terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A arte como expressão da dor e inspiração do sujeito

Pouco antes de morrer Freud nos fala que: “É possível que a especialidade seja a projeção da extensão do aparelho psíquico. A psique é extensão, nada sabe acerca disso.” Nisso Freud já nos falava sobre algo da imagem corporal e sobre as expressões do psiquismo e o encontro do eu em si mesmo e no outro. Mas o outro que levaremos aqui em consideração como expressão e espacialidade de si mesmo é a obra.
Na obra de arte, há uma transposição de jeitos, daquilo que o sujeito esta fazendo e de como ele traça a figura, sendo que tais traços são correspondentes a sua impressão na obra. No seu jeito de fazer. Na música, quando há a criação de uma letra, há muito de quem cria nela, de um sentimento seu, expressão sua, ou expressão da cultura mesmo que este se situa ou em algum nível se identifica.
A obra de arte tem muitas expressões por fim, sempre dependendo o tipo de arte que se esta fazendo e quais seus fins para poder ver algo de quem a faz com algo de si imprimido ai.
No entanto o interessante é o que ele esta transmitindo em sua obra, do caráter humano ao inumano, daquilo que há em nós como do que negamos que faça parte de nós, por mais que mesmo assim tenha a sua parcela lá no fundo.
Um grande exemplo de obra de arte onde há expressão da dor, de alguém que goza, é o da estátua de Bernini em Roma, pois como diz Lacan sem eu seminário XX, basta que você olhe para ela para saber que esta gozando. Mas do que estaria ela gozando? É claro que o testemunho essencial dos místicos é justamente o de dizer que eles o experimentam, mas não sabem nada dele.
Essas ejaculações místicas, não são lorata, nem somente falação, é em suma o que se pode ler de melhor.
Tal imagem demonstra claramente o anjo penetrando a Santa enquanto este goza disso. Baseado nos relatos da santa por fim, que dizia que quando encontrava-se com o anjo, esse a penetrava com a flecha do amor de Deus, há a expressão de como fala Lacan das ejaculações Místicas.
Aqui vale considerar as questões psíquicas, o mandato para que se goze como também diz Lacan no mesmo seminário, vem do superego, instância moralizante e sádica, ambivalente em si mesmo. “Nada força ninguém a gozar, senão o superego. O superego é o imperativo do gozo – Goza!” (2008, p. 11)
No entanto o gozo não serve pra nada. Nele esta implicado a verdade do sujeito, verdade que nunca vem por inteiro. O gozo é um limite “só se interpela, só se evoca, só se suprema, só se elabora a partir de um semblante, de uma aparência”. (2008, p. 99) Vale considerar que, o gozo psicanalítico é diferente do gozo sexual. Ele aponta para a compulsão, a efeitos de descarga. Ou seja, ele se arma como algo em defesa e condição de sobrevivência do próprio sujeito. Aí é preciso levar em consideração a história do sujeito, suas vivências, para que se possa ter uma ideia porque foi assim.
Voltando então a impressão de si, os traçados e modos com que se expressa por fim na obra, a obra de arte em seu nível artístico de pintura, escrita ou mesmo lírica da música esta para o sujeito como o limite de si. Naquela obra, naquela espacialidade em sua frente, se moldam suas vivências e como falava Lacan, o sintoma travessa a fala, a escrita. Em suma, o sujeito atravessado por si mesmo em partes desconhecidas a si mesmo transcende-se na obra.
Por fim, pra encerrar quero evocar aqui uma grande figura brasileira, que revolucionou o teatro e modos de escrita, Nelson Rodrigues.
O interessante de Nelson, que deixava todos de bocas abertas, é porque ele falava de tudo, como se não tivesse pudor. Suas obras eram riquíssimas em conteúdos propriamente humanos. O desejo, a ambivalência das pessoas. Era como a expressão da vida privada em si.
Não é a toa que o nome de sua biografia se chama o anjo pornográfico, pois suas histórias como meu desejo é pecar álbum de família, casamento entre outros eram uma expressão clara. Mas não só dele eram claras evidências do jeito brasileiro de ser, do jeito da sociedade, jeito que ninguém falava pra ninguém. Podia ser que muitos soubessem, mas se sabiam, sabiam pra si, preferiam trocar aquelas histórias por outras histórias.
Nestes termos podemos dizer que Nelson chegava mais perto do caráter humano da vida privada, mas isso era de tradição de família, desde seu avo a seu pai e a seus irmãos na vida jornalística e as manchetes que chamavam a atenção de todos, pois despiam de todo segredo e a coisa estava ai dita com toda ficção jornalística pra que aquilo fosse sensacional.

Neste toque sensacionalista por fim em suas histórias colocava coisas de si, como imagina a história, como a achava mais linda. Desta forma por fim a expressão das artes vai de encontro com a dor, a sensação de si mesmo de quem a produz, seja esse pintor, escritor, ou seja qual for seu ofício.

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