segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Perspectivas do fim de ano e começo de um novo ciclo

Todo ano traz suas retrospectivas, daquilo que foi bom e do que foi ruim. Querendo ou não, vivenciamos isso porque é o que nos enfiam na mídia. Uma vez era na Tv, rádios, hoje temos mais o facebook, que junto com as memórias do ano traz os memes. E justamente os memes trazem outra forma de comunicação e linguagem, a linguagem mimética, linguagem da imitação. Imitação justamente porque não se tem reflexão sobre, basta estar na onda do que vem por ai.
Mas entrando na linha do que tem surgido nos memes, isso se tornou tanto algo sério que reflete o temor das pessoas como uma piada, afinal 2016 foi um ano de diversas tragédias, mas mesmo assim, aqui fica uma questão de ponto de vista, alguns veem alguns eventos como traumáticos, outros não, questão de perspectiva.
O meme que tá rolando por ai por fim, é aquele do lugar onde não se é possível sair. A caverna do dragão, desenho que muitos adultos de hoje assistiram quando eram crianças, situação a qual lhes deixava na angústia da perspectiva que eles sairiam dali, mas ....
Nunca saiam.
A explicação depois de um tempo foi dada, acredito que a maioria das pessoas sabe qual é, então não me deterei no assunto.
A questão que fica, é a de que parece que não conseguimos sair de 2016, ano de tamanhas atrocidades a nível de país e de mundo. Tempo em que acidentes, calamidades não cessaram de acontecer. Acontecimentos que chocaram um país todo e comoveram o mundo.
No entanto, é uma questão de tempo, agora fim de ano, pressa, ansiedade em completar mais um ciclo e começar outro, de tal forma que provoca até que as pessoas percam o controle. Pra não o perder, cada um se prepara ao ano novo de alguma forma, alguns acreditam na questão da astrologia, numerologia, onde se garante que 2017 será um ano de conquistas. Mas aqui fica uma questão contraditória, como iniciar um ano de conquistas se não se pode sair de um ano de tragédias?
Uma questão da perspectiva de cada um e a responsabilidade sobre si mesmo, afinal de contas, o tempo é de cada um, uma questão muitas vezes mais de dentro que de fora.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Natal, um tempo diferente

Esta época do ano, nos provoca em nossa individualidade a busca da construção de um clima, uma festa e uma passagem, o que pode às vezes, nos apontar um problema, como fazer?
Para problemas, cada um acha sua solução e forma de enfrentar, mas tem uma que normalmente não se observa. A propaganda. Pode parecer estranho, mas ela dá informações preciosas. Quer saber do que os homens gostam? Consulte comerciais de cerveja. Produtos de limpeza como sabões, amaciantes, provocam a dona de casa que ainda se acredita existir em cada mulher. Boa parte das propagandas por fim informa um pouco do que gostam e são os homens e as mulheres. Há também as que falam da família ideal, as propagandas de margarina, onde toda a família unida, toma café da manhã junto. Fator estranho a nossa contemporaneidade.
E justamente neste fator de família unida, que nos provoca a propaganda, se insere o Natal e o Ano Novo. Tempo de reunir a família, trocar presentes e cear unidos, seja no Peru (Chester), Churrasco ou o modo que se escolhe nas famílias. O importante é estar unidos. No entanto, como em toda propaganda, não fala que, não são todos que gostam de Natal e Ano Novo.
Quer dizer, que essas festas apresentam antes um ideal construído como na propaganda, do que a realidade? Sim, porém, tais datas mantêm seu valor, pois em meio a correria do ano, a oportunidade de unir a família não se dá todo dia. É preciso um tempo para poder reunir. Não importa se a festa é chique ou não, mas sim a espontaneidade nos ali presentes. Seja entre familiares ou amigos, o que importa é poder estar junto com o outro sem encenação, por espontaneidade.
Como na propaganda, no entanto, não dá para se sustentar o Natal, pois não há famílias perfeitas. O filho constrói sua identidade, com o lado bom e também com as falhas dos pais. No casamento, os parceiros se mantem em busca incessante de tornar o amante parecido com a sua fantasia do amado (a) com quem se casaram. Para melhor situar, convívio entre diferentes gerações é difícil sustentar, a final, os filhos precisam também superar, se diferenciar dos pais para que possam crescer, existir. Valhamo-nos aqui de uma linguagem simbólica, pois também para que possamos existir é preciso respeitar e reconhecer na diferença. Assim como a diferença da vida real e da propaganda do Natal e Ano Novo, onde somente há felicidade e união, como se nada mais existisse aí.
Perdoamos a todos no Natal, mas nos esquecemos de perdoar nós mesmos, a vida, por ser tão diferente e não ser como no comercial, tudo perfeito. Perdemos a oportunidade para o término de um ano e começo de outro Feliz.
De toda forma, sabemos que há diferença entre a vida real, a propaganda e o ideal de ser humano e família. Assim, ao modo de cada um, vos desejo um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Conversando sobre o luto

Uma breve conversa sobre o luto e o fato que vivenciamos e sentimos nos últimos tempos.
O luto de fato vem como um fator surpresa, pois nos pega num de repente em nossa finitude. Nos liga a dor, pois é como se uma parte de nós morresse junto com aqueles que se foram. Muito foi dito, que a partir de então se seria diferente, se aproveitaria o que efetivamente tem valor e se deixaria o supérfluo de lado. Legal. Como assim legal? Pera aí que eu vou explicar. é efetivamente legal que se possa ter essa visão, mas de fato o luto passa e seguimos em nossas vidas cotidianas, com o nosso jeito, e é justamente nesse nosso jeito que se agregam elementos a partir do fato ocorrido, o factual.
Agregamos em nós diferentes elementos por aprendizagem com o ocorrido, mas o que aprendemos com o fato do time de Chapecó?
As primeiras impressões de fato se relacionam ao respeito de um time, um elenco que por sua história se torna imortal, um termo que caiu e cai bem a esse time e o modo como chegou onde chegou, mas e nós e a nossa própria história, o modo como somos junto com esse time?
De fato, eles foram, não voltam mais, mas e mais uma vez, e nós?
Nós, ao modo de cada um, aprendemos a lidar de forma diferente com os acontecimentos da vida a partir do modo individual de cada um. Hipotetizar como é de um modo geral perde o foco da parte individual de cada um, pois se passa pelo justo modo como cada um viu, chorou, vivenciou e interpretou a situação. Faço questão de dizer aqui chorou, pois era difícil não chorar com o ocorrido, e isto justamente se liga ao fato da vivência individual junto ao ocorrido, que suscita elementos pessoais. Se você não chorou, tudo bem, talvez o fato não tenha lhe impactado nem lhe feito muita importância, mas é preciso poder observar o modo como se vive em comunidade, pois ninguém existe sozinho, a não ser que não queira o contato com os outros por diversas circunstâncias, mas ai o problema já é outro e se liga justamente a vivência do luto pessoal durante o desenvolvimento, aonde foi preciso modos de prazer e funcionamento abandonar, mas se aí também não foi possível vivenciar? Bom, ai também é outra questão, pois se fosse dividir este texto, teríamos uma série de elementos e assuntos para serem pautados, mas aí é questão de outra oportunidade. Por hora basta relacionar que o luto propicia além de uma perda, uma vivência, vivência na dor que nos permite poder tocar e formular diferentes elementos e situações.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A relação com a perda

A perda de fato faz parte de nossas vidas desde tenra idade, onde aos poucos abandonamos modos de satisfação e estágios em troca de novos, no entanto, sempre fica algo relacionado ao que abandonamos ou perdemos, uma questão de como conseguimos lidar com a perda desde cedo relacionado a coisas que nos traziam prazer, como o seio, chupar o dedo, mamadeira, dentre outros.
Quando crescemos as coisas se complexizam, o jeito de lidarmos com a perca não está mais relacionada aos mesmo objetos, mas mantêm a relação do jeito com que perdemos ou abandonamos algo, relacionado isto tanto a relacionamentos, vida profissional e também como vemos a cada pleito eleitoral, as eleições.
A perda está sempre relacionada com questões de intensidades, como quanto mais era amado, querido ou investido o objeto que se perdeu maior a perda. Que o digam aqueles que já sofreram a perda de um filho ou dos pais. Cito esta perda, pois se relaciona a nossa mais profundo elo, presente desde o começo como cuidador ou objeto de cuidado, como no caso dos filhos onde os pais depositam neles seu amor, expectativas, anseios.
No entanto, a perda não se limita apenas a isso, ela se relaciona a cada abandono ou desinvestimento, desidealização que fizemos, desde o término de um relacionamento, abandono de uma prática ou vício, como a perda de idealização por uma figura pública, literária … Uma perca ou abandono de algo que provocava prazer e em algum sentido se torna desprazeroso, seja no tocante a saúde, função social como no caso de relacionamentos onde há questões pessoais divididas a dois ou quando há idealização de uma figura e aos poucos se deixa de idealizar por esta não preencher mais os requisitos de sua idealização, seja por descobrir algo deste que até então não sabia ou pela perca de um pleito eleitoral, significando um desinvestimento na figura por perda de valor desta.
E é justamente neste ponto onde se ligam as perdas, sua perda de valor e interesse. No entanto, vale salientar também que nem toda perca é uma escolha, estas também nos pegam de surpresa, seja na perca de um ente querido, término de relacionamento, ou mesmo naquilo que nossos pais fizeram que nós abandonassemos quando eramos crianças e que de fato nos era prazeroso, no entanto não podiamos ficar parados ali. De forma que não nos lembramos de tais fatos e quando vemos nos filhos achamos estranho, é algo como um ganho de realidade e sentido do mundo agregado introduzido pelos pais. No entanto, as percas também se relacionam com o traumático onde não foram estabelecidas relações satisfatórias, principalmente no que diz respeito propriamente a relações, sendo os pais são os primeiros representantes.

Quem não acha estranho o fim de um relacionamento? Achamos estranho, enfrentamos com pesar justamente pela perda ou retirada do investimento num outro, cada um enfrenta a sua forma devido aos modos primários de relação que estabelecemos com o outro e o valor de si que cada um carrega consigo. 

sábado, 10 de setembro de 2016

A pressa é inimiga da percepção


Quando escrevo, ou busco reflexões, gosto de exemplos literários ou cinematográficos, pois estes nos permitem pensar em nós a partir da expressão de fora. Neste mesmo sentido, cito o gato da Alice, a Alice do País das maravilhas, onde acompanhamos um ser hiperativo, apressado, assim como nós em nosso cotidiano, onde acabamos confundindo nossa percepção por causa da pressa. Assim por fim, tem se traçado nosso cotidiano, dos horários e compromissos marcados, onde acordamos apressados e dormimos cansados. Com uma necessidade de alcançar ou realizar tudo, pensamos em tudo, menos em nós mesmos.
Como diz uma música do Black Sabath, Killing yourself to life, morremos para viver, para sobreviver e garantir o pão de cada dia nos perdemos de nós. Frases ditas não são ditas, sentimentos não são expressos …
 Aquele que anda devagar, para pra conversar, ver e ouvir é considerado desocupado. Quantas belezas perdemos de ver e escutar devido a essa mesquinhez do tempo e dos sentidos em que vivemos?
Como se diz em Italiano, siamo chi siamo, Quem somos, ou melhor quem nos tornamos, o que perdemos a esse modo em que vivemos?

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Depressão, uma questão que precisa de cuidado.

Olá, obrigado por ter visitado este link. Talvez você pense pelo título que é um texto, pode ser que sim, mas é mais uma conversa. Uma conversa sobre a depressão, sua estranha manifestação cíclica e o engano do suposto bem estar. Digo engano, pois o sujeito se firma em pequenos momentos, onde como toda maré alta, depois do tempo violento das revoltas do mar, há a calmaria. Porém, é importante ressaltar, que mesmo o mar depois de toda calmaria é previsto uma nova revolta. Esse fator nos é útil, pois ressalta alguns aspectos da depressão, que semelhante aos movimentos do mar, na calmaria tudo parece bem, mas não se sabe quando será a próxima recaída. Pequenos eventos ou acontecimentos podem a provocar. O sujeito acredita que estando em movimento, não se isolando poderá resolver seus problemas, se livrar do sofrimento, mas ledo engano!
O problema permanece real, de forma que às vezes o sujeito o nega de forma muito abrupta, como se tudo estivesse bem, realizando compras, satisfazendo desejos que normalmente não colocaria em questão. Depois no entanto, vem as contas e o abatimento. A realidade impera outra vez.
Outra vez e outro dia, mas não é só desta forma, pois a depressão se caracteriza pela crença no desvalor quanto a si mesmo, no quanto prefere dormir, ou mesmo desmaiar às vezes, pois sair de onde está é perigoso, é preferível evitar a realidade e ficar na fantasia. Fantasia que retoma ao começo de nossa conversa, onde se crê que tá tudo bem, pois um momento de convívio social, de desprendimento de si, faz com que o sujeito possa se sentir bem. Que bom estes momentos, mas eles não devem deixar de lado a questão do necessário cuidado de si, muitas vezes estranho ao sujeito, pois como característica mesmo da doença, desiste de si.
Procurar uma terapia parece penoso, é demasiado ir até a terapia, que dirá lá sobre si falar, o que falar?

Uma questão que deve ser trabalhada, mas é preciso o primeiro passo, tenha coragem, marque a consulta, compareça.

domingo, 31 de julho de 2016

A vida comparada a ficção

Para que um assunto se torne comum dentro da cultura, precisa ele adquirir seu espaço, seja através de uma renovação de ideias, ou que seja algo para todos. Nesta perspectiva, Winnicott, escrevia para um público em geral, mãe e pais, professores, psiquiatras, pediatras, além da comunidade psicanalítica.
De fato, antes que ele fizesse isso, Freud também já havia feito algo parecido, ao escrever a própria teoria psicanalítica de uma forma que fosse de fácil compreensão. No entanto, a questão vai além da teoria, se estende a vida cotidiana, sonhos, atos falhos, sentimentos, afetos e desafetos, em outras palavras a condição de existir e o modo de cada um.

Para melhor descrever, acerca do mundo pessoal de cada um, vou me valer da ficção, ótimo material para se refletir sobre as questões das vivências pessoais, dando o direito a interpretação e fantasia de quem o lê.
Uma das grandes formas como o disse, são pelas estórias contadas e inventadas pela ficção, onde diante da tormenta é possível sair um pouco desta e adentrar no mundo da fantasia.Uma estória assim, bastante conhecida, foi Harry Potter, uma estória que ganhou um fenômeno mundial devido ao próprio tema que conta. Uma de uma história de um menino que cedo fica órfão, mas recebe todo apoio vindo de fora, o que lhe possibilita uma questão mais ampla do que o ambiente familiar. Vale aqui considerar uma novação de Laplanche na psicanálise, quando trata da antropologia fundamental, ou seja, não se necessita que o drama inicial seja contado a partir de um mito, como o de édipo, esse vale apenas como forma de descrição de algo que é contado. O que vale é a relação com o outro primordial, fonte segundo a clínica do futuro do vivente.
Nessa mesma perspectiva, vemos um garoto, que sofre por lembranças, ou poderiámos contrariar aqui por desejo, de um pai e uma mãe que ele gostaria de ter, mas nunca teve, além daquilo que lhe era contado. Este ponto, é importante para nos fixarmos, pois diz respeito a uma fantasia demasiado humana, vai além do mundo fantástico e mágico dos bruxos.
Comumente, este fenômeno aparece forte, quando o pequeno indivíduo começa a buscar sua própria identidade, ou seja, na adolescência, mas isso não exclui os tempos anteriores, onde se imagina algo além dos pais que se tem. No caso de Harry, uma família capitalista, consumista, um exemplo da família contemporânea, onde um filho é preferido ante o outro, tendo um, uma figura primária e outro secundária. Fenômeno este também presente nos meios comuns, afinal, como diria Winnicott, se, se tem 8 filhos, se tem, 8 tipos diferentes de mãe, pois esta cria e lida com cada um de forma diferente, de acordo com suas próprias questões pessoais.
Diante dessa relação, da cria com o outro humano, mãe, pai e depois sociedade em geral vemos a expressão de cada um de acordo com as suas experiências e o modo como cada um conta sua história e também como interpreta aquelas que lhe são apresentada, se é de um modo deveras intenso, ou algo raso, ou mesmo algo que pode ser bem vivido. Porém, para que seja bem vivido, é preciso que o sujeito conheça a si mesmo, para que o estranho dentro dele mesmo, que sempre foi parte dele, não o pegue de surpresa. Afinal, como conta a própria estória que aqui acompanhamos, a parte ruim, sempre tem uma surpresa mais cedo ou mais tarde, como acontece com os ataques de Valdemort, que muito bem poderíamos reconhecer como uma parte interior de Harry, daquilo que não foi possível uma inscrição em seu inconsciente, ou que ficou mal colocado.

terça-feira, 14 de junho de 2016

A Depressão na Atualidade

A depressão, tem se tornado um objeto de preocupação e tratamento, devido a perca de estima das pessoas quanto ao que elas conquistaram, não puderam conquistar, e aquilo que perderam por falta de iniciativa ou coragem, porém, quando se fala de sua gênese, se fala facilmente, que é multifatorial, o que desfoca o próprio sofrimento do sujeito, de tal forma que essa frase, parece funcionar como um imperativo nos sujeitos, pois quando procuram ajuda, está se refere apenas a receita de medicamentos, não querem falar sobre si, apenas reduzir esta estranha e enigmática sensação que os atormenta.
Quanto ao que lhes falha, como comprova a clínica, é o desejo que fica precário, pois o sujeito não consegue apossar-se do seu próprio, fica antes à deriva do que esperam dele os outros e não o que quer de si mesmo. Como que sem autoestima, pune a si mesmo pela sua incapacidade quanto ao agir.
Conforme Hornstein (2008) a auto estima provém do narcisismo infantil e das realizações conforme o ideal, onde perpassa-se uma história com sucessos, insucessos relacionados aos vínculos do sujeito e seus projetos, tanto individuais como coletivos, que desde o futuro alimentam o presente.
“Com tantos afluentes, o sentimento de estima de si é turbulento, instável. As experiências gratificantes ou frustrantes o fazem flutuar nas relações com os outros, a sensação (real ou fantasiada) de ser estimado ou rechaçado pelos demais;” (HORNSTEIN, p. 23, 2008) A auto estima, é sustentada pelo social, sendo que junto a esse o sujeito se apropria de enunciados.
Nessa trajetória, desde criança o sujeito frente a realidade, faz acordos, sendo que nas, relações familiares encontra um tipo de prazer, e na escola, com amigos outros. O sujeito se abre para o futuro, aceitando diferenças como se representa e como vai se tornando em direção ao futuro. “A auto estima resulta do entramado de reconhecimentos narcisistas e dos projetos compartilhados e compartilháveis.” (HORNSTEIN, p. 24, 2008).
O sujeito não se constitui sem narcisação, sendo investido e constituído pelas seus pais e as expectativas e elementos pessoais desses que desprendem de si no contato e cuidado com a criança. Disso por fim nascem também as formas de humor do viver do sujeito, em como ele se coloca em direção ao futuro e as marcas que ficam desde suas experiências primeiras e sua posterior simbolização. Tudo se perpassa no individuo por sua história e como ele se constituiu historicamente, em suas experiências e vínculos.
A depressão quando aparece, demonstra como uma perda do tônus vital, onde o sujeito perde o interesse, se vê empobrecido no desejo ao futuro. Tais sentimentos, estão vinculados a história do sujeito e seu modo de investir no mundo e fazer contratos com a realidade, seja em aspectos individuais ou coletivos. No entanto quando o sujeito se vê privado da narcisização (amor) do ambiente que o cerca, se vê desinvestido e sem valor, o que relacionado com a depressão, tira o brilho da vida do sujeito, pois a crítica que ele recebe, vem de dentro, como Freud (1914) fala sobre a melancolia, (que mais tarde iria a vir trabalha no superego) o sujeito incorpora o objeto perdido dentro de si. Nisso se institui a função ocupada pelo superego no indivíduo, instância responsável pela crítica, incorporação dos pais, e moralidade, ética do sujeito.

O depressivo fica como alguém punido por ele mesmo por não conseguir atingir as metas, qualquer falha se torna motivo para um forte rechaço. Claro que esse rechaço também faz parte da história do indivíduo e seu aparelho psíquico, pois tais fatos, se demonstram de forma individual em cada um.

Referências Bibliográficas:

HORNSTEIN, L. Depressão. São Paulo: Via Lettera, 2008.

quarta-feira, 9 de março de 2016

A depressão na clínica

Parafraseando Freud quando nos dispomos a formar uma opinião sobre a causação de um estado patológico, começamos por adotar o método anamnésico com o paciente e as pessoas que o cercam, a fim de descobrir sobre sua história os elementos que nos esclarecem seus sintomas e as possíveis origens da patologia. No entanto esse método, ainda se mostra como superficial, ocultando do paciente e do profissional que o investiga o cerne da questão.
Sob tais circunstâncias a psicanálise muito nos ensinou nas regras do tratamento analítico, como a que o paciente tudo diga que lhe vier à cabeça. Um método que se adapta conforme o tipo de pacientes que consultam o profissional. Gostaria de me deter aqui nas questões da depressão e os modos que esse se estrutura e o desafio que este representa a clínica e a ele mesmo.
O desencadeamento do estado depressivo, provocado pela perda daquilo que sustenta um sujeito o seu ideal do eu, tem como efeito, empregando as palavras de Freud, “uma perda no eu” ou “um empobrecimento da libido do eu.
A dor que sente aquele que está deprimido encontra seu argumento na autodepreciação, ou em seu derivativo, a auto acusação. Não há deprimido que não se sinta mal, e então mau, ruim, péssimo. O sentir-se bem não está muito longe do sentir-se bom, bom moço. O véu negro da depressão que sempre se encontra na autodepreciação toma hoje as vestes da baixa autoestima.
Essa perda, se caracteriza pelos vazios deixados dentro do sujeito, espaços em branco, marca vazia do tempo que não marca registro, nem sentido. A relação com o outro é fugaz, passageira, rápido lhe atende, mas nada deixa.
O outro no começo de sua vida, exige pouco, quase nada do futuro deprimido. “Poupado pelo outro do tempo de espera (do objeto de satisfação), a vida psíquica do futuro depressivo se inaugura com uma aposta baixa: ele precisa fazer muito pouco, quase nada para que a mãe compareça.” (KEHL, 2009, p. 228) O que deixa as marcas de sua dificuldade e indisposição para as escolhas da vida, entre tudo ou nada, “tanto faz”, se é para arriscar, então ele fica com nada. Acredita que sempre haverá alguém que irá o socorrer, proteger e cobrir seus erros. O que podemos classificar como os benefícios secundários da depressão.
O outro materno, no caso dos depressivos, se apresenta como um adulto ansioso e hipersolícito, se precipita com frequência para atender a cria, antes mesmo que essa possa manifestar sua insatisfação. Basta uma pequena demonstração de choro que a mãe já se encontra na presença da cria para lhe saciar. Mesmo que não saiba o quê, nem as reais necessidades apresentadas.
Dessa condição, fica a origem da impotência do sujeito depressivo, na fantasia materna, que representa o bebê como incapaz de enfrentar o menor tipo de desprazer e de esperar pelos tempos de espera e de vazio, representados pela onipotência da mãe que acredita em si mesma como potente e adora imaginar-se como única capaz de satisfazer e atender o bebê. Nas palavras de Winnicott, poderíamos dizer que esta, é uma mãe, mais que suficientemente boa.
Essa impotência, acompanha o sujeito por toda a vida, porém, não decorrem do fato de se ter tentado atrair a atenção do outro, mas sim do fato de ele ter sido poupado demais da ausência do outro.
Do ponto de vista da entrada em análise ou terapia, quando estes procuram, a sua condição de fragilidade dos mecanismos de defesa facilita a sua depressividade, condição primeira de vida psíquica. Porém essa passagem da depressão a depressividade, demanda tempo. A fala dirigida ao analista, na clínica da depressão tem a função primeiro de tudo, de construir um lugar - de ordem mais temporal que espacial, onde o sujeito possa se instalar. Vale ressaltar, também aqui a diferença da clínica das depressões, pois as interpretações do analista, também ficam em outro lugar comparada a clínica das neuroses. Aqui a questão, não é tudo interpretar, nem só interpretar, é preciso antes construir o lugar do paciente. Podeis se perguntar como? E de fato, é uma pergunta pertinente, pois às vezes é preciso que se passe um bom tempo para que o paciente possa começar a produzir algo útil, e dentro disso, é comum se questionar se o analista, está mesmo fazendo seu trabalho ou aí está se produzindo conversa de comadre. Pode até ser que a conversa seja assim, no entanto a escuta é analítica. E é isso que faz a diferença.

Referência Bibliográfica:
KEHL R. M. O Tempo e o cão. A atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo 2009.


sábado, 20 de fevereiro de 2016

A terapia como uma experiência diferencial

A crise na economia, nos afeta de forma deveras impactante, no entanto isso reflete o maior prejuízo da economia interna, não somente da externa. Isso tem nos impactado de tal forma, que se tornou comum o aumento da violência, o desespero e situações de desamparo. Porém aqui vale refletir a necessidade de pensar além, sair de si, pois se há corte nesse momento necessário, é no superficial e não no essencial. O melhor investimento que se tem, é em si, pois somente assim passamos pela crise da economia, mas mais uma vez vale salientar que a primeira economia a se cuidar é da interna.
Neste processo, ao cuidar de sua economia, o sujeito entra em terapia, traz a sua demanda para que um outro, (o analista) lhe escute e o ajude quanto aquilo que ele apresenta. No entanto, malemal sabe o sujeito, que essa demanda que lhe traz a terapia pouco diz ainda sobre si, aquilo que ele acredita que é o problema, é apenas uma parte, não se resume a isso a questão.
Valhamo-nos aqui de Freud, quando este fala da memória, citando que essa é gravada de diversas formas e não única. É interessante aqui falar disso, pois foi a partir desse significado que Freud começou a dar mais base a sua teoria psicanalítica. Não somos únicos, somos vários.
Tal frase, pode gerar confusão, mas a expliquemos. A questão de sermos vários, está referida as diversas formas que agimos cotidianamente, seja nos jeitos comuns que conhecemos, como nos modos de se defender, que pouco sabemos que temos, nem pra que serve. E de fato, seria difícil poder dizer aqui um conceito geral para todos, pois aqui não há universalidade, aqui há uma questão de subjetividade, onde cada um constitui a sua perpassado pelo universal que é referente a cultura.
Faço questão de citar aqui as questões da subjetividade, pois a cultura exerce influências sobre a forma que essa se organiza também. Neste ponto, a cultura faz diferença no princípio de realidade, aquilo que é comum ou normal na época referida. Como exemplo podemos citar o tempo da segunda guerra, onde dar abrigo a um judeu era loucura, pois estava de acordo com o princípio que regia aquele tempo. Porém hoje, seria estranho não dar abrigo a um judeu, isso evocaria uma série de questões.
Neste justo ponto, se encaixam as questões da constituição da subjetividade que se constrói pela influência da cultura e o psíquico do sujeito, o qual temos como base de sustentação com aquilo que ele é, sua identidade, modos de defesa. Tais fatores, não podemos negar também, exercem influência naquilo que a sociedade define como normal ou doente, devido a manifestações de certos grupos e a vontade de outros.
Isso se exerce por uma questão de poder e influências daqueles que comandam as grandes instituições do mundo, como a medicina, desde sua origem social política e alguns de seus derivados, como a indústria farmacêutica, que ao mesmo tempo que nos graciou com um grande avanço, nos mantêm seus refens. Refens no sentido mais racional da palavra, pois nos reduz a um puro biologismo geneticista. Mas seria injusto a criticar separadamente, pois nesse fator, muito exercem influência, os médicos, psiquiatras, dentre outros.
E neste ponto mesmo, é preciso ponderar, pois como nos ensina a terapia, é possível fazer diferente, e pra isso, é preciso pensar um pouco mais. Como no começo do texto dizia, questões de problemas da economia, sempre se refletem primeiro na economia interna do sujeito, onde este através de sua percepção, recebe e constrói o mundo, pela sua crença, modo de enxergar e interpretar as coisas. Porém, a questão não se resume a isso, pois se não, reduziríamos tudo a uma simples questão da razão. E é justamente neste ponto que quero entrar, além da razão, pois estão não toma conta de tudo, apenas de uma parte, daquilo que pode se tornar consciente, logo ainda há muita coisa a dentro da qual poderíamos falar, mas para falar disso, também não podemos estabelecer um modelo geral, a conversa aqui fica diferente, se abre a uma nova experiência.

Das maiores experiências da vida, a que mais faz diferença é conhecer a si mesmo. Uma experiência inclusive que assusta muita gente. Como a água que assusta os gatos, onde malemal tocar faz saltar longe. Isso faz a diferença do motivo da consulta e o adentrar na análise, para olhar pra si é preciso se deixar molhar.