domingo, 18 de janeiro de 2015

As condições de humanização

“o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte originárias de todos os motivos morais.” (FREUD, p. 422, 1977)

O filhote humano dos primeiros tempos é capaz de dar conta somente de necessidades muito básicas, se faltarem certos elementos em seu organismo , o sistema transborda e desencadeia o choro. Esse choro é o modo natural pelo qual o sistema produz uma forma de alarme. O adulto cuidador entende o choro como uma mensagem, “nesse movimento é capaz de transformar um movimento natural em um enunciado que instaura a base de toda comunicação possível.” (BLEICHMAR, p.16, 2006)
A partir dessa intervenção, nunca mais o sistema atuará seguindo as vias naturais. Se instala o “plus” a mais vindo da excitação provocada pelo cuidador ao satisfazer as necessidades da criança e a excitação pela ingestão do alimento. Colocando em ato o que o torna humano desadaptado da natureza e as condições de reencontro a própria natureza e o caminho ficado pelo instinto.
Retira a criança do estado natural pelo amor dos pais e a humanização proporcionada pelo amor desses, amor desprendido de si e transmitido ao outro. Como coloca Silvia Bleichmar, “narcisismo transvazante”, amor de si transmitido ao outro.
Tem-se filhos para não se morrer de amor próprio, já que não existem razões práticas para a reprodução, salvo o desejo de transcendência.
“Como é impossível aprender a viver por ensaio e erro, porque ao primeiro erro se morreria, é o adulto quem se encarrega da construção de um principio de realidade que não esta determinado linearmente. Se as necessidades da criança são suas obrigações morais, nas ações que realiza reside tanto a expulsão da adaptação natural como os pré-requisitos de qualquer  “adaptação” à sociedade humana, que não pode instaurar-se sem que se dê à criança condições de uma intersubjetivação na qual se veja reconhecido como ser humano e possa encontrar na relação com o outro algo especificamente humano.” (BLEICHMAR, p. 29, 2006).
As respostas e recusas do adulto, frente à ação natural do choro e compreensão desse em sua mensagem são fatores de base para a humanização do sujeito e o reconhecimento do outro. Tais ações não podem constituir-se sem a base amorosa, onde o que impera é a linguagem da ternura.
Sándor Ferenczi em seu artigo, Confusão de língua entre os adultos e a criança, descreve que os pais precisam aprender a reconhecer, como os analistas o desejo nostálgico de libertação do amor opressivo dos pais, vindo das punições passionais e correções vinda destes pelo cuidado com a criança para que tomem um caráter de realidade. Com essas punições e correções se formam os traços psíquicos na criança, não há medida exata que possa definir até quando esta bom, isso depende do contato existente entre a criança e seus pais, as mensagens transmitidas e perpassadas dos pais a criança e como essa responde a partir de que o mundo vai tomando realidade, reconhecendo as diferenças entre si e o outro.
Questões familiares como transmissão de inconsciente a inconsciente, de pai pra filho
Quando nascemos e até que nos constituímos, não conhecemos o mundo, este nos é apresentado aos poucos em pequenas doses. Bom, pelo menos seria assim o certo, mas não é bem assim que acontece. A ambiguidade, a confusão, a falta de sentido, a falta de simbolização é resultado da própria ambiguidade passada ao sujeito pelos cuidadores. Você pode. Não, agora você não pode! Você só pode até certo ponto.
Você pode ir até o limite. Você precisa levar dinheiro para poder se divertir. Você só pode levar 70 reais, poupe!
 Tais proposições e muitas outras são ditas aos filhos pelos pais ou cuidadores durante toda a vida, desde que eles moram com estes, até que morem em sua própria casa. Há muito mais exemplos que isso, e talvez também nem todos esses sirvam, a questão que fica é o espaço vazio entre os ditos, sua ambivalência e muitas vezes falta de sentido.
Tudo ira depender por fim de como a criança ira receber os ditos, em como aquilo fara sentido nela, e se a falta de sentido é preenchida pelos pais ou algum outro evento da vida.

De toda forma, isso são demonstrações da complexidade do psiquismo humano, e que da forma a nossa vida futura.

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