domingo, 4 de janeiro de 2015

Felicidade como gozo do sujeito


Em 1908 Freud escreve A Moral sexual civilizatória como expressão dos costumes de sua época. Em 1932 modifica e complementa suas ideias em O Mal estar na Civilização. Fala do mal estar como a negação da satisfação da satisfação da pulsão para viver em sociedade. Derrida em um seminário em 2002 para psicanalistas O estado de ânimo da psicanálise fala das diferenças culturais de hoje, onde a moral construída esta centrada na crueldade, ou como falam os lacanianos, gozar a qualquer preço.
Tais demonstrações sempre estiveram ligadas ao superego e a sua ambiguidade moral (ética) e pulsional sádica. Em nossos tempos, frente ao afrouxamento dos ideais e o desencantamento do mundo, encontramo-nos numa situação, onde o que se deve aproveitar é o momento. Goze...
Não admira que na última década tenha surgido como disciplina científica autônoma a felicidade. “Hoje há professores de felicidade nas universidades, institutos de qualidade de vida, vinculados a elas e numerosos artigos de pesquisas sobre o assunto;”. (ZIZEK, 2011 p. 63)
            O editor chefe da revista sobre os estudos da felicidade, argumenta que “Agora podemos mostrar quais os comportamento são arriscados no que diz respeito à felicidade, da mesma maneira que a pesquisa médica nos mostrou o que faz mal à saúde. Finalmente seremos capazes de mostrar que tipo de estilo de vida combina com que tipo de pessoa.”(ZIZEK, 2011 p. 63)
            Essa nova disciplina tem dois ramos, de um lado há uma abordagem mais sociológica, com bases em dados coletados em centenas de pesquisas, que medem a felicidade em diferentes culturas, profissões, religiões, grupos sociais e econômicos. De outro lado há uma abordagem mais psicológica (ou melhor neurocientífica) , que combina a pesquisa científica cognitivista com incursões ocasionais pela sabedoria midiativa new age. A medição exata dos processos cerebrais que acompanham as sensações de felicidade, satisfação, etc.
            Essa nova pesquisa científica, parece operar uma torção ética, oferecendo-se sobre o disfarce como pesquisa para que surja uma nova moralidade, que ficamos tentados a chamar de biomaralidade.
            No entanto essa biomoralidade traz também implícita em si a tortura como prevenção do sofrimento. Como o sofrimento causado para que se evite sofrer depois. Traz implícito em si a ilusão ética, paralela às ilusões perceptuais.
            Como expressão dessas práticas, Sam Harris explicita em seu livro A Morte da Fé a pílula da verdade, onde dada essa ao terrorista ele dormiria e depois contaria tudo até o fim. O que nos lembra o evento de Serbsky na União Soviética Comunista no tempo da segunda guerra mundial, onde se dava uma droga desenvolvida por psiquiatras ao prisioneiro para o torturar para que ele falasse a verdade.
             A tortura se tornou o paradigma da contemporaneidade, tanto nos casos da pílula da verdade, como nos casos do cotidiano e da felicidade a qualquer custo. Você não só não deve se dizer infeliz, como não deve. Aqueles que declaram sua infelicidade são tachados como perdedores, excluídos. São excluídos dos grupos sociais e do convívio com os de mais. Nem mais no trabalho eles frequentam. São evitados. Eis o caso dos depressivos.
         No caso dos depressivos, há uma construção nosológica que vem aumentado seus quadros, dimensões e abrangência conforme se passam os anos conforme tem indicado a clínica.
            A depressão é apontada por uns como mal do século, por outros como característica de pessoas com falta de vontade. Tem se tornado um quadro confuso, pois agora ninguém pode sentir tristeza, nem um desânimo. Se chegar a falar disso para o médico, receberá anti depressivos.
            Incentivados aos atos, entregues as compulsões, parece não ter mais com quem conversar, mas a final, porque conversar com alguém se o que se deve é aproveitar o momento e ser feliz?
            Tais práticas tem incentivado a patologização e medicação da vida cotidiana, reduzidos a biopolítica em estado avançado.
            

ZIZEK S. Em defesa das causas perdidas. Rio de Janeiro: Boitempo, 2011.

DERRIDA, J. Estados de ánimo del psicoanálisis. Buenos Aires: Paidós, 2000.

FREUD S. O Mal estar na civilização. In: Obras completas de Sigmund Freud, v. 21. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

_____.  Moral sexual civilizada e doença moderna. In: Obras completas de Sigmund Freud, v. 9. Imago: Rio de Janeiro: 2006. p. 167-186.


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