Se tornou normal em
nossa cultura achar culpados para tudo. Se algo não deu certo, ou
não está bem, há um culpado. Se há algo que não deu certo pra
mim, há um culpado, sentimento este que deu origem a algo muito de
nossa cultura, o ressentimento, sempre há um culpado pra tudo.
Sentimento este, que configura bem uma fala da peça de Sartre, entre
Quatro paredes, quando no inferno se diz que o inferno são os
outros.
No entanto, é
importante ponderar, que, o outro também é o céu, representa coisas
boas e não só más. O que nos coloca diante da questão de que tipo
de relações estabelecemos e como esperamos do outro. Algo muito
pessoal de cada um, pois há aqueles que acreditam no amor e
compreensão do outro, como aqueles que sempre estão desconfiados do
outro. Se ajuda, é de má vontade, “com certeza não é porque
gosta de mim. O que quer com isso?”
E de fato, também em
diferentes momentos, este outro pode ser céu e inferno. Uma questão
situacional. Porém, se esperarmos tudo do outro, nada fazemos para
nós mesmos, como se sempre dependessemos do outro e não pudessemos
ir ou construir algo por nós mesmos. Repito o termo mesmos, pois é
questão de si, que parece ter sido esvaziada. E não é comum
inclusive ouvir as pessoas falarem de seus vazios, como numa angústia
existencial, onde se é triste por existir?
Muito se escuta de
fato, diferentes queixas, mas não um pensamento construído que
busca significação diante da vida. Pode me objetar quanto a isso,
colocando que isso é algo de uma terapia, e de fato não irei
discordar. Mas terapia de toda forma precisa também de uma ajuda do
sujeito quanto a si mesmo e não se faz só no tempo da sessão, e
pensar sobre si, sem se deprimir ou sentir a chamada angústia do
existir é um ato que hoje parece ter que ter coragem, afinal de
contas, tudo tem parecido tão vazio e triste ….
Sim, sim, não deixa de
ser verdade, mas como se começa no texto falando a respeito do
outro, este não é só inferno, ele também é e pode ser céu. A
questão é como se lida com este outro dentro de si que sempre se
faz presente diante da figura de diferentes outros.