Não é
fato novo pra ninguém que o homem contemporâneo se encontra
dessituado, como que sem rumo. Se no século passado se estava
preocupado com a culpa, neste novo século o problema esta situado
quanto a dificuldade de escolha e orientação quanto a si mesmo. No
entanto isso não é novidade do século XXI, pois o movimento que
deu início a isto, esta situado na revolução de maio de 68 onde se
questionaram todos os tipos de autoridade. Aqui podemos nos valer de
uma citação de Dostoiévski, quando diz que deus esta morto, logo
não há mais lei, ou melhor adaptando sua frase, depois de Deus, é
preciso inventar uma nova lei. Cito aqui esta colocação de
Dostoiévski devido a que isto situa muito bem a situação depois de
68, com a queda de todo o tipo de autoridade e o excesso de
liberdade, é preciso encontrar novos limites. E de fato aqui esta o
problema.
O que é interessante é ver como uma geração de
neuróticos que se quiserem livres tomaram finalmente o caminho do
álcool, ou da droga. Não acerdito que a vivência da droga para
esta geração tenha sido uma libertação, como um recurso para
esquecer a lógica mesma da dívida, portanto, a lógica mesmo que
acabaria impondo uma direção ao percurso. Não era tanto isso a
relação deles com o álcool e a droga. Justamente o recurso tão
fácil ao álcool e à droga não era nada mais do que uma metáfora
pobre do fato de que a sociedade tinha logrado uma abundância na
qual a relação mesma ao objeto parecia como uma relação fácil.
Aliás, este tipo de sonho só era possível naqueles anos, e talvez
só fosse possível nos Estados Unidos ou na Europa, nos países
capitalistas mais desenvolvidos. Os objetos estavam ali, não só nas
vitrines das lojas, mas inclusive caindo das margens da produção.
Então, essa relação fácil com o objeto é também uma relação
forçada, pois o acesso aos objetos é o ideal fálico mesmo.
(CALLIGARIS 2013, p.35)
Com o
fim dos limites, não há mais regra, “se há, é pros outros, pra
mim não”. No entanto tal pensamento já existia antes desta
revolução. Vimos se expressar sobremaneira na segunda guerra
mundial, onde os tratados de guerra que existiam já não existiam
mais. Se, se aplicasse pros outros beleza, mas pra mim não. Freud
ávido leitor tinha noção disso quando falava das questões da
civilização. Porém, não viveu para ver o fato nefasto e fúnebre
da segunda guerra mundial. E de fato vale situar isso, pois abre um
marco quanto a brutalidade e crueldade exercidas pelo ser humano, de
tal forma que muitos ainda se negam em falar sobre, mas liberdade
todos tem... Em outras palavras, não se quer pensar sobre. A melhor
coisa, ainda é o velho costume antes disso tudo, herdeiro do
iluminismo, o que se deve é tudo confessar e a ordem e harmonia das
coisas esta no perdão e nos modos em lidar com a culpa.
No
entanto, o foco dos problemas atuais esta longe disso, repetir estes
velhos modos, é como repetir os mesmos erros. O ideal hoje não se
encontra mais especificamente nos primeiros heróis, o ideal esta nos
diversos heróis e objetos de identificação da vida do sujeito. O
modelo não é mais do pai, mas sim do paiversão.
“Acompanhamos o surgimento, a cada esquina, de
neorreligiões que se propõem a dar respostas salvadoras às
angústias do momento, da mesma forma que a chuva de livros de
autoajuda inunda as livrarias de aeroportos e das estações de trem.
A tercerceira tendência é a medicalização da felicidade, é o
sonho cientificista de que para tudo há remédio. Em resumo, estamos
em um momento reacionário da volta de atitudes moralistas,
neorreligiosas e pseudocientificistas.” (FORBES, 2012, p. 134)
Bom,
você já deve ter se dado conta do quanto isso é confuso. E de fato
o é, pois também, como encontrar orientação, quando não se há
mais ideais a seguir? Quais são os limites? O que devo ser? Quem sou
eu?
“A globalização e a queda dos ideais e da ordem
paterna levam ao curto circuito da palavra, o que não é
necessariamente bom nem ruim. Como soluções para o melhor, temos
os esportes radicais e a música eletrônica. Para o pior os novos
sintomas são as doenças do curto circuito da palavra, tais como as
toxicomanias, a delinquência sem limites, o fracasso escolar e as
afecções psicossomáticas.”(FORBES, 2012, p. 137)
Ligado
as perguntas, de fato estão as questões da globalização e as
mudanças que ocorreram e vem ocorrendo no mundo como organização
social. É preciso as pensá-las, refletir sobre elas. E pode ser,
que de fato mesmo não tenhamos resposta e que a droga tenha se
tornado uma adição a nós para que possamos suportar o cotidiano.
Afinal de contas também, tudo bem, nos livros e filmes sempre há
gente que fuma e bebe. Os comerciais sobre também são sempre
influentes, dizem que podemos e devemos consumir. Então, cervejinha
no final de semana é o mínimo!
Não é
assim que as coisas acontecem?
Há um
movimento, que se massifica onde se propõe e se estabiliza a falta
de responsabilidades, falta de deveres, se há deveres são pros
outros, eu mereço o descanso necessário e a liberdade para agir,
beber e endoidar. Pelo menos no final de semana é preciso aliviar...
Pois é,
de fato é, mas isso não quer dizer que é normal, e também se foi
instituído como normal, ou como se prefere usar, modelo de
normatização, não quer dizer que é saudável e que sempre deve
ser assim. Pois também não é sempre que se é preciso de uma
droga, seja ela lícita, ou ilícita para que possa se divertir, ou
suportar o cotidiano. Isso também pode estar apontando um problema,
uma necessidade de ajuda.
“De uma maneira simples, diríamos que aquele que
negocia com o “pai” para chegar a uma satisfação possível é o
neurótico; quem despreza o “pai”, ocupando o seu lugar, fazendo
uma versão do “pai”, é o perverso; finalmente, quem não
consegue estabelecer uma articulação paterna é o psicótico. Hoje,
temos que ir além. Não basta definir o tipo clínico com base na
posição do sujeito em relação à função paterna. É preciso
considerar a singularidade da solução que um sujeito inventa, por
meio de seu sintoma, para dar conta de tudo aquilo que se apresenta
para lém do pai.” (FORBES, 2012, p. XXI)
Vale
considerar que quando aqui nos referimos a pai, além do pai, estamos
nos referindo a lei e a ordem, com as figuras familiares que dão
espaço a alteridade (reconhecimento do outro). E de fato, isso nos
coloca numa sinuca de bico devido a dificuldade de escolhas e falta
de representabilidade de heróis que enfrentamos depois de todos os
tipos de autoridade terem sido derrubados desde a revolução de maio
de 68.
De
fato isso também representa o rompimento da família tradicional,
parafraseando roudinesco, a família está em desordem. Depois da
queda do simbólico, onde família tinha sua simbologia, dentre as
demais, o sujeito encontra-se como que sem horizontes. Um assunto
difícil de se dizer encerrado, pois como dizem também os filósofos,
quanto mais nos aprofundamos num assunto, mais sabemos de, mais
também temos noção do quanto não sabemos ...
CALLIGARIS
C. Introdução a uma Clínica Diferencial das Psicoses. São Paulo:
Zagodoni, 2013.
FORBES J.
Inconsciente e Responsabilidade. São Paulo: Manole, 2012.