sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Psicopatia como fora de si e sem o registro do outro

Muito se discute sobre quais as origens da psicopatia e também muito se impressiona por sua frieza calculista e capacidade de leitura da realidade, no entanto a obscuridade do caso da psicopatia e seu teor destrutivo é mais humano que desumano.
Elisabeth Roudineso, foi muito feliz no título de seu livro A parte obscura de nós mesmos: a história dos perversos ao falar da perversão em sua história como algo obscuro que habita todo ser humano.
Os sobreviventes de Auschwitz diante da zona cinza, que era como eles chamavam o que havia lá, deram testemunha de tais atos depois de terem sido libertos do campo de concentração. Era impossível para eles esquecer aquilo, não conseguiam parar de falar e pensar sobre, mesmo que tivessem tomado outras ocupações em suas vidas.
No psicopata não há um projeto de mudança, de aprendizagem com o vivido, para eles há somente o prazer na transgressão da lei, não só como lei social, se não mais propriamente em términos éticos que lhes tem colocado respeito ao outro.
Uma das coisas que os caracteriza é a ausência de pudor no delito e na mentira. Não existem condições de se fazer transferências devido a que não tem objetos de amor constituídos. Metapsicologicamente o que é possível se observar é alguém que não estabelece transferência: no psicopata não há vestígios de uma psicose, nem alucinação nem delírio. (BLEICHMAR, 2011, p. 289).
Seus afetos aparecem na passagem ao ato, não o formulam como ódio; no entanto, suas ações também podem aparecer como um triunfo sobre o supereu, já que “não é o mesmo o arrebatamento de um objeto que assassinar brutalmente a alguém, nem se quer por medo, em alguns momentos por prazer. Então o prazer de matar esta ligado ao ódio, ao rancor, ao ressentimento.”(BLEICHMAR, 2011, p. 293). Não existe o prazer de matar sem ódio. As causas podem servir para entender, não para justificar. O problema está localizado, então, nas causas que produziram e o sujeito que o comete, pois nesse entremeio há a metabolização e transformação. Bleichmar afirma que

o problema é que esta localizado às vezes com o objeto equivocado. Em geral se exerce a ação de ódio contra o objeto que o produziu de origem, Não é o mesmo que o caso do sobrinho de Hugh-Hellmuth, a quem ela lhe tem feito realmente maldades espantosas, desde analisá-lo para manipula-lo para fazer viagens só, órfão, aos 6  anos em um trem; até que um dia a criança a mata a balaços. Aqui sim, se mato a essa mãe substituta que lhe fez tanto mal. Isso sim, da conta do ódio gerado pelo objeto que o produziu o dano. O que caracteriza a esses quadros é que quase nunca o dano é sobre o objeto que o produziu se não sobre outros. (BLEICHMAR, 2011, p. 294).

O que caracteriza esses sujeitos são as formas que vão tomando neles a sua representação, semelhante onde nisso se registram as questões de lei desde o ponto de vista do supereu, pois

se há algo que caracteriza o supereu é a impessoalidade, nem tanto responde ao imperativo categórico; se trata de uma lei taxativa, que não traz benefícios, se não que simplesmente pauta os limites da própria ação. Mas todavia, pauta os limites da própria ação em relação com o semelhante. “Não matarás”. O “não matarás” não é “evitarás matar para que não te matem”; o mandato é muito claro, é não matarás ao outro, ou “não desejarás a mulher do próximo.” (BLEICHMAR, 2011, p. 297).

Continuando com Bleichmar (2011, p. 301), é importante marcar as características impessoais em relação ao que não se faz, não se pode fazer ou não se deve fazer. A questão que interessa é o modo como se constitui a relação com o semelhante. “Uma vez que se inscreve a lei, cada sujeito a sente como própria e sua transgressão lhe faz sentir que é uma ofensa” (BLEICHMAR, 2011, p. 305), ou seja, o que a criança incorpora tem relação com amar ou ser amado, sendo que só pode amar a si a partir de ser amado pelo outro, uma vez que

nesta medida, então, se apresenta a relação com o ideal do eu, o sentir-se de acordo com as possibilidades que tem acerca de si mesmo e de ser amado pelo outro. Isso – creio – nos introduz diretamente no problema da psicopatia e da perversão. [...] Se não é por amor ao outro ou por amor a si mesmo, porque o sujeito renunciaria ao gozo, enquanto vergonha pelo exercício desse gozo? Nesse sentido, não é por amor a si mesmo em quanto a sentir-se parte do eu ideal, se não em quanto cumpre com certos requisitos que impõe ao ideal do eu a consciência moral. (BLEICHMAR, 2011, p. 305).

Neste sentido, o psicopata se relaciona com um triunfo sobre a lei onde há uma fusão do eu ideal com o ideal do eu, e se relaciona com premissas de ordem mais narcísica, como o triunfo sobre o supereu. No caso da perversão, “há algo da ordem da de um gozo na forma de dessubjetivação, que permite a apropriação de algo do outro” (BLEICHMAR, 2011, p. 306).
Não obstante, é preciso levar em consideração os modos de constituição desses quadros de acordo com a intromissão do outro, onde:

é necessário diferenciar o polimorfismo perverso das condições que podem conduzir a organizações perversas na infância e por suposto da estrutura clinica da perversão – no sentido que já na infância podem ser plasmados modos estruturais que vão a dar conta de como se vai articulando uma organização perversa. (BLEICHMAR, 2011, p.306).

Deve-se medir a forma de gozo e a localização amorosa para o objeto, pois nestas organizações se produz a impossibilidade de estabelecer um vínculo de amor com o objeto, uma relação de amor em términos de intersubjetivação.



quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Psicoterapia como saúde mental e bem estar

Comumente se costuma pensar, que psicoterapia e análise é pra louco ou para quem realmente esta mal. No entanto a psicologia e as ciências de saúde mental tem provado durante o tempo em sua prática que não. Fazer terapia é uma atitude de saúde mental útil tanto a nível pessoal como empresarial.
Nas terapias, onde objetiva-se a (cura), há uma melhora significativa em relação aos projetos de vida, liberdade interior, segurança pessoal, conhecimento de si, planejamento de futuro, novo planejamento de vida entre outros.
Muitas coisas de fato mudam em uma terapia, mas é difícil assinalar todas, pois também são casos individuais as mudanças em uma terapia individual. No entanto com base no questionamento da própria vida o sujeito tende a mudar de perspectiva quanto a si mesmo. Perceber que seus velhos modos já não servem mais e a necessidade de mudança, o levam a uma maior liberdade interior, ajudando no conhecimento de si mesmo e as dificuldades e muitas vezes auto-sabotamentos elaborados por si mesmo, sem se perceber.
Tal movimento, funciona como uma espiral no inconsciente do sujeito, onde a mesma história sendo contada pelo sujeito de diferentes formas traz diferentes elementos e auxiliam que junto as interpretações do terapeuta sejam quebrados certos modos de funcionamentos que atrapalhavam o sujeito (sintoma), que fazem parte de sua doença.
Mas podeis questionar, comecei o texto falando que terapia não era só para loucos ou quem fosse considerado doente. E é verdade mesmo, mas como fundamenta a psicanálise, o psiquismo é fundado pelo trauma, e todo trauma desenvolve uma doença psíquica. Durante muito tempo buscou-se postular o modelo mais próximo do normal, no entanto na área psi, não há o mais normal, mas sim o mais perto do saudável.
Diante dessa fundação do psiquismo e os modos que operam durante as primeiras fases e posteriores da vida, se formam diferentes tipos de mecanismos, alguns permanecendo por toda a vida e outros deixando sua atuação com o desenvolvimento. A maioria por fim persegue durante a vida, umas predominando sobre as outras conforme a vida do sujeito.
Os mecanismos de defesa e de funcionamento do sujeito por fim que mais perseguem são aqueles relativos a seu psiquismo e modo de funcionamento. No entanto isso não quer dizer que eles vão continuar sendo assim, pois é justamente isso que a terapia vem questionar e modificar, as fixações do sujeito e os restos do trauma, pois muito mais fica sobre o trauma o que foi sentido sobre este do que a cena. Isso quando algo disso fica registrado. Há traumas onde não há essa separação efetuada pelo recalque, se lembra perfeitamente da cena, mas não se tem ideia do sentimento que houve ali, ou se sabe do acontecido e não se lembra nem da cena nem de nada, apenas lhe vem a cabeça coisas relativas que se ligam a cena.
No entanto não é a cena e o trauma por fim o único centro, mas sim os efeitos desse e os elementos que estão desligados, sem sentido, necessitando de ligações substitutas e aquilo que nunca pode estar ali. Isso tanto vale para sujeitos individuais como para um grupo no caso de uma empresa ou um grupo terapêutico.
Os elementos que buscam por substitutos são os que dão suporte muitas vezes ao sintoma, nisso se vê nas empresas e na vida cotidiana em geral as projeções sobre outros de coisas ruins de si que se quer expulsar de si e os elementos identificatórios onde se busca por novas relações.
No entanto há também o que nunca houve no sujeito, seja por falhas ou pela própria origem do trauma que devido a energia psíquica que solicitou não permitiu novas formações.
Quanto a isso tudo por fim, uma terapia, análise ou consultoria sempre é uma opção em favor do sujeito para que sua vida possa melhorar. Se, se vai ao médico por saúde física, mesmo por precaução, optar por ir ao psicólogo também é uma atitude correta.

            

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Amor um sentimento aprendido

Junto com a modernidade, muitos dos conceitos e ideias que temos hoje surgiram. Desde a literatura, como forma ficcional de escrever e o amor como sentimento. De fato muitas coisas surgiram como novas diante do advento da modernidade, mas aqui nos ateremos ao surgimento do amor como sentimento e desejo do outro.
            Durante muito tempo se sustentou, e ainda vemos resquícios hoje, que o amor é louco, insano e algo do qual o quanto mais longe ficarmos melhor será. Tais conceitos também nasceram com a literatura e a forma trágica de alguns respeitáveis autores em falar sobre o amor, pois ele ainda assustava quanto a seus efeitos. Alguns sempre sustentaram que amor é algo que acontece, e não tem explicações. Uma boa forma de fugir de suas origens e manter-se distante de sua forma de se enamorar amar alguém.
            Primeiro somos amados para que depois amemos, não amamos nossos pais desde que nascemos, mas porque eles nos amam, aprendemos a amar e amamos eles também. Não há amor que não tenha sido aprendido de alguém, como que transmitido a nós, desde nossos pais, familiares, pares, amigos e o jeito que buscamos em nossa vida aprender sobre o amor.
            Amar é uma forma de se dar, e dar ao outro ele mesmo. Como tudo na vida, ninguém nasce sabendo, mas se aprende.
            Muitas pessoas se confundem por dizer logo amar enquanto seu par não toca nem no assunto e quando obrigado a entrar sempre sai pela tangente. Alguns conseguem amar, no entanto não são todos, alguns ainda precisam amar.
            Uns amam com grande intensidade, outros com média e também há os que não conseguem amar. Como demonstração disso surgem às formas de vínculo e formas vazias de se ficar com alguém, o jeito adolescentão de se mostrar o todo poderoso, daquele que não consegue admitir e nem construir sua própria identidade, dando margem a uma sociedade que não quer crescer.
            Nem em sentido de identidade, nem nas relações com seus pares. Ninguém é de ninguém, mas todo mundo é de todo mundo. Relações vazias e líquidas como disse Bauman. Escorre entre os dedos, nada se fixa, tudo se realiza como se fosse apenas mais uma experiência, mais uma forma de gozar. No entanto esse gozar aqui não é como aquele que se conhece no cotidiano, como prazer, esse gozo sinaliza a compulsão do sintoma, o prazer é mínimo, muito mais em conta esta a necessidade de continuar cometendo os mesmos atos, dos mesmos jeitos.
            Ficar com alguém, se apaixonar com alguém parece ser arriscado, pois ninguém sabe sobre o outro no primeiro contato, e o primeiro contato sempre se tenta que seja o melhor possível, para que se possa seduzir, é preciso encenar.

            Se distorce o que é amor, é como se ninguém mais soubesse, podeis ter aprendido ao longo da vida, mas diante das frustrações e desenganos durante essa história, perde as esperanças em um verdadeiro e recíproco amor de um par.

domingo, 18 de janeiro de 2015

As condições de humanização

“o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte originárias de todos os motivos morais.” (FREUD, p. 422, 1977)

O filhote humano dos primeiros tempos é capaz de dar conta somente de necessidades muito básicas, se faltarem certos elementos em seu organismo , o sistema transborda e desencadeia o choro. Esse choro é o modo natural pelo qual o sistema produz uma forma de alarme. O adulto cuidador entende o choro como uma mensagem, “nesse movimento é capaz de transformar um movimento natural em um enunciado que instaura a base de toda comunicação possível.” (BLEICHMAR, p.16, 2006)
A partir dessa intervenção, nunca mais o sistema atuará seguindo as vias naturais. Se instala o “plus” a mais vindo da excitação provocada pelo cuidador ao satisfazer as necessidades da criança e a excitação pela ingestão do alimento. Colocando em ato o que o torna humano desadaptado da natureza e as condições de reencontro a própria natureza e o caminho ficado pelo instinto.
Retira a criança do estado natural pelo amor dos pais e a humanização proporcionada pelo amor desses, amor desprendido de si e transmitido ao outro. Como coloca Silvia Bleichmar, “narcisismo transvazante”, amor de si transmitido ao outro.
Tem-se filhos para não se morrer de amor próprio, já que não existem razões práticas para a reprodução, salvo o desejo de transcendência.
“Como é impossível aprender a viver por ensaio e erro, porque ao primeiro erro se morreria, é o adulto quem se encarrega da construção de um principio de realidade que não esta determinado linearmente. Se as necessidades da criança são suas obrigações morais, nas ações que realiza reside tanto a expulsão da adaptação natural como os pré-requisitos de qualquer  “adaptação” à sociedade humana, que não pode instaurar-se sem que se dê à criança condições de uma intersubjetivação na qual se veja reconhecido como ser humano e possa encontrar na relação com o outro algo especificamente humano.” (BLEICHMAR, p. 29, 2006).
As respostas e recusas do adulto, frente à ação natural do choro e compreensão desse em sua mensagem são fatores de base para a humanização do sujeito e o reconhecimento do outro. Tais ações não podem constituir-se sem a base amorosa, onde o que impera é a linguagem da ternura.
Sándor Ferenczi em seu artigo, Confusão de língua entre os adultos e a criança, descreve que os pais precisam aprender a reconhecer, como os analistas o desejo nostálgico de libertação do amor opressivo dos pais, vindo das punições passionais e correções vinda destes pelo cuidado com a criança para que tomem um caráter de realidade. Com essas punições e correções se formam os traços psíquicos na criança, não há medida exata que possa definir até quando esta bom, isso depende do contato existente entre a criança e seus pais, as mensagens transmitidas e perpassadas dos pais a criança e como essa responde a partir de que o mundo vai tomando realidade, reconhecendo as diferenças entre si e o outro.
Questões familiares como transmissão de inconsciente a inconsciente, de pai pra filho
Quando nascemos e até que nos constituímos, não conhecemos o mundo, este nos é apresentado aos poucos em pequenas doses. Bom, pelo menos seria assim o certo, mas não é bem assim que acontece. A ambiguidade, a confusão, a falta de sentido, a falta de simbolização é resultado da própria ambiguidade passada ao sujeito pelos cuidadores. Você pode. Não, agora você não pode! Você só pode até certo ponto.
Você pode ir até o limite. Você precisa levar dinheiro para poder se divertir. Você só pode levar 70 reais, poupe!
 Tais proposições e muitas outras são ditas aos filhos pelos pais ou cuidadores durante toda a vida, desde que eles moram com estes, até que morem em sua própria casa. Há muito mais exemplos que isso, e talvez também nem todos esses sirvam, a questão que fica é o espaço vazio entre os ditos, sua ambivalência e muitas vezes falta de sentido.
Tudo ira depender por fim de como a criança ira receber os ditos, em como aquilo fara sentido nela, e se a falta de sentido é preenchida pelos pais ou algum outro evento da vida.

De toda forma, isso são demonstrações da complexidade do psiquismo humano, e que da forma a nossa vida futura.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Até onde a medicina pode nos ajudar

É de conhecimento geral das pessoas a necessidade dos médicos, e o quanto estes são úteis a nossa saúde. No entanto, nem todos sabem qual é o limite da condição dos médicos, até onde vai o seu conhecimento, até onde ele pode nos ajudar? Serve ele para todos os problemas?
            Antes de tocar nessas perguntas vou fazer um apanhado histórico com base em Foucault e O Nascimento da Clínica e História da Loucura. Tomo como base também um trabalho de discussão realizado por mim e alunos da medicina junto a um professor de filosofia.
Como é possível ver pela linha que Foucault discute em suas obras, a entrada da medicina no discurso como classificador da doença determina que a origem da clínica é também, a origem da normatização do homem. A medicina como ciência clínica surgiu sob a definição de que, devido ao seu momento histórico de grande desenvolvimento, auge do século XVIII, representa a pura correlação entre a experiência e a racionalidade.
Aqui é preciso um esclarecimento sobre os conceitos de Foucault, daquilo que ele nos coloca como normatização. Dentro de sua obra e seu modo de ler a história Foucault costuma fazer um apanhado sobre como surgiram as ideias que fundamentam o que há hoje. Em outras palavras, quando ele estabelece a normatização da clínica, esta se referindo ao modelo que deu origem a normatização do homem hoje. Trabalha isso também em outra de suas obras: O nascimento da biopolítica. Vale observar que tal fenômenos são os que dão origem ao modo operacionalizante da medicina, que desde o início do século XIX assinala sua originalidade, criticando seu passado, e se apresenta como medicina cientifica.
É necessário observar um movimento, que insiste em se repetir, que também foi organizador da medicina como ciência. A evolução das técnicas médicas somente se dedicou verdadeiramente a população no momento em que ela por inteiro era tratada como vítima de uma mazela monumental.
“Só poderia haver medicina das epidemias se acompanhadas de uma polícia: vigiar a instalação das minas e dos cemitérios, obter o maior número de vezes possível, a incineração dos cadáveres, em vez de sua inumação, controlar o comércio do pão, do vinho e da carne, regulamentar os matadouros, as tinturarias, proibir as habitações insalubres: seria necessário que depois de um estudo detalhado de todo o território se estabelecesse, para cada província, um regulamento de saúde para ser lido “na missa ou no sermão, todos os domingos e dias santos”.” (FOUCAULT, 2011, p. 26)
            A medicina não deve mais ser somente técnica e ter como modelo o homem doente, mas sim ter como modelo o homem saudável, “isto é, ao mesmo tempo uma experiência do homem não doente e uma definição do homem modelo.” (2011, p. 37) Com isso nasce junto por fim a normatização do homem, daquilo que ele deveria ser. Sob quais normas.
            Durante muito tempo como aborda Foucault dentro de História da Loucura, houve diferentes formas de tomar a origem das doenças, mudando estes conforme a evolução das experiências e conhecimento. Já se chegou a crer que as doenças eram transmitidas pelo ar, como de origem sanguínea. Disso surgiu o expurgo, que deu origem ao que hoje conhecemos como nível de sangue que da para tirar de uma pessoas. Mas para que se soubesse disso, muitos morreram na experiência biomédica. O horror e a inverdade dessas concepções, não ignora seus pontos de verdade, pois ainda há doenças que no contato se transmite pelo ar, assim como doenças do sangue e que se transmitem no sangue. Houve também outros métodos, como o banho gelado e a eletroterapia, que deu origem ao tratamento nos dias atuais da eletroconvulsoterapia, usado em casos de psicose ou esquizofrenia em busca da cura dessas.
            A ideia do sangue como transmissor e causador das doenças ainda permanece no imaginário cotidiano. Devido a isso também se aceita de bom grado a regressão a essa concepção da medicina genética que começa a dizer que todo tipo de patologia ou orientação que passa pelo psiquismo é uma predisposição genética. Difícil de acreditar, mas que acreditem é a ideia da biomedicina biopolítica que nos reduz ao puro orgânico, como se fossemos mortos vivos. Aqui alguns autores fazem uma comparação aos campos de concentração de Auschwitz e a biopolítica em seu extremo, onde os musulman (corpos vivos de espírito morto, sem vida nem cor)  eram o exemplo disso.
            Tais pontos nos fazem voltar às perguntas iniciais. Médico é preciso sim, pois todos temos organismo e um corpo anatomo orgânico. No entanto não nos reduzimos a isso, também temos subjetividade e um psiquismo. Há a união corpo e mente. Essa união foi visada primeiramente como teoria no cogito cartesiano “penso logo existo”, depois sendo redefinido como apontou Lacan por Freud. Com a descoberta do inconsciente por Freud, foi-se também desenvolvido junto com seu novo conhecimento psicanalítico a psiquiatria, até que a partir da década de 60 essa se torna-se uma ciência por se unir a medicina, que por muito tempo a negou e renegou. Tendo se juntado ao campo da medicina, a psiquiatria volta-se também ao orgânico em sua anatomo patologia. Disso vimos surgir também a psicologia positiva e as neurociências, sendo que a psicologia positiva, também é uma neurociência, seu interesse da mesma forma que esta, se concentra em que parte do cérebro acontecem os eventos psi e como formar sujeitos felizes.
            Desmembrar a orientação da psicologia positiva e das neurociências por fim exigiria um tratado, então deixemos isso de lado e nos voltemos ao tema do texto, até onde vai o médico, até onde seu conhecimento da conta do mal estar contemporâneo?
            Da conta até que seja algo do corpo em si como corpo em sua função orgânica, no entanto quando toca em questões de subjetividade e vida psíquica cai fora de sua alçada, o que se passa com o sujeito. Inclusive de saber indicar falando a linguagem psicológica como tal.


FOUCAULT M. O Nascimento da Clínica. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2011.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Imagem Corporal

A imagem do corpo é específica para cada um, está ligada ao sujeito e a sua história. É eminentemente inconsciente e esta ligada ao desenvolvimento psíquico com o sujeito, suas falhas e seus excessos, a falta de sentido e o excesso de excitação vindo do outro, sendo esse outro não só os pais, mas também a mídia, os amigos, a escola.
Diante desse entrelaçamento assistimos ao excesso de excitação vinda dos pais sustentada pelos efeitos e transformações da mídia e da cultura. A criança é super excitada, impulsiona a agir, mas ninguém lhe explica algo sobre. Nada sobre aquilo lhe é dito, deve fazer porque todos fazem e a maioria das pessoas acha legal.
Por mais que Freud já tenha advertido sobre a sexualidade infantil, ainda hoje parece que muitos se mantiveram surdos a isso, ou mesmo nunca ouviram falar sobre. Ainda acreditam que a criança não sofrerá influências da sexualidade nem da excitação desconhecida do outro endereçada a esta.
Quando somos constituídos psiquicamente, somos atravessados primeiramente pelos pais, primariamente pelo mãe. As primeiras ligações e percepções da cria são ligadas a mãe. No entanto isso não quer dizer que o pai não exista pra ela, nem que não receba mais nenhuma inscrição psíquica que não tenha vindo da mãe. Posterior a essa primeira fase, no reconhecimento do outro, reconhece primeiramente o pai e posteriormente o ciclo social.
Resumidamente sem explicar muito, desde crianças o que aprendemos vem de nossos pais, cultura (mídia entre outros), escola e meios sociais. Dentre essas a maior carga que recebemos vem dos pais, primeiros cuidadores, primeiros contatos da criança. Devido às mudanças também de nossa cultura atual, pode ser que sejam dois pais ou duas mães, ou dois pais, ou até avós que são os cuidadores. Mas levar para esses lados exigiria uma grande explicação, que no caso não cabe aos objetivos desse texto.
Nossa imagem corporal por fim se constitui desde a mais tenra inf6ancia, afinal como dizia Freud o eu antes de ser eu é eu-corpo. O corpo é quem primeiro é constituído na criança. A imagem de si está fundamentada principalmente nos tempos do narcisismo, primeiros tempos ou como diria Lacan, na fase do espelho, primeiro me vejo e não me reconheço, acho que sou apenas extensão daquele que me mostra no espelho, mas depois reconheço a diferença e sei que na imagem refletida há eu e um outro.
Toda época teve sua forma de ver o corpo, hoje o bem estar é o corpo magro, quase esquelético, essa é a exigência. No entanto as coisas parecem entrar em contradição quando vemos que o incentivo a que se coma, que se beba em demasia é nos passado todo dia. Nos seriados de Tv, filmes, é comum ver personagens onde há sempre uma cerveja na geladeira, nunca falta uma. Se puder toda vez quando houver a cena envolvendo a própria casa, a geladeira e a cerveja tem seu lugar garantido.
Também sabemos, que todo filme tem seu comercial que se faz de fundo em poucos segundos para alguma marca. Às vezes também nem se percebe, é preciso uma visão atenta para enxergar tal fenômeno.
Esses fenômenos e outros por fim, constituem e fazem parte da teoria e ideia que construímos como imagem de si. No entanto muitas vezes parece que não é de interesse nem da cultura, nem de nossos pais que tenhamos uma ideia de si, pois se formos contestadores de algo, de alguma ideia isso pode abalar as normas. Tudo nos é passado como se sempre estivessem cuidando de nós, desde o momento que acordamos até o momento que dormimos, e quando dormimos também. Para comprovar isso toda comunidade traz consigo seu mito e superstições que garantam o bem estar de sua população.
Frente a isso, essa ideia, fantasia construída sobre si parece ser cada vez mais pobre, elementos para que o sujeito pense, possa fantasiar parecem não ser mais necessários, sempre haverá alguém pensando, preocupado com você.
Essa é a ideia que vendem, mas não é verdade, se não formos nós responsáveis por nós mesmos estaremos entregues as piores coisas de si mesmo.
No entanto frente ao não pensamento sobre si e a ausência de capacidade fantasiosa, ou pequena, a angústia do sujeito não tem destino, seu destino cai no primeiro lugar, o corpo. Com isso vemos surgir às doenças psicossomáticas e a clínica do vazio.
Os tipos de doenças são várias, mas cada doença dependerá de como o sujeito se vê e suas condições psíquicas. “O sofrimento que não pode ser elaborado remete às mesmas condições em que vive o infans, a criança que ainda não adquiriu a fala, e não poder, por isso, traduzir suas vivências.” (ÁVILA, 2004, p. 171)
Aqui é preciso levar em consideração a história do sujeito frente a questão do incrito representável e do inscrito irrepresentável. Conforme (Bleichmar, 2011, p.155) no somático se passa algo que se inscreveu no sujeito, mas que não se suporta e que ao mesmo tempo é não simbolizável. O qual não quer dizer que o aparelho em seu conjunto não possa simbolizar. Ou seja, não há sujeito que não tenha psicossomáticas, pois é impossível que haja alguém que seja capaz de conter e transcrever tudo.
A primeira inscrição é no corpo, é senso percepção. Essas primeiras inscrições também fazem parte no sujeito e influenciam no seu modo de ser. Mas vale considerar aqui também, levando em conta o tema do texto, que nem todo que sofre no corpo sofre por psicossomática. Há também algo que fica evidente hoje nos casos de bulimia e anorexia.
Nos casos de bulimia, há uma tendência a se comer em excesso. Mas alguém se perguntou frente ao que isso acontece?
Tal fenômeno acontece diante da angústia e uma voracidade por parte do sujeito, pressa em comer, pressa em se sentir saciado. Ele tem pressa para não sentir o desamparo, então ele come.
Nos casos de anorexia, parece haver uma inversão, o sujeito (a) precisa colocar para fora tudo o que come, pois aquilo pode resultar num corpo mal formado. Aqui a imagem corporal fica em jogo, é preciso manter a imagem do ideal, no entanto o ideal parece nunca ter sido alcançado, sempre da pra fazer um pouquinho mais, mesmo quando alertam-lhe que está esquelético (a).
O corpo e a imagem corporal por fim, esta presente em todas as estruturas psíquicas, seja como imagem e expressão da doença, como em imagem de sedução e de poder como no caso dos perversos.
No começo da psicanálise e esse olhar para o corpo mais de perto, as responsáveis pelo tumulto eram as histéricas, conhecidas vulgarmente hoje, com as histéricas de Freud, mesmo que o estudo dessa veio antes de Freud, por parte de Charcot e Goodreck, mas foi Freud quem primeiro se interessou por escutá-las.
Frente a esse artificie de escuta, é possível observar tais manifestações, seja em nível de psicossomática ou qualquer outra estrutura clínica. O corpo é de fato pertencente e demonstrativo de todos. Ferenczi chama atenção quanto ao corpo, quando fala sobre o ato analítico, que seria o ato para que a intervenção feita fosse efetiva, pois o corpo também é forma de não pensar quando devemos pensar, também é forma de desviar atenção e energia.
O que se propõe de toda forma é uma ação frente ao paciente, independente se psicossomatizador ou que estrutura for, mantendo a integridade desse em busca de ajuda-lo a se pensar, e que possa tornar-se dono do próprio destino.


A arte como expressão da dor e inspiração do sujeito

Pouco antes de morrer Freud nos fala que: “É possível que a especialidade seja a projeção da extensão do aparelho psíquico. A psique é extensão, nada sabe acerca disso.” Nisso Freud já nos falava sobre algo da imagem corporal e sobre as expressões do psiquismo e o encontro do eu em si mesmo e no outro. Mas o outro que levaremos aqui em consideração como expressão e espacialidade de si mesmo é a obra.
Na obra de arte, há uma transposição de jeitos, daquilo que o sujeito esta fazendo e de como ele traça a figura, sendo que tais traços são correspondentes a sua impressão na obra. No seu jeito de fazer. Na música, quando há a criação de uma letra, há muito de quem cria nela, de um sentimento seu, expressão sua, ou expressão da cultura mesmo que este se situa ou em algum nível se identifica.
A obra de arte tem muitas expressões por fim, sempre dependendo o tipo de arte que se esta fazendo e quais seus fins para poder ver algo de quem a faz com algo de si imprimido ai.
No entanto o interessante é o que ele esta transmitindo em sua obra, do caráter humano ao inumano, daquilo que há em nós como do que negamos que faça parte de nós, por mais que mesmo assim tenha a sua parcela lá no fundo.
Um grande exemplo de obra de arte onde há expressão da dor, de alguém que goza, é o da estátua de Bernini em Roma, pois como diz Lacan sem eu seminário XX, basta que você olhe para ela para saber que esta gozando. Mas do que estaria ela gozando? É claro que o testemunho essencial dos místicos é justamente o de dizer que eles o experimentam, mas não sabem nada dele.
Essas ejaculações místicas, não são lorata, nem somente falação, é em suma o que se pode ler de melhor.
Tal imagem demonstra claramente o anjo penetrando a Santa enquanto este goza disso. Baseado nos relatos da santa por fim, que dizia que quando encontrava-se com o anjo, esse a penetrava com a flecha do amor de Deus, há a expressão de como fala Lacan das ejaculações Místicas.
Aqui vale considerar as questões psíquicas, o mandato para que se goze como também diz Lacan no mesmo seminário, vem do superego, instância moralizante e sádica, ambivalente em si mesmo. “Nada força ninguém a gozar, senão o superego. O superego é o imperativo do gozo – Goza!” (2008, p. 11)
No entanto o gozo não serve pra nada. Nele esta implicado a verdade do sujeito, verdade que nunca vem por inteiro. O gozo é um limite “só se interpela, só se evoca, só se suprema, só se elabora a partir de um semblante, de uma aparência”. (2008, p. 99) Vale considerar que, o gozo psicanalítico é diferente do gozo sexual. Ele aponta para a compulsão, a efeitos de descarga. Ou seja, ele se arma como algo em defesa e condição de sobrevivência do próprio sujeito. Aí é preciso levar em consideração a história do sujeito, suas vivências, para que se possa ter uma ideia porque foi assim.
Voltando então a impressão de si, os traçados e modos com que se expressa por fim na obra, a obra de arte em seu nível artístico de pintura, escrita ou mesmo lírica da música esta para o sujeito como o limite de si. Naquela obra, naquela espacialidade em sua frente, se moldam suas vivências e como falava Lacan, o sintoma travessa a fala, a escrita. Em suma, o sujeito atravessado por si mesmo em partes desconhecidas a si mesmo transcende-se na obra.
Por fim, pra encerrar quero evocar aqui uma grande figura brasileira, que revolucionou o teatro e modos de escrita, Nelson Rodrigues.
O interessante de Nelson, que deixava todos de bocas abertas, é porque ele falava de tudo, como se não tivesse pudor. Suas obras eram riquíssimas em conteúdos propriamente humanos. O desejo, a ambivalência das pessoas. Era como a expressão da vida privada em si.
Não é a toa que o nome de sua biografia se chama o anjo pornográfico, pois suas histórias como meu desejo é pecar álbum de família, casamento entre outros eram uma expressão clara. Mas não só dele eram claras evidências do jeito brasileiro de ser, do jeito da sociedade, jeito que ninguém falava pra ninguém. Podia ser que muitos soubessem, mas se sabiam, sabiam pra si, preferiam trocar aquelas histórias por outras histórias.
Nestes termos podemos dizer que Nelson chegava mais perto do caráter humano da vida privada, mas isso era de tradição de família, desde seu avo a seu pai e a seus irmãos na vida jornalística e as manchetes que chamavam a atenção de todos, pois despiam de todo segredo e a coisa estava ai dita com toda ficção jornalística pra que aquilo fosse sensacional.

Neste toque sensacionalista por fim em suas histórias colocava coisas de si, como imagina a história, como a achava mais linda. Desta forma por fim a expressão das artes vai de encontro com a dor, a sensação de si mesmo de quem a produz, seja esse pintor, escritor, ou seja qual for seu ofício.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Desamparo

Com o advento da modernidade, da civilização, também houve o advento do mal estar próprio ao seu tempo. No tempo de Freud o mal estar estava centrado nas histéricas, na não satisfação da pulsão como modo de vida em sociedade...
Em nosso tempo, algumas coisas se inverteram. Com o avanço da tecnologia, agora coisas que o homem nunca teve antes a sua disposição a não satisfação da pulsão se tornou um motivo para ser excluído. A ordem agora é: Goze! Goze a qualquer preço!
Conforme ADAMI (2014, p. 22), esse constante estimulo ao gozo carrega consigo um caráter mortífero, onde
Encontramo-nos num tempo que opera a serviço da barbárie, com constantemente estimulação do gozo – gozo mortífero – na medida em que comemos e consumimos desmesuradamente sem alcançar a satisfação e mantendo um constante ciclo de repetição. O que se propõe é uma constante infelicidade, forma cruel de exercício de poder. Como observa Freud em Considerações atuais sobre Guerra e Morte e Por que a Guerra?, podemos pôr fim a todo tipo de assassinatos numa guerra sangrenta seja com diversos tipos de instrumentos, como faca, guilhotina, arma de fogo, mas a crueldade seguirá sendo uma crueldade que pertence ao sujeito. Conforme Bleichmar, “um ser humano não pode constituir-se sem uma crueldade, ou digamos, sem os componentes mortíferos que acompanham o surgimento da pulsão” (2011, p. 112).

A isso se ligam a cultura do hedonismo e o masoquismo. Para não sentir o desamparo, se liga a um outro como objeto do gozo desse. Procura alguém que siga a ordem do senhor e do escravo, todo seu corpo é do senhor. Enquanto o masoquista procura um senhor, o perverso que se aproveita da situação, destrona e aniquila toda a subjetividade daquele que a ele se atrai.
“O sujeito perverso funciona como agenciador da pobreza erótica e simbólica na sociedade das massas, transformando a energia que ainda sobra aos pobres de espírito em potencial de violência.” (BIRMAN, 2009, p. 48). Para isso, oferece aos masoquistas o símbolo fálico a qual esses possam se colar.
Conforme o registro da experiência analítica (2009, p. 49) a subjetividade perversa é um dos destinos que conduz a individualidade à recusa da feminilidade e do desamparo, assim como o masoquismo.
Para que possa sustentar sua posição, e evitar a fragilidade e sua finitude para que possa se demonstrar auto-suficiente, tem horror a qualquer diferença. Por isso mesmo, para a exaltação do seu eu, é preciso que possa de maneira canibal realizar a predação do outro. Sempre que algum traço de qualquer outro demonstrar a diferença, se sentira ameaçado em seu ser. O que importa é que o perverso porta esse signo de aniquilamento para manter sua onipotência de maneira e forma arrogante.
Face a diferença no entanto o sujeito é deparado frente a angústia do real. “Pela angústia do real que o atravessa, o sujeito tem de inventar um estilo de existência pela singularidade e pela diferença.”(2009, p. 49) Quando o sujeito entra em contato com a diferença, seja em uma forma de funcionamento masoquista ou perversa, a angústia lhe parece muito forte. O desamparo se torna real, no entanto pra que se possa o superar é preciso a ida do sujeito a análise ou terapia para que possa suportar essa angústia de desamparo com a ajuda devida para sua melhora.

Não obstante sabemos que tais estruturas dificilmente reconhecem a necessidade de ajuda, e mesmo depois de conhecida tal necessidade dificilmente continuam por muito tempo indo à análise.

BIRMAN J. Mal estar na atualidade. Rio de Janeiro: civilização brasileira, 2009.
ADAMI A. Crueldade e Psicopatia. Artigo apresentado como conclusão de curso em psicologia UPF, 2014.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O que questiona a terapia? Qual a função de estar em terapia ou análise?

Diante do medo do desconhecido é histórico da humanidade criar meios para lidar com esses. Salve o medo também sobrevivemos, pois se não temêssemos nada e vivêssemos por ensaio e erro rapidamente sucumbiríamos.
Diferente dos animais diante dos efeitos da humanização criamos o medo, medo não nasce com ninguém. Criamos o medo e o desmisistificamos conforme crescemos.
Quando crianças tememos todos os lugares fechados ou escondidos, pois lá pode ter monstros. Depois de adulto entendemos que isso era coisa de nossa cabeça, mas mesmo assim ainda não entendemos coisas que são de nossa cabeça que continuam a nos assustar e provocar medo.
No entanto não só o medo alimenta nossa forma de ver o mundo e nossa forma auto teorisante de explica-lo. Alimentados pela crença, sustentamos desejos, sonhos, compulsões. O número de certezas, questionamentos faz parte de cada um. Em uns ela reveste-se de suspeita, em outras se sente completamente suspeita. Mas não há quem sustente a crença e as certezas toda vida.
A análise vem questionar a crença e propõe alternativas ao paciente. que o levam do vazio representacional a novas representações, acompanha o sujeito em seu drama.
Por isso é dolorído, pois não há uma exata respostas ou exato conselho. Há pensamento!
Estar, entrar em análise, é colocar em trânsito elementos da própria história, com o objetivo de a interpretar e dar sentido a coisas soltas que buscavam se repetir pelo sintoma, como a sombra do próprio sujeito.
Na interpretação analítica nos encontramos diante do passado histórico, ressignificando nossa presença atual. Mais ou menos como a lançadeira do tear que vai e vem, para trás e para frente, permitindo que a trama se faça no meio, é fabricação transtemporal incessante.

Conforme HERRMANN (2001, p. 189) atrás há os restos fantasmáticos do caminhar da sombra, que representa o passado que segue e persegue. Na frente esta a iluminação dos sentidos potenciais, o poste e sua lâmpada.
Não é a patologia o foco de uma terapia ou análise, mas sim a compulsão que insiste em repetir velhos traços, sobre parecidos moldes para que mantenha-se o sintoma e aquele modo de vida.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Felicidade como gozo do sujeito


Em 1908 Freud escreve A Moral sexual civilizatória como expressão dos costumes de sua época. Em 1932 modifica e complementa suas ideias em O Mal estar na Civilização. Fala do mal estar como a negação da satisfação da satisfação da pulsão para viver em sociedade. Derrida em um seminário em 2002 para psicanalistas O estado de ânimo da psicanálise fala das diferenças culturais de hoje, onde a moral construída esta centrada na crueldade, ou como falam os lacanianos, gozar a qualquer preço.
Tais demonstrações sempre estiveram ligadas ao superego e a sua ambiguidade moral (ética) e pulsional sádica. Em nossos tempos, frente ao afrouxamento dos ideais e o desencantamento do mundo, encontramo-nos numa situação, onde o que se deve aproveitar é o momento. Goze...
Não admira que na última década tenha surgido como disciplina científica autônoma a felicidade. “Hoje há professores de felicidade nas universidades, institutos de qualidade de vida, vinculados a elas e numerosos artigos de pesquisas sobre o assunto;”. (ZIZEK, 2011 p. 63)
            O editor chefe da revista sobre os estudos da felicidade, argumenta que “Agora podemos mostrar quais os comportamento são arriscados no que diz respeito à felicidade, da mesma maneira que a pesquisa médica nos mostrou o que faz mal à saúde. Finalmente seremos capazes de mostrar que tipo de estilo de vida combina com que tipo de pessoa.”(ZIZEK, 2011 p. 63)
            Essa nova disciplina tem dois ramos, de um lado há uma abordagem mais sociológica, com bases em dados coletados em centenas de pesquisas, que medem a felicidade em diferentes culturas, profissões, religiões, grupos sociais e econômicos. De outro lado há uma abordagem mais psicológica (ou melhor neurocientífica) , que combina a pesquisa científica cognitivista com incursões ocasionais pela sabedoria midiativa new age. A medição exata dos processos cerebrais que acompanham as sensações de felicidade, satisfação, etc.
            Essa nova pesquisa científica, parece operar uma torção ética, oferecendo-se sobre o disfarce como pesquisa para que surja uma nova moralidade, que ficamos tentados a chamar de biomaralidade.
            No entanto essa biomoralidade traz também implícita em si a tortura como prevenção do sofrimento. Como o sofrimento causado para que se evite sofrer depois. Traz implícito em si a ilusão ética, paralela às ilusões perceptuais.
            Como expressão dessas práticas, Sam Harris explicita em seu livro A Morte da Fé a pílula da verdade, onde dada essa ao terrorista ele dormiria e depois contaria tudo até o fim. O que nos lembra o evento de Serbsky na União Soviética Comunista no tempo da segunda guerra mundial, onde se dava uma droga desenvolvida por psiquiatras ao prisioneiro para o torturar para que ele falasse a verdade.
             A tortura se tornou o paradigma da contemporaneidade, tanto nos casos da pílula da verdade, como nos casos do cotidiano e da felicidade a qualquer custo. Você não só não deve se dizer infeliz, como não deve. Aqueles que declaram sua infelicidade são tachados como perdedores, excluídos. São excluídos dos grupos sociais e do convívio com os de mais. Nem mais no trabalho eles frequentam. São evitados. Eis o caso dos depressivos.
         No caso dos depressivos, há uma construção nosológica que vem aumentado seus quadros, dimensões e abrangência conforme se passam os anos conforme tem indicado a clínica.
            A depressão é apontada por uns como mal do século, por outros como característica de pessoas com falta de vontade. Tem se tornado um quadro confuso, pois agora ninguém pode sentir tristeza, nem um desânimo. Se chegar a falar disso para o médico, receberá anti depressivos.
            Incentivados aos atos, entregues as compulsões, parece não ter mais com quem conversar, mas a final, porque conversar com alguém se o que se deve é aproveitar o momento e ser feliz?
            Tais práticas tem incentivado a patologização e medicação da vida cotidiana, reduzidos a biopolítica em estado avançado.
            

ZIZEK S. Em defesa das causas perdidas. Rio de Janeiro: Boitempo, 2011.

DERRIDA, J. Estados de ánimo del psicoanálisis. Buenos Aires: Paidós, 2000.

FREUD S. O Mal estar na civilização. In: Obras completas de Sigmund Freud, v. 21. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

_____.  Moral sexual civilizada e doença moderna. In: Obras completas de Sigmund Freud, v. 9. Imago: Rio de Janeiro: 2006. p. 167-186.