segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Desamparo

Com o advento da modernidade, da civilização, também houve o advento do mal estar próprio ao seu tempo. No tempo de Freud o mal estar estava centrado nas histéricas, na não satisfação da pulsão como modo de vida em sociedade...
Em nosso tempo, algumas coisas se inverteram. Com o avanço da tecnologia, agora coisas que o homem nunca teve antes a sua disposição a não satisfação da pulsão se tornou um motivo para ser excluído. A ordem agora é: Goze! Goze a qualquer preço!
Conforme ADAMI (2014, p. 22), esse constante estimulo ao gozo carrega consigo um caráter mortífero, onde
Encontramo-nos num tempo que opera a serviço da barbárie, com constantemente estimulação do gozo – gozo mortífero – na medida em que comemos e consumimos desmesuradamente sem alcançar a satisfação e mantendo um constante ciclo de repetição. O que se propõe é uma constante infelicidade, forma cruel de exercício de poder. Como observa Freud em Considerações atuais sobre Guerra e Morte e Por que a Guerra?, podemos pôr fim a todo tipo de assassinatos numa guerra sangrenta seja com diversos tipos de instrumentos, como faca, guilhotina, arma de fogo, mas a crueldade seguirá sendo uma crueldade que pertence ao sujeito. Conforme Bleichmar, “um ser humano não pode constituir-se sem uma crueldade, ou digamos, sem os componentes mortíferos que acompanham o surgimento da pulsão” (2011, p. 112).

A isso se ligam a cultura do hedonismo e o masoquismo. Para não sentir o desamparo, se liga a um outro como objeto do gozo desse. Procura alguém que siga a ordem do senhor e do escravo, todo seu corpo é do senhor. Enquanto o masoquista procura um senhor, o perverso que se aproveita da situação, destrona e aniquila toda a subjetividade daquele que a ele se atrai.
“O sujeito perverso funciona como agenciador da pobreza erótica e simbólica na sociedade das massas, transformando a energia que ainda sobra aos pobres de espírito em potencial de violência.” (BIRMAN, 2009, p. 48). Para isso, oferece aos masoquistas o símbolo fálico a qual esses possam se colar.
Conforme o registro da experiência analítica (2009, p. 49) a subjetividade perversa é um dos destinos que conduz a individualidade à recusa da feminilidade e do desamparo, assim como o masoquismo.
Para que possa sustentar sua posição, e evitar a fragilidade e sua finitude para que possa se demonstrar auto-suficiente, tem horror a qualquer diferença. Por isso mesmo, para a exaltação do seu eu, é preciso que possa de maneira canibal realizar a predação do outro. Sempre que algum traço de qualquer outro demonstrar a diferença, se sentira ameaçado em seu ser. O que importa é que o perverso porta esse signo de aniquilamento para manter sua onipotência de maneira e forma arrogante.
Face a diferença no entanto o sujeito é deparado frente a angústia do real. “Pela angústia do real que o atravessa, o sujeito tem de inventar um estilo de existência pela singularidade e pela diferença.”(2009, p. 49) Quando o sujeito entra em contato com a diferença, seja em uma forma de funcionamento masoquista ou perversa, a angústia lhe parece muito forte. O desamparo se torna real, no entanto pra que se possa o superar é preciso a ida do sujeito a análise ou terapia para que possa suportar essa angústia de desamparo com a ajuda devida para sua melhora.

Não obstante sabemos que tais estruturas dificilmente reconhecem a necessidade de ajuda, e mesmo depois de conhecida tal necessidade dificilmente continuam por muito tempo indo à análise.

BIRMAN J. Mal estar na atualidade. Rio de Janeiro: civilização brasileira, 2009.
ADAMI A. Crueldade e Psicopatia. Artigo apresentado como conclusão de curso em psicologia UPF, 2014.

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