Em 54 antes de Cristo, houve a última alteração no calendário, acrescentando-se dois meses a este, o que modificou toda uma organização social, no entanto pelo menos no Brasil parece que ainda continuamos a nos organizar inspirados nessa ordem afinal, aqui o ano começa depois de dois meses, depois do carnaval, como se o ano ainda não tivesse direito os 12 meses do calendário.
No entanto, vale aqui nos determos no que é o carnaval a partir de sua própria tradição, sendo que esta parte da ideia européia em que um dia do ano qualquer um poderia ser quem ele quisesse. Se o mendigo queria ser rei, se o rei queria ser mendigo ou o que se desejasse. É como o dia em que se podia colocar a fantasia de desejo. O uso das máscaras estava permitido.
Sabemos que no nosso caso não é só um dia e a encenação é maior. É como dito acima, o tempo das máscaras. Porém, se sabe ao mesmo tempo que máscaras e encenação de papeis ocorrem o ano inteiro. Mas no carnaval é permitido livremente, você só não pode exercer legalmente as funções da sua fantasia. Durante o ano no entanto, as máscaras servem como forma de lidar com o peso do real, do que são as coisas como são e a forma de dar uma escapadinha pra manter o próprio bem estar.
Que se o diga num tempo como este em que vivemos onde a questão da imagem é tudo, a final, é preciso ter aquela imagem pra que se possa ganhar as coisas. Valhamo-nos aqui de tabacaria de Álvaro de Campos,
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
[...]
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
[...]
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Com máscara ou sem, carnaval ou não, por fim, a questão é que não se perca de si e não se veja estranho a própria imagem no espelho e tudo aquilo que encenou.
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