quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Até onde a medicina pode nos ajudar

É de conhecimento geral das pessoas a necessidade dos médicos, e o quanto estes são úteis a nossa saúde. No entanto, nem todos sabem qual é o limite da condição dos médicos, até onde vai o seu conhecimento, até onde ele pode nos ajudar? Serve ele para todos os problemas?
            Antes de tocar nessas perguntas vou fazer um apanhado histórico com base em Foucault e O Nascimento da Clínica e História da Loucura. Tomo como base também um trabalho de discussão realizado por mim e alunos da medicina junto a um professor de filosofia.
Como é possível ver pela linha que Foucault discute em suas obras, a entrada da medicina no discurso como classificador da doença determina que a origem da clínica é também, a origem da normatização do homem. A medicina como ciência clínica surgiu sob a definição de que, devido ao seu momento histórico de grande desenvolvimento, auge do século XVIII, representa a pura correlação entre a experiência e a racionalidade.
Aqui é preciso um esclarecimento sobre os conceitos de Foucault, daquilo que ele nos coloca como normatização. Dentro de sua obra e seu modo de ler a história Foucault costuma fazer um apanhado sobre como surgiram as ideias que fundamentam o que há hoje. Em outras palavras, quando ele estabelece a normatização da clínica, esta se referindo ao modelo que deu origem a normatização do homem hoje. Trabalha isso também em outra de suas obras: O nascimento da biopolítica. Vale observar que tal fenômenos são os que dão origem ao modo operacionalizante da medicina, que desde o início do século XIX assinala sua originalidade, criticando seu passado, e se apresenta como medicina cientifica.
É necessário observar um movimento, que insiste em se repetir, que também foi organizador da medicina como ciência. A evolução das técnicas médicas somente se dedicou verdadeiramente a população no momento em que ela por inteiro era tratada como vítima de uma mazela monumental.
“Só poderia haver medicina das epidemias se acompanhadas de uma polícia: vigiar a instalação das minas e dos cemitérios, obter o maior número de vezes possível, a incineração dos cadáveres, em vez de sua inumação, controlar o comércio do pão, do vinho e da carne, regulamentar os matadouros, as tinturarias, proibir as habitações insalubres: seria necessário que depois de um estudo detalhado de todo o território se estabelecesse, para cada província, um regulamento de saúde para ser lido “na missa ou no sermão, todos os domingos e dias santos”.” (FOUCAULT, 2011, p. 26)
            A medicina não deve mais ser somente técnica e ter como modelo o homem doente, mas sim ter como modelo o homem saudável, “isto é, ao mesmo tempo uma experiência do homem não doente e uma definição do homem modelo.” (2011, p. 37) Com isso nasce junto por fim a normatização do homem, daquilo que ele deveria ser. Sob quais normas.
            Durante muito tempo como aborda Foucault dentro de História da Loucura, houve diferentes formas de tomar a origem das doenças, mudando estes conforme a evolução das experiências e conhecimento. Já se chegou a crer que as doenças eram transmitidas pelo ar, como de origem sanguínea. Disso surgiu o expurgo, que deu origem ao que hoje conhecemos como nível de sangue que da para tirar de uma pessoas. Mas para que se soubesse disso, muitos morreram na experiência biomédica. O horror e a inverdade dessas concepções, não ignora seus pontos de verdade, pois ainda há doenças que no contato se transmite pelo ar, assim como doenças do sangue e que se transmitem no sangue. Houve também outros métodos, como o banho gelado e a eletroterapia, que deu origem ao tratamento nos dias atuais da eletroconvulsoterapia, usado em casos de psicose ou esquizofrenia em busca da cura dessas.
            A ideia do sangue como transmissor e causador das doenças ainda permanece no imaginário cotidiano. Devido a isso também se aceita de bom grado a regressão a essa concepção da medicina genética que começa a dizer que todo tipo de patologia ou orientação que passa pelo psiquismo é uma predisposição genética. Difícil de acreditar, mas que acreditem é a ideia da biomedicina biopolítica que nos reduz ao puro orgânico, como se fossemos mortos vivos. Aqui alguns autores fazem uma comparação aos campos de concentração de Auschwitz e a biopolítica em seu extremo, onde os musulman (corpos vivos de espírito morto, sem vida nem cor)  eram o exemplo disso.
            Tais pontos nos fazem voltar às perguntas iniciais. Médico é preciso sim, pois todos temos organismo e um corpo anatomo orgânico. No entanto não nos reduzimos a isso, também temos subjetividade e um psiquismo. Há a união corpo e mente. Essa união foi visada primeiramente como teoria no cogito cartesiano “penso logo existo”, depois sendo redefinido como apontou Lacan por Freud. Com a descoberta do inconsciente por Freud, foi-se também desenvolvido junto com seu novo conhecimento psicanalítico a psiquiatria, até que a partir da década de 60 essa se torna-se uma ciência por se unir a medicina, que por muito tempo a negou e renegou. Tendo se juntado ao campo da medicina, a psiquiatria volta-se também ao orgânico em sua anatomo patologia. Disso vimos surgir também a psicologia positiva e as neurociências, sendo que a psicologia positiva, também é uma neurociência, seu interesse da mesma forma que esta, se concentra em que parte do cérebro acontecem os eventos psi e como formar sujeitos felizes.
            Desmembrar a orientação da psicologia positiva e das neurociências por fim exigiria um tratado, então deixemos isso de lado e nos voltemos ao tema do texto, até onde vai o médico, até onde seu conhecimento da conta do mal estar contemporâneo?
            Da conta até que seja algo do corpo em si como corpo em sua função orgânica, no entanto quando toca em questões de subjetividade e vida psíquica cai fora de sua alçada, o que se passa com o sujeito. Inclusive de saber indicar falando a linguagem psicológica como tal.


FOUCAULT M. O Nascimento da Clínica. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2011.

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