Conforme Bleichmar
(2012), as formas de violência silenciosas se caracterizam pela ausência de
resposta e pela indiferença absoluta resultantes da dessubjetivação: “Primo
Levi, em um livro muito comovedor que se chama Se isto é um homem, conta que um dia via a raiva nos olhos de um
guarda do campo de concentração e se sentiu reumanizado” (2012, p. 63). São
ações inomináveis dirigidas ao outro sem que possuam
um por que ou um sentido, ou ainda, como no nazismo, explicadas e justificadas
pela burocracia do estado:
o nazismo inventou efetivamente um modo de criminalidade que perverte
não apenas a razão de Estado, como, mais ainda, a própria pulsão criminal, uma
vez que, em tal configuração, o crime é cometido em nome de uma norma
racionalizada e não enquanto expressão de uma transgressão ou de uma norma não
domesticada. (ROUDINESCO, 2007, p. 131).
Quando julgado em Jerusalém, Adolf Eichman não
demonstrava sinais de ser um perverso sexual, um psicopata ou um monstro, mas
sim sinais se uma assustadora normalidade;
era, portanto, pela manifestação de uma normalidade extrema que Eichman
encarnava a perversão sob sua forma mais abjeta: o gozo do mal, a ausência de
afeto, gestual automatizado, lógica implacável, culto do detalhe e do episódio
mais insignificante, capacidade inaudita de endossar os crimes mais odiosos
teatralizando-os para melhor exibir como o nazismo fizera dele uma criatura
monstruosa. (ROUDINESCO, 2007 p. 128).
Em suas tentativas de provar que era impune, afirmava ter cometido seus
atos simplesmente por obediência, e que não lhe importava o que sentiam os
judeus, nem como eram executados. Desejava apenas encontrar um meio de se
eximir da culpa, como no ato de se empenhar em devolver alguns judeus à
Palestina em comboios de trem sobre as quais era responsável. Mesmo confessando
as atrocidades que cometera ao enviar milhões de indivíduos para a câmera de
gás, atrevia-se a afirmar que se limitara a obedecer a ordens, negando ser
antissemita. Assim, “para o poder, a tortura é um instrumento
que serve para subjulgar o oponente. Seu objetivo é provocar a explosão das estruturas
arcaicas constitutivas do sujeito, isto é, destruir a articulação primária
entre o corpo e a linguagem” (VIÑAR, 1992, p. 73).
Eichman, enquanto
contava ao tribunal sua atitude para com os judeus, apontava seu desejo de lhes
dar terras firmes, apontando que muitas vezes os próprios judeus não aceitavam
isso, o que dificultava seu trabalho até a hora da solução final. Sua história
aponta distorções impressionantes, como a afirmativa de que estava interessado
numa relação pró-sionista e de que era apenas um aprendiz frente ao partido
nacional-socialista.
Isto é precisamente a
banalidade do mal: o fato que não há nem prazer algum, mas o mero exercício de
uma ação na qual o mal se produz de forma burocrática e onde a indiferença
define o universo do semelhante, pois
o que nos
impacta na solução final dos nazis é o nível aritmético-burocrático que tinha;
inclusive acaba de sair um livro impressionante chamado Auschwitz, onde uma das
coisas interessantes que conta é a formação dos integrantes da SS, para pensar
algumas formas de pedagogia negra. Os modos de formação eram os seguintes: se a
vitima manifesta sofrimento, era porque queria manipular a quem exercia o
castigo, com o qual, a maior nível de manifestação de sofrimento por parte da
vítima, maior ódio devia sentir seu torturador. Quem cedia ante o sofrimento da
vitima era considerado como alguém de espírito débil. [...] Isto se produz na
desumanização que se estabelece com o outro. (BLEICHMAR, 2011, p. 188).
O que mais impacta é a
ideia que sustenta que a vitima manipula o carrasco para evitar que este sinta sua
pena e assim não permita o surgimento de sentimentos éticos e morais. A ação não se concentra somente em demolir o
outro, mas na desarticulação do vínculo humano, sob a forma que Hanna Arendt chamou
de banalidade do mal:
o fato de que qualquer burocrata podia levar, durante a Segunda Guerra Mundial,
planilhas com números que controlavam e tornavam mais eficiente os planos de extermínio,
racionalizavam recursos, decidiam a forma da morte a partir de uma medição de
custos materiais e efeitos buscados. Não há que atuar necessariamente desejo de
destruição, agressividade, sadismo, crueldade, como formas subjetivas de
prazer. Simplesmente há uma falha na capacidade de reconhecer a significação da
ação -não seu sentido - , reconhecer o fato de que se estão destruindo seres
humanos em toda a dimensão moral que esta tem, de dar-se conta de que aquilo
que se destrói, se gaseia, se queima, se aniquila, é alguém, e não simplesmente
um numero em uma planilha. (BLEICHMAR,
2007 p. 38-39).
A sociedade sofre uma
transformação na qual as crianças e os jovens são deixados à deriva muito mais
do que outrora, fatigados pela ausência dos pais em razão de suas jornadas de
trabalho e das excessivas tarefas escolares que lhes são propostas, causando um
sentimento de abandono, já que tarefas excessivas não substituem a presença dos
pais. Conforme Bleichmar (2011), isto tem incrementado o surgimento de
estruturas perversas, onde a falta de gratificações e o imediatismo se somam
com as escassas perspectivas de futuro, num modelo de funcionamento sadomasoquista.
(2011, p. 110)
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