Quando voltavam os soldados da primeira guerra mundial,não tinham uma história para contar. Corroídos pelo silêncio e pela violação da regra que requer a partilha da experiência, acusavam como apontava Walter Benjamin, o início de uma nova era. Esse era também o drama recorrente de Primo Levi, que depois de liberto dos campos de concentração, um único anseio o assediava. Desejava falar sobre sua experiência em Auschwitz. No entanto, para sua surpresa, em sua casa na mesa, quando começava a falar, os outros começavam a bocejar, aos poucos se levantar e logo, se via sozinho, sem quem estivesse disposto a o escutar. O pesadelo de não ter com quem compartilhar o sofrimento de Levi, assim como a falta de experiência de partilha dos soldados que voltavam da guerra, é sintoma de uma nova forma como dizia Benjamin. Uma nova forma de mal estar.
Como apontou Freud também, após a primeira guerra mundial. As pessoas sofriam de traumas, traumas difíceis de tocar. Ou como no caso de Primo Levi, geram necessidade de se falar. De toda forma, como podemos observar o que se gera são excessos e cada um lida de um jeito diferente, seja pela partilha, ou quando por falta desta, por não ter quem o escute ou por não se ter vontade de falar se gera um mal estar.
Se fossemos nomear, conforme os padrões de nossa comunidade, se diria que os saldados e Primo Levi sofrem de stress pós traumático. No entanto, nesse pequeno fragmento, já é possível observar, que esta forma de nomear se torna redutível quanto ao que sofrem os sujeitos afetados pelos excessos.
O mal estar como podemos observar, é um apontador do sofrimento pessoal de acordo com os fatores e elementos da história do sujeito, onde se vê ele com seus desencontros, confusões.
Para se livrar, surge um culpado, os outros, onde é comum ouvir expressões como: "Acho que sou bom demais para este mundo ...
"É só comigo que acontece", "Olha só, da pra acreditar? Toda vez que eu tento da errado"
Nesse ponto, todo mundo se queixa o tempo inteiro. Do clima, do trabalho, porque é muito ou porque é pouco. Do carinho, pela frieza ou pela melação. Da prova, por ser muito difícil ou por ser fácil demais. A queixa por fim, é o motor da união do grupo. Expressão de uma dor, um mal estar, no entanto, raramente acontece dessa forma, pois é habitual que a expressão da queixa exagere muito a dor, até que a dor acabe se conformando no exagero da queixa. Dessa forma, é comum as pessoas acreditarem tanto nas suas lamúrias que acabam emprestando seu corpo, ficando doentes, para comprovar o que dizem.
A partir disso, a condução do tratamento há de ser precisa. Há de se ajustar a palavra à vida, conciliar a palavra com o corpo, fazer da palavra a própria pele até alcançar o almejado senti-se "bem na própria pele". Em outras palavras, é preciso poder se escutar e quando sozinho não mais puder sustentar, procurar ajuda.
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