Em
1908 Freud escreve A Moral sexual
civilizatória como expressão dos costumes de sua época. Em 1932 modifica e
complementa suas ideias em O Mal estar na
Civilização. Fala do mal estar como a negação da satisfação da satisfação
da pulsão para viver em sociedade. Derrida em um seminário em 2002 para
psicanalistas O estado de ânimo da
psicanálise fala das diferenças culturais de hoje, onde a moral construída
esta centrada na crueldade, ou como falam os lacanianos, gozar a qualquer
preço.
Tais
demonstrações sempre estiveram ligadas ao superego e a sua ambiguidade moral
(ética) e pulsional sádica. Em nossos tempos, frente ao afrouxamento dos ideais
e o desencantamento do mundo, encontramo-nos numa situação, onde o que se deve
aproveitar é o momento. Goze...
Não
admira que na última década tenha surgido como disciplina científica autônoma a
felicidade. “Hoje há professores de felicidade nas universidades, institutos de
qualidade de vida, vinculados a elas e numerosos artigos de pesquisas sobre o
assunto;”. (ZIZEK, 2011 p. 63)
O editor chefe da revista sobre os estudos da felicidade,
argumenta que “Agora podemos mostrar quais os comportamento são arriscados no
que diz respeito à felicidade, da mesma maneira que a pesquisa médica nos
mostrou o que faz mal à saúde. Finalmente seremos capazes de mostrar que tipo
de estilo de vida combina com que tipo de pessoa.”(ZIZEK, 2011 p. 63)
Essa nova disciplina tem dois ramos, de um lado há uma
abordagem mais sociológica, com bases em dados coletados em centenas de
pesquisas, que medem a felicidade em diferentes culturas, profissões,
religiões, grupos sociais e econômicos. De outro lado há uma abordagem mais
psicológica (ou melhor neurocientífica) , que combina a pesquisa científica
cognitivista com incursões ocasionais pela sabedoria midiativa new age. A
medição exata dos processos cerebrais que acompanham as sensações de
felicidade, satisfação, etc.
Essa nova pesquisa científica, parece operar uma torção
ética, oferecendo-se sobre o disfarce como pesquisa para que surja uma nova
moralidade, que ficamos tentados a chamar de biomaralidade.
No entanto essa biomoralidade traz também implícita em si
a tortura como prevenção do sofrimento. Como o sofrimento causado para que se
evite sofrer depois. Traz implícito em si a ilusão ética, paralela às ilusões
perceptuais.
Como expressão dessas práticas, Sam Harris explicita em
seu livro A Morte da Fé a pílula da
verdade, onde dada essa ao terrorista ele dormiria e depois contaria tudo até o
fim. O que nos lembra o evento de Serbsky na União Soviética Comunista no tempo
da segunda guerra mundial, onde se dava uma droga desenvolvida por psiquiatras
ao prisioneiro para o torturar para que ele falasse a verdade.
A tortura se tornou o
paradigma da contemporaneidade, tanto nos casos da pílula da verdade, como nos
casos do cotidiano e da felicidade a qualquer custo. Você não só não deve se
dizer infeliz, como não deve. Aqueles que declaram sua infelicidade são
tachados como perdedores, excluídos. São excluídos dos grupos sociais e do
convívio com os de mais. Nem mais no trabalho eles frequentam. São evitados.
Eis o caso dos depressivos.
No caso dos
depressivos, há uma construção nosológica que vem aumentado seus quadros,
dimensões e abrangência conforme se passam os anos conforme tem indicado a
clínica.
A depressão é apontada por uns como mal do século, por outros
como característica de pessoas com falta de vontade. Tem se tornado um quadro
confuso, pois agora ninguém pode sentir tristeza, nem um desânimo. Se chegar a
falar disso para o médico, receberá anti depressivos.
Incentivados aos atos, entregues as compulsões, parece
não ter mais com quem conversar, mas a final, porque conversar com alguém se o
que se deve é aproveitar o momento e ser feliz?
Tais práticas tem incentivado a patologização e medicação
da vida cotidiana, reduzidos a biopolítica em estado avançado.
ZIZEK S. Em defesa das
causas perdidas. Rio de Janeiro: Boitempo, 2011.
DERRIDA,
J. Estados de ánimo del psicoanálisis.
Buenos Aires: Paidós, 2000.
FREUD
S. O Mal estar na civilização. In: Obras completas de Sigmund Freud, v. 21. Rio
de Janeiro: Imago, 2006.
_____. Moral sexual
civilizada e doença moderna. In: Obras completas
de Sigmund Freud, v. 9. Imago: Rio de Janeiro: 2006. p. 167-186.
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