De início quero precaver os leitores que usarei termos técnicos, mas tentarei fazer a leitura o mais compreensível possível.
O excesso sempre foi algo que me chamou atenção como expressão de algo que surge como negativo de outro, seja por falta ou por excesso mesmo. Nisso quero me usar de um exemplo cotidiano tratado por Lacan de forma passageira. O amor cortês. Todo amor cortês responde a uma questão de uma sexualidade podemos dizer, sublimada, que muda sua meta de satisfação. Torna o sexual mais aceito, circulável. Em outras palavras, abrir a porta de um carro, deixar a mulher andar na frente, ser cavalheiro, implica um ganho, Questões puramente comuns em nosso cotidiano. Mas como tema aqui deste escrito é o excesso, tomemos-lhe em conta.
Todo excesso de cortesia, cavalheirismo, tem os seus porquês. Afinal de contas, ninguém costuma fazer algo que não lhe dê prazer, ou em outras palavras também, que não vise um ganho, nem que secundário, pois também não são todos que conseguem uma via que não seja direta de satisfação, então como disse no começo do texto, é preciso usar o negativo como forma de expressão de si para que não esteja se havendo consigo mesmo. Como pode-se ver, não é questão de fácil entendimento, pois se tomamos o ser humano por si, não é nada simples de compreensão e nem raso quando nosso objeto de análise é a verdade.
Nesta questão sobre a verdade de si, vale considerar as questões infantis, de um chamado infantilismo de nós mesmo e de nossa sexualidade, que se ligam inevitavelmente a algo primário, digamos originário de nós mesmo. Isso podemos observar usando o exemplo do cuidado materno e a forma como as mães satisfazem seus nenês, apressadamente, ou com o jogo de frustração, onde diante da falta do objeto de satisfação, se alucina o mesmo. Somente diante deste jogo de presença/ausência é possível que se construa um sujeito, pois caso contrário, vemos um sujeito que fica como joguete dos próprios impulsos que se lhe tornam difíceis controlar. Então lidamos com os excessos. Tanto no sentido prazeroso como desprazeroso. E neste ponto, cabe notar a questão do ganho de realidade com o passar dos anos, onde esta satisfação primária e os modos desta são substituídos aos poucos por outros modos, os chamados jeitos de ser e fazer. Observamos neste ponto, que não tocamos o ponto de ter, pois ele vêm também depois como uma questão diante da falta e o modo como se lida com esta. Para que se tenha objetos de forma prazerosa, antes é preciso ter sujeito que exista por si como si mesmo e não como questão de jogo de intensidades onde a relação com o outro é sempre problemática. E neste ponto, finalizando o texto e retomando aos inícios, o amor cortês surge justo como forma de domar a si mesmo e impedir vias diretas de satisfação, criando as chamadas vias alternativas, colaterais de modo de satisfação, afinal de contas também, como indica o rechaço aos aplicativos de relacionamento que tem o objetivos conhecidos por quem os usa, porém, é interessante observar que não rola nada sem que se troquem palavras. A não ser é claro que o assunto não seja este e estejamos mais uma vez diante de absurdas e irreprimíveis quantidades.
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