A
imagem do corpo é específica para cada um, está ligada ao sujeito e a sua
história. É eminentemente inconsciente e esta ligada ao desenvolvimento
psíquico com o sujeito, suas falhas e seus excessos, a falta de sentido e o
excesso de excitação vindo do outro, sendo esse outro não só os pais, mas
também a mídia, os amigos, a escola.
Diante
desse entrelaçamento assistimos ao excesso de excitação vinda dos pais
sustentada pelos efeitos e transformações da mídia e da cultura. A criança é
super excitada, impulsiona a agir, mas ninguém lhe explica algo sobre. Nada
sobre aquilo lhe é dito, deve fazer porque todos fazem e a maioria das pessoas
acha legal.
Por
mais que Freud já tenha advertido sobre a sexualidade infantil, ainda hoje
parece que muitos se mantiveram surdos a isso, ou mesmo nunca ouviram falar
sobre. Ainda acreditam que a criança não sofrerá influências da sexualidade nem
da excitação desconhecida do outro endereçada a esta.
Quando
somos constituídos psiquicamente, somos atravessados primeiramente pelos pais,
primariamente pelo mãe. As primeiras ligações e percepções da cria são ligadas
a mãe. No entanto isso não quer dizer que o pai não exista pra ela, nem que não
receba mais nenhuma inscrição psíquica que não tenha vindo da mãe. Posterior a
essa primeira fase, no reconhecimento do outro, reconhece primeiramente o pai e
posteriormente o ciclo social.
Resumidamente
sem explicar muito, desde crianças o que aprendemos vem de nossos pais, cultura
(mídia entre outros), escola e meios sociais. Dentre essas a maior carga que
recebemos vem dos pais, primeiros cuidadores, primeiros contatos da criança.
Devido às mudanças também de nossa cultura atual, pode ser que sejam dois pais
ou duas mães, ou dois pais, ou até avós que são os cuidadores. Mas levar para
esses lados exigiria uma grande explicação, que no caso não cabe aos objetivos
desse texto.
Nossa
imagem corporal por fim se constitui desde a mais tenra inf6ancia, afinal como
dizia Freud o eu antes de ser eu é eu-corpo. O corpo é quem primeiro é
constituído na criança. A imagem de si está fundamentada principalmente nos
tempos do narcisismo, primeiros tempos ou como diria Lacan, na fase do espelho,
primeiro me vejo e não me reconheço, acho que sou apenas extensão daquele que
me mostra no espelho, mas depois reconheço a diferença e sei que na imagem
refletida há eu e um outro.
Toda
época teve sua forma de ver o corpo, hoje o bem estar é o corpo magro, quase
esquelético, essa é a exigência. No entanto as coisas parecem entrar em
contradição quando vemos que o incentivo a que se coma, que se beba em demasia
é nos passado todo dia. Nos seriados de Tv, filmes, é comum ver personagens
onde há sempre uma cerveja na geladeira, nunca falta uma. Se puder toda vez
quando houver a cena envolvendo a própria casa, a geladeira e a cerveja tem seu
lugar garantido.
Também
sabemos, que todo filme tem seu comercial que se faz de fundo em poucos
segundos para alguma marca. Às vezes também nem se percebe, é preciso uma visão
atenta para enxergar tal fenômeno.
Esses
fenômenos e outros por fim, constituem e fazem parte da teoria e ideia que
construímos como imagem de si. No entanto muitas vezes parece que não é de
interesse nem da cultura, nem de nossos pais que tenhamos uma ideia de si, pois
se formos contestadores de algo, de alguma ideia isso pode abalar as normas.
Tudo nos é passado como se sempre estivessem cuidando de nós, desde o momento
que acordamos até o momento que dormimos, e quando dormimos também. Para
comprovar isso toda comunidade traz consigo seu mito e superstições que
garantam o bem estar de sua população.
Frente
a isso, essa ideia, fantasia construída sobre si parece ser cada vez mais
pobre, elementos para que o sujeito pense, possa fantasiar parecem não ser mais
necessários, sempre haverá alguém pensando, preocupado com você.
Essa
é a ideia que vendem, mas não é verdade, se não formos nós responsáveis por nós
mesmos estaremos entregues as piores coisas de si mesmo.
No
entanto frente ao não pensamento sobre si e a ausência de capacidade
fantasiosa, ou pequena, a angústia do sujeito não tem destino, seu destino cai
no primeiro lugar, o corpo. Com isso vemos surgir às doenças psicossomáticas e
a clínica do vazio.
Os
tipos de doenças são várias, mas cada doença dependerá de como o sujeito se vê
e suas condições psíquicas. “O sofrimento que não pode ser elaborado remete às
mesmas condições em que vive o infans, a criança que ainda não adquiriu a fala,
e não poder, por isso, traduzir suas vivências.” (ÁVILA, 2004, p. 171)
Aqui
é preciso levar em consideração a história do sujeito frente a questão do
incrito representável e do inscrito irrepresentável. Conforme (Bleichmar, 2011,
p.155) no somático se passa algo que se inscreveu no sujeito, mas que não se
suporta e que ao mesmo tempo é não simbolizável. O qual não quer dizer que o
aparelho em seu conjunto não possa simbolizar. Ou seja, não há sujeito que não
tenha psicossomáticas, pois é impossível que haja alguém que seja capaz de
conter e transcrever tudo.
A
primeira inscrição é no corpo, é senso percepção. Essas primeiras inscrições
também fazem parte no sujeito e influenciam no seu modo de ser. Mas vale
considerar aqui também, levando em conta o tema do texto, que nem todo que
sofre no corpo sofre por psicossomática. Há também algo que fica evidente hoje
nos casos de bulimia e anorexia.
Nos
casos de bulimia, há uma tendência a se comer em excesso. Mas alguém se
perguntou frente ao que isso acontece?
Tal
fenômeno acontece diante da angústia e uma voracidade por parte do sujeito,
pressa em comer, pressa em se sentir saciado. Ele tem pressa para não sentir o
desamparo, então ele come.
Nos
casos de anorexia, parece haver uma inversão, o sujeito (a) precisa colocar
para fora tudo o que come, pois aquilo pode resultar num corpo mal formado.
Aqui a imagem corporal fica em jogo, é preciso manter a imagem do ideal, no
entanto o ideal parece nunca ter sido alcançado, sempre da pra fazer um
pouquinho mais, mesmo quando alertam-lhe que está esquelético (a).
O
corpo e a imagem corporal por fim, esta presente em todas as estruturas
psíquicas, seja como imagem e expressão da doença, como em imagem de sedução e
de poder como no caso dos perversos.
No
começo da psicanálise e esse olhar para o corpo mais de perto, as responsáveis
pelo tumulto eram as histéricas, conhecidas vulgarmente hoje, com as histéricas
de Freud, mesmo que o estudo dessa veio antes de Freud, por parte de Charcot e
Goodreck, mas foi Freud quem primeiro se interessou por escutá-las.
Frente
a esse artificie de escuta, é possível observar tais manifestações, seja em nível
de psicossomática ou qualquer outra estrutura clínica. O corpo é de fato
pertencente e demonstrativo de todos. Ferenczi chama atenção quanto ao corpo,
quando fala sobre o ato analítico, que seria o ato para que a intervenção feita
fosse efetiva, pois o corpo também é forma de não pensar quando devemos pensar,
também é forma de desviar atenção e energia.
O
que se propõe de toda forma é uma ação frente ao paciente, independente se
psicossomatizador ou que estrutura for, mantendo a integridade desse em busca
de ajuda-lo a se pensar, e que possa tornar-se dono do próprio destino.
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