperado.
Citando-me
a mim mesmo em outro texto que escrevi, aqui nos encontramos diante
do obsceno, que ganha espaço junto a piada, “Dentre esta nova
forma, se instala a permissão ao obsceno, imoralidade, deboche,
indecênscia, inconveniência.” (A linguagem do obsceno).
Freud
examina a Zote2,
como o tipo grosseiro de piada (witz). Este tipo de piada, não é
propriamente uma, pois enuncia cruamente a ideia sexual (“ei
gostosa, já deu hoje?”, ou algo assim). A pretexto de excitar a
mulher manifestando interesse pelo seu corpo, na verdade o interesse
dessa frase é humilhá-la. Satisfeitos nestes componentes são os
elementos sádicos.
A zote,
se converte em piada quando a repressão impede a manifestação
direta do pensamento indecente. Por exemplo, entre pessoas que não
ousariam dizer tais coisas na presença de uma dama. A pessoa a quem
é dirigida a fala obscena, não é tanto a mulher (este é seu
alvo), mas sim o ouvinte, o homem. Assim a piada tendenciosa, atinge
sua finalidade, tornando possível a satisfação de uma pulsão
hostil frente a um obstáculo, contornando-o e extraindo prazer de
uma fonte que o objeto havia tornado inacessível. O que é outra
maneira de dizer que ele produz prazer, pois suprime uma inibição.
Neste
aspecto, e por este caminho, é que levantamos a opinião que o
prazer é ocasionado pela supressão das inibições, algo que de
fato nos doais atuais, tem se tornado também cotidiano.
“Não
deixa de ser fato corriqueiro a obscenidade do cotidiano. No entanto
não em linguagem direta, mas sim sempre por meios metafóricos ou de
encenação mesmo. Algo como a poesia e o teatro. Não falta lirismo
também dentre estes meios, seria como dizer que dentre a vida e o
cotidiano passamos por diversos momentos dantescos, como que em
viagens entre o céu o inferno e o purgatório.” (ADAMI, 2015)
ADAMI A.
A linguagem do Obsceno.Visualizado
emhttp://adamipsicologo.blogspot.com.br/2015/06/a-linguagem-do-obsceno.html
FREUD S.
Os Chistes e a Sua Relação com o Inconsciente. In: Obras Completas
Sigmund Freud, vol. VIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
MEZAN R.
O Tronco e os Ramos. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
PONTALIS
J. B, MANGO G. E. Freud com os Escritores. São paulo: Três Estelas,
2014.
1FREUD
S.“O Chiste e suas relação com o inconsciente” op/ cit, p.
265.
2Por
Zote, se acompanha um problema de tradução, no entanto é
importante considerar os sentidos referentes a encontrados, como:
paspalhão, idiota, pateta, estúpido, ignorante.
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