Com o advento
da modernidade, da civilização, também houve o advento do mal estar próprio ao
seu tempo. No tempo de Freud o mal estar estava centrado nas histéricas, na não
satisfação da pulsão como modo de vida em sociedade...
Em nosso
tempo, algumas coisas se inverteram. Com o avanço da tecnologia, agora coisas
que o homem nunca teve antes a sua disposição a não satisfação da pulsão se
tornou um motivo para ser excluído. A ordem agora é: Goze! Goze a qualquer
preço!
Conforme ADAMI
(2014, p. 22), esse constante estimulo ao gozo carrega consigo um caráter mortífero,
onde
Encontramo-nos num tempo que opera a serviço da barbárie, com
constantemente estimulação do gozo – gozo mortífero – na medida em que comemos
e consumimos desmesuradamente sem alcançar a satisfação e mantendo um constante
ciclo de repetição. O que se propõe é uma constante infelicidade, forma cruel
de exercício de poder. Como observa Freud em Considerações atuais sobre Guerra e Morte e Por que a Guerra?, podemos
pôr fim a todo tipo de assassinatos numa guerra sangrenta seja com diversos
tipos de instrumentos, como faca, guilhotina, arma de fogo, mas a crueldade
seguirá sendo uma crueldade que pertence ao sujeito. Conforme Bleichmar, “um
ser humano não pode constituir-se sem uma crueldade, ou digamos, sem os
componentes mortíferos que acompanham o surgimento da pulsão” (2011, p. 112).
A isso se
ligam a cultura do hedonismo e o masoquismo. Para não sentir o desamparo, se
liga a um outro como objeto do gozo desse. Procura alguém que siga a ordem do
senhor e do escravo, todo seu corpo é do senhor. Enquanto o masoquista procura
um senhor, o perverso que se aproveita da situação, destrona e aniquila toda a
subjetividade daquele que a ele se atrai.
“O sujeito
perverso funciona como agenciador da pobreza erótica e simbólica na sociedade
das massas, transformando a energia que ainda sobra aos pobres de espírito em
potencial de violência.” (BIRMAN, 2009, p. 48). Para isso, oferece aos
masoquistas o símbolo fálico a qual esses possam se colar.
Conforme o
registro da experiência analítica (2009, p. 49) a subjetividade perversa é um
dos destinos que conduz a individualidade à recusa da feminilidade e do
desamparo, assim como o masoquismo.
Para que possa
sustentar sua posição, e evitar a fragilidade e sua finitude para que possa se
demonstrar auto-suficiente, tem horror a qualquer diferença. Por isso mesmo,
para a exaltação do seu eu, é preciso que possa de maneira canibal realizar a
predação do outro. Sempre que algum traço de qualquer outro demonstrar a
diferença, se sentira ameaçado em seu ser. O que importa é que o perverso porta
esse signo de aniquilamento para manter sua onipotência de maneira e forma
arrogante.
Face a
diferença no entanto o sujeito é deparado frente a angústia do real. “Pela
angústia do real que o atravessa, o sujeito tem de inventar um estilo de
existência pela singularidade e pela diferença.”(2009, p. 49) Quando o sujeito
entra em contato com a diferença, seja em uma forma de funcionamento masoquista
ou perversa, a angústia lhe parece muito forte. O desamparo se torna real, no
entanto pra que se possa o superar é preciso a ida do sujeito a análise ou
terapia para que possa suportar essa angústia de desamparo com a ajuda devida
para sua melhora.
Não obstante
sabemos que tais estruturas dificilmente reconhecem a necessidade de ajuda, e
mesmo depois de conhecida tal necessidade dificilmente continuam por muito
tempo indo à análise.
BIRMAN J. Mal estar na atualidade. Rio de Janeiro: civilização brasileira, 2009.
ADAMI A. Crueldade e Psicopatia. Artigo apresentado como conclusão de curso em psicologia UPF, 2014.
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