domingo, 7 de maio de 2017

Servidão voluntária como perca da liberdade

A servidão a um outrem, a liberdade, sempre foram temas de muita controvérsia. Nos últimos tempos, o tema com o qual mais se tem debatido é a suposta liberdade. Digo suposta, porque muita ideia que tem se defendido ai como liberdade não passa de servidão. Nesse ponto, é interessante nos voltarmos a obra de La Bótie sobre o Discurso da Servidão, texto escrito no começo do século XVI, mais com um valor a seu tempo e a hoje.
La Bótie nesta obra, fala da questão da liberdade como algo ao qual o sujeito tem que lutar, como aquilo a respeito de nós mesmos que nos deixa livres quanto aos outros, favores, devoção ... Disso, podemos tirar o exemplo de Hipócrates, pai da medicina quando o rei da Pérsia quis atraí-lo para o seu lado à custa de lindos presentes, sendo que Hipócrates se negou a cura de bárbaros que queriam matar os gregos, pois se o fizesse teria problemas de consciência.
Quando se cede a tentações com estas impostas pelo rei persa a Hipócrates se torna uma pessoa submissa, sem brio, se cede a um outrem e a vontade deste, mesmo que isso não seja mais percebido pelas questões de como se vive na cultura, tal qual como vivemos hoje,

Digamos portanto que, se todas as coisas se tornam naturais para o homem quando se acostuma a elas, só permanece em sua natureza aquele que deseja apenas as coisas simples e não alteradas. Assim, a primeira razão da servidão voluntária é o hábito. É o que acontece com os cavalos mais briosos, que no início mordem o freio e depois brincam com ele, que há pouco escoiceavam assim que viam a sela e agora se apresentam sozinhos sob os arreios, e, vaidosos, pavoneiam-se debaixo da armadura. Os homens dizem que sempre foram súditos, que seus pais viveram desse modo. pensam que são obrigados a suportar o mal, persuadem-se com exemplos e consolidam eles mesmos, com o passar do tempo, a posse daqueles que o tiranizam. Mas, na verdade, os anos nunca dão o direito de praticar o mal. Antes, aumentam a injúria. (LA BÓTIE, 2017, p. 41)

Tal situação por fim, nos leva a refletir o que enfrentamos hoje diante da liberdade de expressão, democracia, achados como um avanço da civilização. Porém, é interessante pontuar neste ponto a opinião de alguns sociólogos, psicanalistas, historiadores como Bauman, Zizek e Karnal onde estes afirmam que a liberdade de expressão como a da democracia é uma questão que faz com que os sujeitos tenham um líder. Se não tiverem ainda que o procurem, como uma servidão voluntária. Algo que podemos considerar como força que reprima ou de contas dos impulsos que o sujeito traz dentro de si. Afinal de contas, se a cultura não dá mais conta disso, é preciso achar alguma figura que o faça, ou que pelo menos justifique meus atos. E justamente por isso, esconde-se o problema fundamental, a liberdade. Liberdade de quem e pra que?
Um questionamento que nos coloca diante da primeira questão da liberdade, nós mesmos. Tal qual com Hipócrates, que por uma questão pessoal diante de si mesmo se nega as tentações do rei.

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