quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Psicopatia, uma forma de violência degradada e silenciosa

Conforme Bleichmar (2012), as formas de violência silenciosas se caracterizam pela ausência de resposta e pela indiferença absoluta resultantes da dessubjetivação: “Primo Levi, em um livro muito comovedor que se chama Se isto é um homem, conta que um dia via a raiva nos olhos de um guarda do campo de concentração e se sentiu reumanizado” (2012, p. 63). São ações inomináveis dirigidas ao outro sem que possuam um por que ou um sentido, ou ainda, como no nazismo, explicadas e justificadas pela burocracia do estado:

o nazismo inventou efetivamente um modo de criminalidade que perverte não apenas a razão de Estado, como, mais ainda, a própria pulsão criminal, uma vez que, em tal configuração, o crime é cometido em nome de uma norma racionalizada e não enquanto expressão de uma transgressão ou de uma norma não domesticada. (ROUDINESCO, 2007, p. 131).

Quando julgado em Jerusalém, Adolf Eichman não demonstrava sinais de ser um perverso sexual, um psicopata ou um monstro, mas sim sinais se uma assustadora normalidade;

era, portanto, pela manifestação de uma normalidade extrema que Eichman encarnava a perversão sob sua forma mais abjeta: o gozo do mal, a ausência de afeto, gestual automatizado, lógica implacável, culto do detalhe e do episódio mais insignificante, capacidade inaudita de endossar os crimes mais odiosos teatralizando-os para melhor exibir como o nazismo fizera dele uma criatura monstruosa. (ROUDINESCO, 2007 p. 128).

Em suas tentativas de provar que era impune, afirmava ter cometido seus atos simplesmente por obediência, e que não lhe importava o que sentiam os judeus, nem como eram executados. Desejava apenas encontrar um meio de se eximir da culpa, como no ato de se empenhar em devolver alguns judeus à Palestina em comboios de trem sobre as quais era responsável. Mesmo confessando as atrocidades que cometera ao enviar milhões de indivíduos para a câmera de gás, atrevia-se a afirmar que se limitara a obedecer a ordens, negando ser antissemita. Assim, “para o poder, a tortura é um instrumento que serve para subjulgar o oponente. Seu objetivo é provocar a explosão das estruturas arcaicas constitutivas do sujeito, isto é, destruir a articulação primária entre o corpo e a linguagem” (VIÑAR, 1992, p. 73).
Eichman, enquanto contava ao tribunal sua atitude para com os judeus, apontava seu desejo de lhes dar terras firmes, apontando que muitas vezes os próprios judeus não aceitavam isso, o que dificultava seu trabalho até a hora da solução final. Sua história aponta distorções impressionantes, como a afirmativa de que estava interessado numa relação pró-sionista e de que era apenas um aprendiz frente ao partido nacional-socialista.
Isto é precisamente a banalidade do mal: o fato que não há nem prazer algum, mas o mero exercício de uma ação na qual o mal se produz de forma burocrática e onde a indiferença define o universo do semelhante, pois

o que nos impacta na solução final dos nazis é o nível aritmético-burocrático que tinha; inclusive acaba de sair um livro impressionante chamado Auschwitz, onde uma das coisas interessantes que conta é a formação dos integrantes da SS, para pensar algumas formas de pedagogia negra. Os modos de formação eram os seguintes: se a vitima manifesta sofrimento, era porque queria manipular a quem exercia o castigo, com o qual, a maior nível de manifestação de sofrimento por parte da vítima, maior ódio devia sentir seu torturador. Quem cedia ante o sofrimento da vitima era considerado como alguém de espírito débil. [...] Isto se produz na desumanização que se estabelece com o outro. (BLEICHMAR, 2011, p. 188).

O que mais impacta é a ideia que sustenta que a vitima manipula o carrasco para evitar que este sinta sua pena e assim não permita o surgimento de sentimentos éticos e morais. A ação não se concentra somente em demolir o outro, mas na desarticulação do vínculo humano, sob a forma que Hanna Arendt chamou de banalidade do mal:

o fato de que qualquer burocrata podia levar, durante a Segunda Guerra Mundial, planilhas com números que controlavam e tornavam mais eficiente os planos de extermínio, racionalizavam recursos, decidiam a forma da morte a partir de uma medição de custos materiais e efeitos buscados. Não há que atuar necessariamente desejo de destruição, agressividade, sadismo, crueldade, como formas subjetivas de prazer. Simplesmente há uma falha na capacidade de reconhecer a significação da ação -não seu sentido - , reconhecer o fato de que se estão destruindo seres humanos em toda a dimensão moral que esta tem, de dar-se conta de que aquilo que se destrói, se gaseia, se queima, se aniquila, é alguém, e não simplesmente um numero em uma planilha.  (BLEICHMAR, 2007 p. 38-39).
               


A sociedade sofre uma transformação na qual as crianças e os jovens são deixados à deriva muito mais do que outrora, fatigados pela ausência dos pais em razão de suas jornadas de trabalho e das excessivas tarefas escolares que lhes são propostas, causando um sentimento de abandono, já que tarefas excessivas não substituem a presença dos pais. Conforme Bleichmar (2011), isto tem incrementado o surgimento de estruturas perversas, onde a falta de gratificações e o imediatismo se somam com as escassas perspectivas de futuro, num modelo de funcionamento sadomasoquista. (2011, p. 110)

Nenhum comentário:

Postar um comentário