segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Carnaval como encenação do social

Em 54 antes de Cristo, houve a última alteração no calendário, acrescentando-se dois meses a este, o que modificou toda uma organização social, no entanto pelo menos no Brasil parece que ainda continuamos a nos organizar inspirados nessa ordem afinal, aqui o ano começa depois de dois meses, depois do carnaval, como se o ano ainda não tivesse direito os 12 meses do calendário.
No entanto, vale aqui nos determos no que é o carnaval a partir de sua própria tradição, sendo que esta parte da ideia européia em que um dia do ano qualquer um poderia ser quem ele quisesse. Se o mendigo queria ser rei, se o rei queria ser mendigo ou o que se desejasse. É como o dia em que se podia colocar a fantasia de desejo. O uso das máscaras estava permitido.
Sabemos que no nosso caso não é só um dia e a encenação é maior. É como dito acima, o tempo das máscaras. Porém, se sabe ao mesmo tempo que máscaras e encenação de papeis ocorrem o ano inteiro. Mas no carnaval é permitido livremente, você só não pode exercer legalmente as funções da sua fantasia. Durante o ano no entanto, as máscaras servem como forma de lidar com o peso do real, do que são as coisas como são e a forma de dar uma escapadinha pra manter o próprio bem estar.
Que se o diga num tempo como este em que vivemos onde a questão da imagem é tudo, a final, é preciso ter aquela imagem pra que se possa ganhar as coisas. Valhamo-nos aqui de tabacaria de Álvaro de Campos,

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 
[...]
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. 
[...]
Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido. 

Com máscara ou sem, carnaval ou não, por fim, a questão é que não se perca de si e não se veja estranho a própria imagem no espelho e tudo aquilo que encenou.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O que aconteceu com o Brasil?

Diante da realidade brasileira que enfrentamos nessa época, é difícil não observar nossa brasileidade e a questão moral, que por sinal, não é só dos políticos que está mal. Para seguir nessa discussão, quero fazer uma referência a uma obra e um filme bem conhecidos, “Ensaio sobre a cegueira”.
No filme, vemos um grupo separado por um muro do resto da sociedade, que está ali por ter contraído uma doença que os deixa cegos. Aparentemente, essa doença não tem explicativa porque acontece, simplesmente as pessoas do nada perdem a visão, sendo que então, são levadas para o local onde estão os mesmos. Lá onde ficam, recebem comida e distribuem entre si, no entanto não demora muito pra que comecem a monopolizar os suprimentos aqueles que pegam e fazer exigências. Aí, se instala o caos e o abuso, onde acabam entrando em estado de guerra. No fim, um grupo vencedor, o qual acompanhamos desde o início do filme, sai de onde estavam presos, e descobrem as cidades desertas, não há ninguém pelas ruas que esteja normal. Todos se tornaram cegos e perdidos. Passam por um mercado e a herói do filme, que ainda podia ver, faz as coordenadas para que peguem suprimentos.
Desta mesma relação entre as pessoas “cegos” vimos estourar no país uma onda avassaladora, nunca vista antes no Espírito Santo. Quer dizer, nunca vista assim antes, o que não quer dizer que não vinha acontecendo. No entanto, com a baixa da lei, os desejos sairão passear e a violência tomou conta. Um fator que nos chama atenção quanto ao sintoma, individual e social.
O vírus que surge aqui tem nome, tem invadido as sociedades principalmente depois da segunda guerra mundial. Chama-se ele: fascismo. Caracterizado pela edificação de um Estado total, que se sobreponha ao indivíduo a ponto de anulá-lo. Em suas características, a intolerância, torna-se constante. Exclui-se a diferença e se nega a alteridade, crescendo então a preocupação com o inimigo, caracterizado como todo aquele que ataca suas posições.
Tem esse vírus um importante fator marcado por se apresentar como um fenômeno natural, em outras palavras, todos o guardam em potencialidade. Quando aparece, surge como algo necessário diante da vida em sociedade que enfrenta o sujeito e o modo deste lidar com isso. Lembrando aqui, que funciona como um vírus, que infecta e tende a destruir o sistema.

Em outra sua característica, é importante lembrar que o fascismo, se apóia na reunião de uma comunidade, por uma exaltação do sentimento nacional, de modo tal que justifique a primazia de seus direitos sobre os outros povos. Fator tal, que nos mostra porque surgiu depois e durante as duas grandes guerra, e não durante guerras de mercenários. Para incendiar seu espírito, normalmente se desenvolvem frente a um ideal escolhido por uma pessoa onde há um grupo que a representa, o que aponta também para uma nova forma de sofrimento, onde as pessoas constantemente buscam uma questão de reconhecimento, acentuando com isso a característica da feminilidade de nossa sociedade.
Aponto aqui a questão da feminilidade, pois é ela que tem caracterizado a globalização e as marcas desta. No entanto, para discutir isso, seria necessário outro texto, levando em consideração que o aqui discutido, é apenas um apontamento de um vírus que se agrava pelo mundo. Mas com certeza, há mais que esses. De toda forma, o que importa, é podermos olhar para as raízes da moralidade brasileira que parece ter se perdido em cada um. Mas pera aí, esta moralidade já existiu?

sábado, 4 de fevereiro de 2017

A falta da experiência de poder ter a quem contar como causa do mal estar

Quando voltavam os soldados da primeira guerra mundial,não tinham uma história para contar. Corroídos pelo silêncio e pela violação da regra que requer a partilha da experiência, acusavam como apontava Walter Benjamin, o início de uma nova era. Esse era também o drama recorrente de Primo Levi, que depois de liberto dos campos de concentração, um único anseio o assediava. Desejava falar sobre sua experiência em Auschwitz. No entanto, para sua surpresa, em sua casa na mesa, quando começava a falar, os outros começavam a bocejar, aos poucos se levantar e logo, se via sozinho, sem quem estivesse disposto a o escutar. O pesadelo de não ter com quem compartilhar o sofrimento de Levi, assim como a falta de experiência de partilha dos soldados que voltavam da guerra, é sintoma de uma nova forma como dizia Benjamin. Uma nova forma de mal estar.
Como apontou Freud também, após a primeira guerra mundial. As pessoas sofriam de traumas, traumas difíceis de tocar. Ou como no caso de Primo Levi, geram necessidade de se falar. De toda forma, como podemos observar o que se gera são excessos e cada um lida de um jeito diferente, seja pela partilha, ou quando por falta desta, por não ter quem o escute ou por não se ter vontade de falar se gera um mal estar.
Se fossemos nomear, conforme os padrões de nossa comunidade, se diria que os saldados e Primo Levi sofrem de stress pós traumático. No entanto, nesse pequeno fragmento, já é possível observar, que esta forma de nomear se torna redutível quanto ao que sofrem os sujeitos afetados pelos excessos.
O mal estar como podemos observar, é um apontador do sofrimento pessoal de acordo com os fatores e elementos da história do sujeito, onde se vê ele com seus desencontros, confusões.
Para se livrar, surge um culpado, os outros, onde é comum ouvir expressões como: "Acho que sou bom demais para este mundo ...
"É só comigo que acontece", "Olha só, da pra acreditar? Toda vez que eu tento da errado"
Nesse ponto, todo mundo se queixa o tempo inteiro. Do clima, do trabalho, porque é muito ou porque é pouco. Do carinho, pela frieza ou pela melação. Da prova, por ser muito difícil ou por ser fácil demais. A queixa por fim, é o motor da união do grupo. Expressão de uma dor, um mal estar, no entanto, raramente acontece dessa forma, pois é habitual que a expressão da queixa exagere muito a dor, até que a dor acabe se conformando no exagero da queixa. Dessa forma, é comum as pessoas acreditarem tanto nas suas lamúrias que acabam emprestando seu corpo, ficando doentes, para comprovar o que dizem.
A partir disso, a condução do tratamento há de ser precisa. Há de se ajustar a palavra à vida, conciliar a palavra com o corpo, fazer da palavra a própria pele até alcançar o almejado senti-se "bem na própria pele". Em outras palavras, é preciso poder se escutar e quando sozinho não mais puder sustentar, procurar ajuda.