É
de conhecimento geral das pessoas a necessidade dos médicos, e o quanto estes
são úteis a nossa saúde. No entanto, nem todos sabem qual é o limite da
condição dos médicos, até onde vai o seu conhecimento, até onde ele pode nos
ajudar? Serve ele para todos os problemas?
Antes de tocar nessas perguntas vou fazer um apanhado
histórico com base em Foucault e O
Nascimento da Clínica e História da Loucura. Tomo como base também um
trabalho de discussão realizado por mim e alunos da medicina junto a um
professor de filosofia.
Como
é possível ver pela linha que Foucault discute em suas obras, a entrada da
medicina no discurso como classificador da doença determina que a origem da
clínica é também, a origem da normatização do homem. A medicina como ciência
clínica surgiu sob a definição de que, devido ao seu momento histórico de
grande desenvolvimento, auge do século XVIII, representa a pura correlação
entre a experiência e a racionalidade.
Aqui
é preciso um esclarecimento sobre os conceitos de Foucault, daquilo que ele nos
coloca como normatização. Dentro de sua obra e seu modo de ler a história
Foucault costuma fazer um apanhado sobre como surgiram as ideias que
fundamentam o que há hoje. Em outras palavras, quando ele estabelece a
normatização da clínica, esta se referindo ao modelo que deu origem a
normatização do homem hoje. Trabalha isso também em outra de suas obras: O nascimento da biopolítica. Vale
observar que tal fenômenos são os que dão origem ao modo operacionalizante da
medicina, que desde o início do século XIX assinala sua originalidade,
criticando seu passado, e se apresenta como medicina cientifica.
É
necessário observar um movimento, que insiste em se repetir, que também foi
organizador da medicina como ciência. A evolução das técnicas médicas somente
se dedicou verdadeiramente a população no momento em que ela por inteiro era
tratada como vítima de uma mazela monumental.
“Só
poderia haver medicina das epidemias se acompanhadas de uma polícia: vigiar a
instalação das minas e dos cemitérios, obter o maior número de vezes possível,
a incineração dos cadáveres, em vez de sua inumação, controlar o comércio do
pão, do vinho e da carne, regulamentar os matadouros, as tinturarias, proibir
as habitações insalubres: seria necessário que depois de um estudo detalhado de
todo o território se estabelecesse, para cada província, um regulamento de
saúde para ser lido “na missa ou no sermão, todos os domingos e dias santos”.”
(FOUCAULT, 2011, p. 26)
A medicina não deve mais ser somente técnica e ter como
modelo o homem doente, mas sim ter como modelo o homem saudável, “isto é, ao
mesmo tempo uma experiência do homem não doente e uma definição do homem
modelo.” (2011, p. 37) Com isso nasce junto por fim a normatização do homem, daquilo
que ele deveria ser. Sob quais normas.
Durante muito tempo como aborda Foucault dentro de História da Loucura, houve diferentes
formas de tomar a origem das doenças, mudando estes conforme a evolução das
experiências e conhecimento. Já se chegou a crer que as doenças eram
transmitidas pelo ar, como de origem sanguínea. Disso surgiu o expurgo, que deu
origem ao que hoje conhecemos como nível de sangue que da para tirar de uma
pessoas. Mas para que se soubesse disso, muitos morreram na experiência biomédica.
O horror e a inverdade dessas concepções, não ignora seus pontos de verdade,
pois ainda há doenças que no contato se transmite pelo ar, assim como doenças
do sangue e que se transmitem no sangue. Houve também outros métodos, como o
banho gelado e a eletroterapia, que deu origem ao tratamento nos dias atuais da
eletroconvulsoterapia, usado em casos de psicose ou esquizofrenia em busca da
cura dessas.
A ideia do sangue como transmissor e causador das doenças
ainda permanece no imaginário cotidiano. Devido a isso também se aceita de bom
grado a regressão a essa concepção da medicina genética que começa a dizer que
todo tipo de patologia ou orientação que passa pelo psiquismo é uma
predisposição genética. Difícil de acreditar, mas que acreditem é a ideia da
biomedicina biopolítica que nos reduz ao puro orgânico, como se fossemos mortos
vivos. Aqui alguns autores fazem uma comparação aos campos de concentração de
Auschwitz e a biopolítica em seu extremo, onde os musulman (corpos vivos de
espírito morto, sem vida nem cor) eram o
exemplo disso.
Tais pontos nos fazem voltar às perguntas iniciais.
Médico é preciso sim, pois todos temos organismo e um corpo anatomo orgânico.
No entanto não nos reduzimos a isso, também temos subjetividade e um psiquismo.
Há a união corpo e mente. Essa união foi visada primeiramente como teoria no
cogito cartesiano “penso logo existo”, depois sendo redefinido como apontou
Lacan por Freud. Com a descoberta do inconsciente por Freud, foi-se também
desenvolvido junto com seu novo conhecimento psicanalítico a psiquiatria, até
que a partir da década de 60 essa se torna-se uma ciência por se unir a
medicina, que por muito tempo a negou e renegou. Tendo se juntado ao campo da
medicina, a psiquiatria volta-se também ao orgânico em sua anatomo patologia.
Disso vimos surgir também a psicologia positiva e as neurociências, sendo que a
psicologia positiva, também é uma neurociência, seu interesse da mesma forma
que esta, se concentra em que parte do cérebro acontecem os eventos psi e como
formar sujeitos felizes.
Desmembrar a orientação da psicologia positiva e das
neurociências por fim exigiria um tratado, então deixemos isso de lado e nos
voltemos ao tema do texto, até onde vai o médico, até onde seu conhecimento da
conta do mal estar contemporâneo?
Da conta até que seja algo do corpo em si como corpo em
sua função orgânica, no entanto quando toca em questões de subjetividade e vida
psíquica cai fora de sua alçada, o que se passa com o sujeito. Inclusive de
saber indicar falando a linguagem psicológica como tal.
FOUCAULT M. O Nascimento da Clínica. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2011.
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