segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Nosso comportamento diante do desconhecido

 

Conhecemos o mal-estar de acordo com nossa leitura do mundo. Acreditamos que ele vem de fora, que não circulará no nosso quintal. O mal pertence ao outro, mas não a mim. Uma perfeita forma de projeção na qual o outro guarda aquilo que há de mal em mim. Nesta mesma perspectiva conhecemos o mal-estar provocado pelo uso de substância no qual aqueles que cometem tal ato parecem atentar contra a própria vida.

            Pensa-se que eles representam a maldade do mundo, porém, em simultâneo, os maiores acusadores têm os mesmos desejos que estes, expressam tanto como eles ou reprimem a todo custo aquilo que gostariam de realizar, mas não podem, então se há um culpado ele está aí, já denominado.

            Da mesma forma acontecem as projeções, identificações projetivas em uma pandemia. Se há algum mal, não irá me atingir, acredito na onipotência do pensamento, nem preciso de proteção. Um pensamento não tão consciente, mas que denuncia a forma de funcionamento da pessoa, seu modo de operacionalização inconsciente. Uma operacionalização não denominada e nem representada, que acontece muito mais por impulso.

            Visualizamos tal exemplo no fumante que arrisca a própria vida para garantir que ele vai ter o cigarro como no alcoólatra que não deixa o copo cair nem esvaziar. São condições tão fortes, que o cigarro é o exemplo metafórico para o vício e a bebida como aquilo que não pode faltar, nem um pouco diferente do vício.

            Estes vícios, assim como diversos outros demonstram o comportamento diante do perigo, não são todos que tem e mesmo quando se tem isso não quer dizer grande coisa. É como saber que usar a máscara com o nariz de fora é arriscado, todos supostamente sabem, mas alguns usam mesmo assim com o nariz de fora e outros nem percebem que o nariz está de fora. O que dirá então daqueles que se aglomeram ou não utilizam máscara?

            É um comportamento diante do desconhecido, do qual enquanto uns têm pavor e se previnem de toda forma, há aqueles que não querem nem saber, é um mal que não os atinge, pois, se sentem protegidos por algo mágico, um pensamento mágico.

            Se você chegou até aqui, provavelmente se questionou sobre porque eu utilizo apenas mal, quando o certo em alguns pontos seria mau, pois diz respeito a algo próprio do sujeito. Pois bem, utilizo mal para expressar o como este mal-estar, da angústia e do funcionamento do próprio psiquismo são tratados e pensados de forma mágica, onipotente. Em certas condições isto dificilmente escapa a qualquer um, no entanto, há aqueles que o utilizam veemente a todos os momentos como se estivessem se pretejando de algo, mas que nada mais é do que de si mesmo.

            Mas quando não consegues te proteger de ti e expõe os outros?

            Pois bem, este é o mesmo problema que nos encontramos quando há um vírus diferente, estranho do qual pouco sabemos, mas julgamos saber mais do que de fato sabermos. O que sabemos de fato, é que estão nos engando. Mas depois de ter lido até aqui mais uma vez, quem tá enganando quem?

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Tempo da ilusão


Do fim de ano cada um guarda a própria memória. Desde o primeiro Natal que tem na memória como do primeiro presente. Ainda hoje me lembro da fantasia do papai Noel e de como essa minha ilusão se perdeu. Era tradição que no dia que antecedia o Natal se fosse a missa. E era no intervalo do atraso da mãe para sair de casa que o papai Noel deixava o presente em cima da cama, pra que quando eu chegasse eu ouvisse a mesma história, que o bom velhinho tinha entrado lá em casa quando saímos, que o pai e a mãe tinham combinado com ele, que tinham deixado uma chave reserva para ele entrar. Lá em casa não tinha chaminé como nos contos da Disney, mas tinha o conto de Natal. Assim também era com o ano novo, eu desejava aquilo que todos desejavam, que o ano novo fosse melhor que este que já tinha sido bom. Era como uma descoberta que se renovava ano após ano. Até que o Natal já tinha ganhado outro sentido, que tinha se perdido a ilusão para mim, mas que sabia que era necessário que as crianças ainda pudessem acreditar, para que elas também viessem a ter sua própria visão do Natal. No ano novo já podia ter o olhar daquilo que tinha ganhado naquele tempo que se passou, assim como daquilo que esperava do que viria. Era tempo de festejar, comemorar. Tempo que passou e tempo que virá. Tempo da ilusão e de prosperar, em que cada um tem a própria memória e recordação deste tempo, que conhecemos como Natal e fim de ano. Ilusão do papai Noel, figura necessária as crianças que acreditam na magia da realidade, mas que já aprenderam que para ganhar as coisas é preciso se comportar. Uma condição que se guarda na memória para a vida toda, assim como o espaço da ilusão que nos faz acreditar em nós mesmos e naquilo que virá.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Reputação

A reputação é uma condição que nos precede em nossa história, conjugando passado, presente e futuro. No entanto, não diz respeito a quem somos, pois assim como temos nossas características pessoais o que nos diz respeito a personalidade, é individual de cada um. Como o modo de ser, comportamentos tidos como padrões adotados diante das diferentes situações pessoais e cotidianas.
 Condição que não costuma ser algo de consciência. Como Lacan nos mostra, não somos senhores em nossa própria casas. Dai que o inconsciente, responsável pelas principais características da personalidade seja conhecido também como estanho. Do qual tomamos conhecimento dentro de nossa própria evolução pessoal pelos outros, repudio ou detesto no outro aquilo que detesto ou não admitiria em mim. Outros os quais, fazem a leitura de nossa reputação.
Pelo menos assim é conhecido nas normas sociais. Porém, isso também faz parte da alienação social. Quando nosso desejo, modo de pensar é muito mais determinado por estes outros do que por nós mesmos.
No inconsciente o processo é semelhante. Formado a partir do modo como o outro, pai e mãe nos desejam, cuidam, nos pensam, formamos o próprio modo de ser, estimulados por mensagens, encontros e desencontros. A partir disso e o modo de ser formado de cada um, uns agem por si mesmos, outros se tornam influenciáveis ou se creem influenciadores. Ainda mais em nossos meios culturais pós modernos, em que as crianças que nem nasceram ainda, são cridas como aquelas que nascem sabendo informática. De tal forma que este modo virtual de vida que se tornou comum e todos tem opinião. Aparentemente.
E é neste aparentemente e na alienação que tudo se confunde. Se perde a noção da própria reputação, assim como se cria uma condição de risco de reputação pela exposição. Os pensamentos pessoais se tornam coletivos. Os sentimentos também. E ai, mais uma vez pela alienação se passa de reputação para seguidores. A aparente opinião é repetição do que outros influenciaram. Se errarem, devo denunciar. Ninguém pode errar, se não sua reputação ...
Ah, a reputação, a própria história, onde ficou?
Se perdeu, se alienou?

sábado, 1 de junho de 2019

Transtorno da personalidade borderline

Causa um sofrimento profundo a respeito de si mesmo e dos outros. Os outros nunca confiáveis são seu maior temor. Ou são invasivos, ou servem para sempre os gratificar em suas necessidades.
Efetivamente o modo como são repercute em um jeito que sempre foi. Ausente em seu ambiente de objetos suficientes para que pudesse se identificar, não soube outro modelo a seguir. Ai entra o valor de uma psicoterapia em que possam construir um senso diferente de si mesmo e aprender a ter tolerância diante da ambiguidade entre bom e mau.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Seria a depressão o mal do século? Tem cura?

A depressão se tornou o mal do século, não resta dúvidas. Tratamento com anti depressivos se aplica a quase todas as formas de sofrimento mental, influenciado tanto pelos métodos de tratamento, como pela desvalorização da imagem real que se tem de si e a aclamação do que você parece ser que a cultura tem imposto.
Neste sentido, vemos as redes sociais, onde as pessoas 365 dias por ano esbanjam felicidade, ou tragédia. Infelizmente é isso que se vê por ai, aqueles que são felizes e recebem muitas curtidas e os que compartilham as tragédias, mas sempre de acordo com seu posicionamento político, pois a ordem do discurso é política, não de compadecimento e nem uma ajuda que não queira aparecer, pois se não precisasse, não seria compartilhada. Se faz mais por necessidade própria (culpa) do que por vontade mesmo de ajudar o próximo. Ai entra por conseguinte, as condições da depressão, muitas vezes com suas comorbidades.
Pesquisas apontam que o mal mais afastador do trabalho é a depressão. No entanto, é importante salientar, que isso acontece, porque as perguntas dos formulários também intencionam em favor da depressão.
Então as pesquisas realizadas estão sendo feitas erroneamente? Sim!
Mas isso, não quer dizer que a depressão seja algo leve e que não afete muitas pessoas, mas sim que ela é o acompanhamento de um sofrimento maior.
A própria classificação da OMS contribuiu pra isso quando no famoso Manual Diagnóstico, DSM e a CID, transformou a depressão em transtornos afetivos, agrupando em sintomas o diagnóstico e favorecendo a indústria farmacêutica. Porém, desfavorecendo pelo mesmo lado o tratamento psicoterápico e a compreensão de padrões de comportamento pelos sujeitos acometidos.
Exemplo disso acontece no transtorno bipolar, para alguns clínicos muito comum em nossos meios e para outros um quadro mal esclarecido. Mal esclarecido, pois diante das modificações de seu verdadeiro nome, se perdeu muito da categorização da própria doença, em que a depressão se mostra de forma virulenta, explodindo depois de uma série de acontecimentos aos quais o sujeito não pode mais estabelecer um quadro estável como tinha até então.
Assim, como em todo o sofrimento mental, mas nos casos acometidos por depressão, que também varia em diferentes formas de expressão, introspectivo, de dependência, vitimizador ...
A qual, acontece de acordo com a forma estruturante da pessoa, que conforme as pesquisas clínicas, não é a depressão, mas sim outras formas de perturbação, tanto da personalidade como do funcionamento psíquico.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

O envelhecimento e a depressão

Comumente dentro da evolução humana, os traumas se formam na infância, criando um psiquismo sólido, que cria as próprias formas de resposta frente ao mundo interno e ao externo. Porém, este psiquismo não se fecha para sempre depois da infância. Continua sujeito durante a vida toda a novas experiências, mesmo que a base mais sólida tenha se firmado durante a infância. Dentro dessas experiências, em muitos casos dentro de nossa sociedade, se criam as condições da depressão, que se fundamenta sobre a desvalorização, desamor em relação a si mesmo. Criando assim, pessoas que se tornam depressivas devido a próprias condições de vida, assim como aquelas que se deprimem frente aos golpes da vida dentro do passar da vida. Assim como acontece com o envelhecimento, em que há o desinvestimento corporal e psíquico diante das perdas da vida, tanto no nível interpessoal, como corporal. O corpo que era vigorante outrora, agora já não é mais. A mente que era ativa, já não tem mais as mesmas capacidades de reflexão e reflexo.
E é importante pontuar essa condição, mesmo frente as inúmeras cirurgias, Botox que tenham surgido como forma de evitar os efeitos da velhice. As aparentes soluções estéticas. Mas que não nos livram da realidade da velhice, que durante muito tempo foi negada, escrachada e ainda hoje é mal vista, pois o tempo em que vigora e força da juventude, já não tem mais valor. E como vivemos em uma cultura mundial em que o maior valor é constituído de aparências, a falta das mesmas causa as condições da depressão.
Porém, isso não é uma necessidade, poi também ocorre de acordo com as capacidades e respostas que cada um da diante da vida e o passar do tempo. Sempre presente no externo, mas onipresente na questão psíquica em que revigoram todos os tempos psíquicos, da infância, juventude, idade adulta e agora a velhice, que se acolhe como um fardo ou como um tempo de sabedoria.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Feminicídio como patologia social e individual

A convivência entre si mesmo e o outro, é o papel principal no começo da vida. Dando base este começo para o que virá depois no convívio, na escola, entre amigos, no trabalho, na sociedade em geral. Como disse um importante psicanalista (Winnicott), Tudo começa em casa Sobre esta base mesmo, introjetamos o jeito de gostar, a escolha do tipo de pessoas com quem nos identificamos, mesmo que isso submeta a uma convivência caótica, pois como disse no começo do texto, é a partir dos primeiros objetos (pais) que temos em nós o modo de se relacionar, interpessoal.
Sobre esses princípios, inconscientes, cria-se uma personalidade, com padrões de comportamento, desejos e a relação com o mundo, com o qual também, acabamos escolhendo, aceitando nosso objeto de amor. Que de fato, muitas vezes é problemático. Ainda mais em uma sociedade que aparenta tudo estar bem, mas na verdade grita por socorro!
Ou talvez não, pois pode haver um prazer sob ameaça também. Entre morrer e ficar sozinho (a) é melhor morrer. Uma frase tanto consciente como inconsciente das mulheres que se tornam vítimas. Há um sintoma dentro da relação, um sofrimento implícito que mantêm o relacionamento de pé. Fora dele não há o reconhecimento do amor. O desejo se torna confuso, se sente a ameaça, se quer distância do agressor, mas também assim tá tudo bem. "Eu quero, mas também não quero, quero a coisa e o seu contrário!"
Outras vezes, se percebe a ameaça, se levantam as restrições judiciais, isso quando da tempo, pois as vezes a paixão foi mais forte e o encanto do amor acabou e a amada foi eliminada ...
Muitos são os problemas quando falamos de relacionamento, pois este é um modo de exercício muito fraturado, que mais vale pelo que você parece ser do que você é, mas cuidado, o príncipe pode ser um monstro!
Assim como a princesa também pode ser uma bruxa!
Quem se priva disso nos dias atuais?